Energético: vilão ou mocinho? Entenda os perigos

Conheça a verdadeira composição da bebida e saiba quem não deve consumi-la

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Energéticos
Saiba mais sobre os energéticos. Foto: Envato

O energético, uma bebida colorida, com sabores inusitados e amplamente divulgada pelos influencers que a moçada segue nas redes sociais: seriam elas vilãs ou mocinhas? Entrevistamos a médica endocrinologista, nutróloga e metabolista Fernanda Gomes de Melo, que esclareceu a respeito dos perigos e consumo consciente.

Como é feito o energético?

Conceituando, o energético pertence a um grupo de bebidas estimulantes comercializadas prontas para beber, que contém substâncias estimulantes como cafeína, taurina e inositol.

Elas são propagandeadas como efeito de aumentar a “energia”, melhorar a performance, reduzir a fadiga, bem como fornecer estimulação física e mental, aumentando o estado de alerta.

A especialista informa que não existe uma combinação de ingredientes de consenso para esse tipo de bebida, mas a maioria tem em sua composição cafeína, taurina, inositol, assim como vitaminas do complexo B.

Alguns fabricantes adicionam guaraná, que acaba sendo só mais uma fonte de cafeína, ou podem acrescentar aditivos fitoterápicos, como ginseng ou gingko biloba. Pode conter açúcar e outras fontes de carboidrato ou ser adoçada artificialmente.

Por fim, uma característica importante do energético é que a quantidade de cafeína na composição é maior do que a dos refrigerantes.

Energéticos e desordem do sono

Essas bebidas caíram no gosto do público, sendo cada vez mais consumidas por adolescentes, por quem precisa de uma energia extra na correria da vida moderna, desde a dona de casa, o profissional de escritório ou militares norte-americanos.

Foi feito um estudo com militares norte-americanos, uma vez que observou-se que cerca de 45% dos membros consumiam energéticos regularmente, pelo menos uma unidade, sendo que 14% bebiam mais de três unidades ao dia), sendo um mercado milionário.

Composição

Existem regulamentações internacionais para garantir o efeito e a segurança dessas bebidas, baseadas em evidências científicas.

No Brasil, as bebidas energéticas são regulamentadas pela Anvisa, por meio da Resolução RDC ANVISA 273/2005, que versa sobre “Compostos Líquidos Prontos para o Consumo”.

Isso é especialmente importante para controlar a quantidade mínima e máxima de cada ingrediente ativo nas diferentes marcas existentes.

Os requisitos específicos para o composto líquido pronto para o consumo é:

  • Inositol: máximo 20 mg/100 ml
  • Glucoronolactona: máximo 250 mg/100 ml
  • Taurina: máximo 400 mg/100 ml
  • Cafeína: máximo 35 mg/100 ml
  • Álcool etílico: máximo 0,5 ml/100 ml

Toda e qualquer empresa que não observe os termos dessa resolução é passível de multa, suspensão imediata da comercialização e até a retirada de produtos do mercado.

Os defensores das bebidas energéticas alegam que são composições vendidas em mais de 160 países há mais de 30 anos, com estudos científicos. Eles batem na tecla de que esse tipo de bebida não prejudica a saúde, muito menos estão relacionadas à ocorrências de doenças.

No entanto, esses mesmos estudos observam que as bebidas energéticas precisam ser consumidas com segurança, respeitando-se o limite recomendado. “É importante frisar que a quantidade de componentes presentes nessas bebidas não têm qualquer efeito maléfico à saúde”, explica a nutróloga.

Porém, a ciência ainda não chegou a um consenso a respeito dos energéticos. Revisões mais recentes tem mostrado que os riscos ultrapassam os benefícios e podem indicar a necessidade de uma regulamentação maior.

Ocorrências médicas

O número de atendimentos nos serviços de emergência envolvendo consequências do consumo de bebidas energéticas aumentou de 10.068 em 2007 para 20.783 em 2011.

(Leia em: Substance Abuse and Mental Services Administration)

Os energéticos tem sido associados a consequências cardíacas graves e potencialmente fatais como aumento da pressão, alteração do ritmo cardíaco, com arritmias graves ou até parada cardíaca, infarto, dissecção espontânea de aorta, vasoespasmo de coronárias.

