Processo seletivo para negros desperta discussão sobre racismo

As empresas pioneiras em abrir vagas de liderança para negros, Magazine Luiza e Bayer, inspiraram outras empresas e receberam críticas "racismo reverso".

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Racismo
Empresas abrem processos seletivos exclusivos para negros. Foto: Freepik.

Duas empresas de grande porte abriram processo seletivo exclusivo para negros e despertou uma discussão importante sobre racismo em todos os meios de comunicação.

A pioneira foi o Magazine Luiza, nome fantasia Magalu, a companhia diz ter tido a ideia do processo seletivo quando avaliou que havia 53% de pretos e pardos em seu quadro de funcionários, mas apenas 16% ocupava cargos de liderança.

“O objetivo é trazer mais diversidade racial para os cargos de liderança da companhia, recrutando universitários e recém-formados de todo Brasil, no início da vida profissional”, explicou Frederico Trajano, atual diretor-executivo de operações do Magazine Luiza.

Liziane Sucena, advogada, mãe e mulher negra, é uma entusiasta do processo: “Acredito que é um primeiro passo para possibilitar ao negro um melhor acesso à posições profissionais de destaque, mas poderá gerar sim muita celeuma”.
Apesar disso, ela acha importante “as empresas abrirem a mente para a consciência de que devem realizar modificações em seus processos seletivos para que haja mais contratação de pessoas negras que tenham as mesmas condições que uma pessoa branca em disputar o cargo oferecido”.

“O Magazine Luiza acredita que uma empresa diversa é uma empresa melhor e mais competitiva”, diz Patrícia Pugas, diretora executiva de gestão de pessoas, “Queremos desenvolver talentos negros, atuar contra o racismo estrutural e ajudar a combater desigualdade brasileira.”

Na mesma linha, a empresa farmacêutica Bayer pontua: “Queremos trazer pessoas com alto potencial, resiliência e condições de se adaptar. Algumas restrições tradicionais não faziam sentido para esse objetivo e fizemos esforços para tirar essas amarras”.

Sobre a não exigência de experiência anterior, Maurício Rodrigues, vice-presidente de Finanças da Bayer Crop Science, explica que outras aprendizagens técnicas podem ser aprendidas dentro da companhia.

Racismo Estrutural

A advogada explica que a escravidão de negros no Brasil durou muitos e muitos anos, somente em 13 de maio de 1888 é que foi declarada a sua abolição, porém, não foram instituídas medidas para que o povo liberto da escravidão pudesse se inserir adequadamente na estrutura social, então suas consequências são perceptíveis até os dias atuais.

“O povo negro foi jogado à sua própria sorte, o que ocasionou em alto índice de pobreza”. Para manter a sua sobrevivência, explica Liziane, o povo negro mantido à margem da sociedade e totalmente discriminado, passou a agir com violência, sendo essa uma das heranças que o país deixou aos recém libertos.

Com o passar dos anos, houve a instituição de algumas poucas medidas sociais que possibilitaram o acesso à ensino, porém, não há ainda igualdade de condições para os herdeiros negros daqueles que foram escravizados e jogados à sociedade sem qualquer amparo social.

Racismo na pele

A advogada Liziane Sucena fala do racismo que sofreu na infância e a motivou a ser advogada (Foto: Arquivo Pessoal)
A advogada Liziane Sucena fala do racismo que sofreu na infância e a motivou a ser advogada (Foto: Arquivo Pessoal)

“Já sofri racismo em época escolar, eu e uma amiga, por conta de nossa tonalidade de pele”, relembra a advogada. “Éramos chamadas de neguinhas ou macacas. Isso é algo que marca muito”.

Ela chegou a presenciar rapazes sendo parados pela polícia, simplesmente por serem negros, já que não apresentavam nenhum comportamento suspeito. “Acho que por ver tão de perto essas injustiças é que estudei Direito”, desabafa.

“Hoje compreendo que ainda há muita desigualdade em relação às pessoas negras e que se faz necessário a adoção de medidas sociais para tratar os desiguais desigualmente, conforme estabelece a nossa Constituição”.

Diante desse contexto, Liziane afirma que o Brasil, “infelizmente, ainda é um país racista, pois ainda é perceptível que os negros não estão plenamente inseridos na sociedade como deveriam estar”. E conclui: “Vemos poucos negros em posição de destaque, e quando vemos, sua qualificação sempre vem acompanhada da tonalidade de sua pele”.

Mote da campanha

“Na Bayer, queremos entender os valores e propósito que movem as pessoas, queremos ajudá-las a realizar suas aspirações, respeitando as experiências de vida”,  explicou Maurício Rodrigues.

“Queremos que o programa seja uma fonte valiosa de novos talentos, buscando conciliar necessidades dos negócios e expectativas das pessoas”.

Na divulgação do programa de recrutamento de trainees, a Bayer optou por trazer os próprios profissionais da empresa para estampar a campanha, ao invés de modelos negros.

