2 de abril: Dia Mundial de Conscientização do Autismo

O autismo na vida adulta ainda é pouco abordado e igualmente importante

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Hoje é dia mundial da consciência do que é o autismo (Foto: Agência Estado)

A ONU (Organização das Nações Unidas), definiu o dia 2 de abril como sendo o Dia Mundial de Conscientização do Autismo (no original em inglês: World Autism Awareness Day). O objetivo, afinal, é chamar a atenção da sociedade para o Transtorno do Espectro Autista (TEA).

Em 2021, a comunidade envolvida com a causa do autismo no Brasil todo segue, unida, em uma campanha nacional com tema único: “Respeito para todo o espectro”, para celebrar a data, usando a hashtag #RESPECTRO nas redes sociais.

O autismo ou TEA é uma condição de saúde caracterizada por déficit em duas importantes áreas do desenvolvimento: comunicação social e comportamento.

Sobretudo, não há só um tipo de autismo, mas muitos subtipos, que se manifestam de uma maneira única em cada pessoa. Tão abrangente que se usa o termo “espectro”, pelos vários níveis de comprometimento.

Assim como há pessoas com condições associadas (comorbidades), entre elas deficiência intelectual e epilepsia, até pessoas independentes, com vida comum, muitas nem sabem que são autistas.

Autismo e ingenuidade

Ao relatar a convivência com seus filhos autistas, muitos pais são unânimes em afirmar: “ele não tem noção do perigo!”, “não entende que pode se machucar!” ou “meu filho não tem maldade e acredita em tudo!”, conta a blogueira Alice, de 22 anos. Ela é diagnosticada com TEA e também com TAG (Transtorno de Ansiedade Generalizada).

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A blogueira Alice (Foto: Arquivo Pessoal)

“De fato, nós autistas somos mais ingênuos do que o resto da população”, pontua. Isso trás em si muitos riscos, independente da idade da pessoa. Similarmente, o excesso de ingenuidade pode ser engraçado ou bonitinho no início, mas é importante entender que é algo muito perigoso para o autista e que, inegavelmente, precisa ser trabalhado.

Quando tinha 14 ou 16 anos, Alice foi à uma festa junina, com o tradicional casamento de mentira. Tinha uma noiva, um noivo e até um padre, e a palavra casamento era dita a todo momento. A jovem acreditava fielmente que era um casamento de verdade. “Na hora do casório, o padre soltou um palavrão. Eu fiquei perplexa”, conta Alice, que foi reclamar para os pais da má postura, assim como a falta de ética do suposto padre. Foi aí que eles disseram, espantados: “ela acreditou!”.

“Me senti uma boba por ter sido a única a não entender que era uma brincadeira. Nunca entendi o motivo de ter essa característica até receber o meu diagnóstico de autismo”. Também acontece de fazerem uma brincadeira com a jovem e ela levar a sério. “É uma realidade autista. Felizmente já aprendi muita coisa nesses 20 anos de vida e já entendo muitas brincadeiras e piadas”, conclui.

O desafio do autismo na vida adulta

Mesmo que a denominação “Síndrome de Asperger”, caia em desuso em 2022, e tudo será chamado de transtorno do espectro autista, “o que mudou é o nível de funcionamento”, informa a psicóloga Marina Almeida, do Instituto Inclusão Brasil.

Marina é Psicóloga Clínica e Escolar, Pedagoga especialista em Educação Inclusiva, Psicopedagoga, Neuropsicóloga. Ela informa que “O fato da pessoa ser autista leve, tanto em mulheres quanto em homens, não deixa de ser um complicador”.

Segundo a psicóloga, “são pessoas que vão precisar de algum tipo de apoio terapêutico. Seja terapia ocupacional por conta do transtorno de integração social, seja psicoterapia”  Além disso, ela recomenda acompanhamento com neurologista ou psiquiatra para cuidar das comorbidades como depressão, ansiedade.

Sexualidade e autismo

Marina explica que cada autista desenvolverá sua sexualidade de acordo com sua maturidade, que por sua vez é ainda mais tardia quando acompanhada de deficiência intelectual.

A descoberta da sexualidade, segundo a psicóloga, muitas vezes está ligada ao funcionamento familiar, que acaba forçando a infantilização da personalidade.

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A psicóloga Marina Almeida (Foto: Arquivo Pessoal)

Ela explica: “Como são pessoas que já tem a característica da dificuldade social, então, o entrosamento afetivo, a primeira experiência do beijo, do toque, da sexualidade”.

“Assim como do ato sexual, é muito postergado pela família”, enfatiza.

Há de se considerar que eles podem não conseguir obter laços com alguém dentro de um ambiente social típico; conhecer, namorar, ter a experiência sexual, demanda mais tempo para o atípico.

Muitas vezes vai se tornando cada vez mais tardia a experiência sexual tornando-se, muitas vezes, o motivo de um nível de ansiedade altíssimo, depressão, baixa autoestima, raiva.

“Vai desorganizando, porque vários aspectos, principalmente os intelectuais, se desenvolvem e as questões da imaturidade sexual, ficam em segundo plano”, define a psicóloga.

Consequências

Quando esses indivíduos casam, vamos supor que ultrapasse desse patamar da sexualidade, então são mais refratários, então há necessidade de uma intervenção, de um programa terapêutico, desenvolver a sensibilidade da própria pele, do tato, de se sentir com prazer.

“Todo esse vínculo precisa ser construído, que é diferente de uma pessoa típica e que tem uma capacidade de elaboração desses aspectos da sexualidade e do ato sexual que são coisas diferentes”, explica a terapeuta.

A própria erotização, uso de roupas adequadas, o cuidado com a higiene, são aspectos aprendidos pelas pessoas autistas, enquanto nas pessoas  neurotípicas é quase que natural. Eles precisam usar artifícios como aprender através das imagens, do tempo, o que deve ser feito.

A psicóloga alerta que não pode ser algo tão rotineiro dentro de um dia e um horário e que perde a espontaneidade, o carinho, características genuínas de um encontro entre dois seres humanos.

“Vira algo programado ou que o parceiro que tem que procurar porque existe uma inibição da sexualidade”.

O hiperfoco

O hiperfoco depende do que a pessoa autista está se dedicando. Se esse hiperfoco está tomando muito tempo da vida dela, nós temos que abrir uma negociação,  que são uma das questões mais próprias do autismo, que é a inflexibilidade.

Eles precisam aprender a negociar. Por exemplo: pode gostar de pesquisar sobre cosmologia, mas não precisa ficar oito horas. Então tem que negociar para fazer uma atividade física, ajudar a fazer o almoço ou jantar, ir ao supermercado.

Em contrapartida, se o autista mora só tem que aprender a desenvolver novos hábitos. Senão ela sai do hiperfoco e torna-se um comportamento obsessivo. E isso é nocivo para o desenvolvimento da saúde mental.

“Vai acabar alienando esse sujeito”, adverte a terapeuta.

“Entretanto, se esse hiperfoco tem uma perspectiva positiva, criativa, de engajamento, então é um hiperfoco saudável”, define. O que você vai ter que gerenciar, é a frequência e intensidade.

Isso serve tanto para adultos, adolescentes, quanto para crianças. Por isso, a necessidade das intervenções precoces é desenvolver uma mente flexível, que negocie as atividades de vida diária, prática. Assim como os interesses restritos que essa pessoa possa desenvolver ao longo da vida.

 

 

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