A maioria dos efeitos adversos parece ser manifestação do consumo de quantidade excessiva de cafeína em um curto período de tempo, mas o efeito potencializador dos outros ingredientes não é muito claro.

Após cinco casos de mortes relacionadas ao consumo de energético, os Estados Unidos investiu em uma investigação sobre a segurança desse tipo de bebida, ainda em andamento.

O que se sabe sobre os efeitos das bebidas energéticas?

  • Cafeína

A cafeína é uma substância naturalmente encontrada em muitas alimentos e plantas, incluindo grãos de café, folhas de chá e de erva mate e no cacau. É o ingrediente ativo mais importante dos energéticos, podendo ser de origem sintética ou vir de fontes naturais como guaraná ou erva mate.

Depois de ingerida, a cafeína é absorvida e atinge um pico de concentração em 15 a 45 minutos. Produz alerta mental, aumento da concentração e do foco, diminui a sensação de fadiga, ativa o sistema nervoso simpático levando a liberação de adrenalina e noradrenalina.

Dra. Fernanda alerta, no entanto, que a cafeína leva a aumento da frequência cardíaca, aumenta as secreções do estômago, tem efeito diurético e broncodilatador. Muitos desses efeitos são mais sentidos por pessoas que não tem hábito de consumo, sendo muito menos percebidos por consumidores habituais, por exemplo, bebedores diários de café.

Perigos

Tanto a taurina quanto a cafeína são conhecidas como drogas psicoativas, ou seja, estimulantes diretos do sistema nervoso central. Nos 45 minutos iniciais, há um pico da substância na circulação, deixando o indivíduo mais alerta, atento, concentrado. Reduz-se o cansaço, a fadiga mental.

A metabolização, eliminação e os efeitos da cafeína variam muito de pessoa para pessoa, variação que pode ser geneticamente determinada. O consumo regular de cafeína leva a dependência, sendo que a parada abrupta leva a sintomas de abstinência como dor de cabeça.

Doses muito altas de energético podem levar a intoxicação aguda, com quadro de vômitos, palpitação, arritmia, aumento da pressão arterial, ansiedade, irritabilidade, insônia.

Para pessoas adultas saudáveis, um consumo de cerca de 400 mg de cafeína, que equivale a 4 a 5 xícaras de café expresso é considerado seguro e recomendado. Crianças não devem ingerir cafeína e adolescentes devem manter um limite de 100 mg ao dia.

Geralmente, as bebidas e outros produtos energéticos apresentam doses muito grandes de cafeína, cerca de três vezes mais do que uma xícara de café, além de outras substâncias estimulantes.

É o consumo de doses altas que leva a problemas. O efeito estimulante no sistema nervoso central associado a desidratação e perda de sais minerais, com efeito calmante causado pelo efeito diurético da cafeína, podem se potencializar, causando agitação, problemas de sono e crises de ansiedade.

  •  Taurina

A taurina é um aminoácido e seu uso como energético se baseia em estudos que mostram que  mesmo em pequenas doses, a suplementação desse aminoácido poderia ser benéfica para melhorar o desempenho aeróbio no exercício, diminuir a percepção do esforço, melhorar a performance nas atividades físicas esportivas, ou mesmo ocupacionais.

A taurina é também utilizada no energético devido ao seu potencial efeito desintoxicador, facilitando a excreção de substâncias que não são mais importantes para o corpo pelo fígado. Intensifica os efeitos da insulina, sendo responsável por um melhor funcionamento do metabolismo de glicose e aminoácidos, podendo auxiliar o anabolismo.

Tem sido mostrado que a taurina tem capacidade de melhorar a performance atlética, o que pode ter sido responsável pela adição dela em diversas bebidas energéticas. A mistura dessa substância também pode melhorar o desempenho mental, mas as pesquisas sobre isso ainda são inconclusivas.

  • Açúcar

O fato das bebidas energéticas terem grandes quantidades de açúcar,  também pode acarretar outros problemas de saúde, principalmente em crianças e pessoas com risco de diabetes. Mesmo para os não diabéticos, a ingestão de altas doses de açúcar causa um pico de glicemia e, em seguida, traz uma exaustão ainda maior do que a sentida antes do consumo do produto.

As versões sem açúcar contêm adoçantes artificiais, mas continuam a ter substâncias estimulantes e, portanto, não está isentas de riscos.