Em seu material de divulgação, a Bayer exibiu funcionários da empresa (Imagem: Bayer)
Em seu material de divulgação, a Bayer exibiu funcionários negros da empresa (Imagem: Bayer)
Segundo a empresa, o Programa de trainees, terá por objetivo incluir e desenvolver os profissionais, visando prepará-los para assumirem futuras posições de lideranças estratégicas e desafios de acordo com as necessidades da empresa.

Do contra

Dentre os críticos aos processos seletivos para negros, estão o vice-líder do governo na Câmara, Carlos Jordy. O deputado federal (PSL-RJ) afirmou que está entrando com representação no Ministério Público contra a Magalu, para que seja apurado crime de racismo.

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Racismo: muitos se posicionaram contra a Magalu (Foto: Divulgação)

O presidente da Fundação Cultural Palmares, Sérgio Camargo, também acusa a empresa. “Magazine Luiza terá que instituir Tribunal Racial no seu RH para evitar que pardos e brancos consigam fraudar o processo seletivo que é exclusivo para pretos. Portanto, terá que fazer a análise do fenótipo dos candidatos, prática identificada com o nazismo.”

O que é Racismo Reverso?

Racismo reverso é uma expressão utilizada para descrever atos preconceituosos ou discriminatórios que uma minoria racial, herdeira de indivíduos que foram oprimidos no passado, esteja perpetrando à maioria racial que é herdeira de opressores no passado. Ou seja, seria uma espécie de racismo “ao contrário” onde qualquer medida adotada para tratar o desigual desigualmente seria uma forma de lhe dar preferência/privilégio, discriminando os iguais igualmente tratados, que não tem culpa pelas atitudes injustas de seus ancestrais, conforme explica a advogada Liziane Sucena.

“A meu ver, o termo é inadequado, primeiramente por sua colocação linguística, segundo por sua aplicação social e terceiro por inexistência na legislação brasileira”.

Ela explica que, analisando semanticamente o termo, o sufixo reverso se traduz em oposto ou contrário. Sendo assim, se racismo o termo aplicado para definir uma discriminação a determinada raça, o racismo reverso seria o mesmo que oposto ou contrário ao racismo, logo, seria a não discriminação racial.

Socialmente falando, não há como considerar preferência ou privilégio a adoção de medidas sociais para diminuir a desigualdade social.

Aliás, segundo Liziane, esse é um direito constitucional, estabelecido pelo princípio da igualdade que estabelece que deve ser dado tratamento isonômico a todos, ou seja, tratar igualmente os iguais e desigualmente os desiguais na exata medida de suas desigualdades.

Por fim, não existe qualquer referência no ordenamento jurídico brasileiro que valide o conceito de racismo reverso.

“Então, ao meu entender, a expressão é vazia, e somente demonstra indignação e falta de esclarecimento de determinadas pessoas que fazem parte da maioria social, ou seja, de quem não faz a mínima questão de estudar e compreender que determinadas medidas são necessárias para que haja diminuição da desigualdade social, nos exatos termos da legislação brasileira”, conclui.

Magalu

Trainee Magalu 2019 é garota propaganda da campanha
Trainee Magalu 2019 é garota propaganda da campanha (Imagem: 99 jobs)

As inscrições para o programa de trainee do Magalu estão abertas e podem participar profissionais formados entre dezembro de 2017 e dezembro 2020.

A formação pode ser em qualquer curso superior e conhecimento em língua inglesa, assim como experiência profissional anterior não fazem parte dos pré-requisitos.

O processo seletivo será dividido em seis etapas. A seleção começará com testes online. Em seguida, os candidatos  gravarão um vídeo de apresentação profissional e passarão por entrevistas com o RH.

Aqueles que seguirem no processo serão entrevistados por diretores de área e, depois, pela diretoria executiva. Por fim, participarão de uma conversa com o presidente da empresa, Frederico Trajano.

Conforme divulgado pela empresa, o salário é de R$ 6,6 mil, com benefícios e bônus de contratação de um salário.

Candidatos de todo o país podem participar, desde que tenham disponibilidade para se mudar para São Paulo. Caso o selecionado seja de fora da cidade, receberá um auxílio-mudança.

Para se candidatar, clique aqui.

Bayer

As inscrições para o programa trainee da Bayer, exclusivo para profissionais negros, foram abertas na última sexta-feira.

A empresa química e farmacêutica alemã oferece 19 vagas voltadas para a valorização étnico racial, bem como no desenvolvimento de carreira para posições de liderança.

As inscrições vão até o dia 21 de outubro deste ano. As oportunidades são para São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Pernambuco e Minas Gerais.

Para se candidatar ao Programa Liderança Negro, os interessados devem ter graduação completa entre dezembro de 2017 e dezembro de 2020.

Segundo a organização, não há restrição de curso, já que os perfis serão selecionados de acordo com as necessidades de cada área.

Igualmente, o processo seletivo também não obriga conhecimento em língua estrangeira. As inscrições podem ser feitas aqui.

 

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