Energéticos tem efeitos positivos e negativos no organismo
Energéticos tem efeitos positivos e negativos no organismo (Imagem: Sean Patrick)

Existem efeitos benéficos no energético?

 Sim, informa a nutróloga. “Vários estudos mostraram efeitos benéficos na atividade física, aumento da performance, aumento da força muscular, velocidade. Parece aumentar a queima de calorias e facilitar a oxidação das gorduras, sendo útil como coadjuvante na atividade física no tratamento da obesidade”.

Existem publicações, segundo ela, que mostram efeito cognitivo/mental benéfico com aumento da concentração, melhora do humor, melhor performance em tarefas cognitivas cansativas (por exemplo, fazer provas).

E os efeitos adversos?

“O grande problema é que o consumo excessivo pode levar a efeitos prejudiciais cardiológicos e neurológicos muito graves”, enfatiza a médica.

E alguns estudos epidemiológicos tem mostrado que, principalmente entre os mais jovens, o consumo excessivo pode ser a regra. Por exemplo, na Austrália, pesquisa de 2016 mostrou que dos jovens entre 12 a 18 anos, mais de um terço consome energéticos acima de duas latas ao dia. Destes, 56% percebem e relatam efeitos negativos como coração acelerado/taquicardia, fala muito rápida, insônia, ansiedade e tremores.

Outros estudos relatam efeitos ainda mais graves como convulsões, ideação suicida, arritmia.

Em pessoas com algum fator de risco como pressão alta, alterações genéticas do eletrocardiograma (síndrome do QT longo), portanto, o consumo dessas bebidas pode ser muito mais perigoso.

O consumo crônico das bebidas energéticas parece estar associado a um aumento nos quadros de stress, ansiedade e depressão. A qualidade e quantidade do sono são afetadas por esse consumo.

Pessoas com sintomas depressivos, diminuição da sensação geral de bem-estar, imagem corporal negativa, histórico de tentativas não-saudáveis de perda de peso e hábitos alimentares doentios/transtornos alimentares parecem ter uma associação com consumo regular maior das bebidas.

Mistura com bebida alcóolica

Quando o energético é misturado ao álcool, pode gerar ainda mais efeitos colaterais. Por isso, alguns estados norte-americanos, incluindo Nova York, proibiram esse tipo de combinação. Mesmo assim muitas pessoas continuam a usar os energéticos em drinks.

De fato, a combinação de cafeína e álcool pode causar efeitos adversos graves, uma vez que a cafeína aumenta a absorção do álcool aumentando o risco de intoxicação. O efeito estimulante da cafeína, pode antagonizar o efeito depressor de sistema nervoso do álcool, levando a uma diminuição da percepção de intoxicação, no chamado de “estado de embriaguez totalmente acordada”, que pode levar a consequências perigosas como dirigir alcoolizado ou ter outros comportamentos de risco para a saúde, como sexo sem proteção e expor-se a risco de abuso.

Vilões ou mocinhos?

As bebidas energéticas podem ser seguras se consumidas esporadicamente, em baixa dose, por adultos saudáveis. Podem aumentar a performance física (resistência, diminuir cansaço) e mental (concentração, diminui sono e fadiga, aumenta ânimo).

"Cautela com energéticos" é a dica da Dra. Fernanda Gomes de Melo
“Cautela com energéticos” é a dica da Dra. Fernanda Gomes de Melo (Imagem: Divulgação)

Porém, é necessário estar atento aos efeitos prejudiciais associados ao consumo excessivo ou consumo por pessoas com mais sensibilidade aos efeitos nocivos.

Crianças, mulheres grávidas ou amamentando não devem fazer uso. Adolescentes, adultos jovens, pessoas com sensibilidade maior a cafeína, com pressão alta ou problemas cardíacos devem tomar muito cuidado.

O conselho é “ingerir pouco e sempre buscar orientação do seu médico”.

Crianças e adolescentes são motivo de preocupação quanto ao consumo dessas bebidas. Em síntese, devido ao risco muito maior de complicações e efeitos prejudiciais graves.

Por exemplo, cérebro em formação, mais sensibilidade a cafeína, potencial de consumo frequente e abusivo, pressão do grupo para uso associado a bebida alcoólica.

Pessoas adultas, saudáveis, podem consumir um energético sem efeito colateral, no entanto, é preciso um cuidado maior e uma regulamentação melhor, sugere a Dra. Fernanda.

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