Com o autismo diagnosticado na vida adulta desabafa: “Entendi que não sou um ET”

Estudos comprovam que há mais autistas adultos hoje do que há vinte anos e é possível ter um relacionamento saudável com neurotípicos

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O autismo, descoberto na vida adulta, preenche muitas lacunas (Foto: Autistas do Brasil)

Ser autista em uma sociedade preconceituosa não é fácil. E ser autista diagnosticado apenas na vida adulta? Confira um emocionante desabafo de um homem que se descobriu dentro do espectro aos 50 anos: “Entendi que não sou um ET”.

P.S., soube há poucos meses que é Asperger, uma classificação dentro do Transtorno do Espectro Autista.  Ele ainda não contou aos familiares sua condição, por isso pediu para não ser identificado.

“Tudo é ainda muito novo para mim, mas agora consigo compreender muitas coisas que antes não entendia, como a facilidade para aprender as coisas e me aprofundar em assuntos do meu interesse”, ele brinca: “E a tremenda dificuldade em entender quando alguém está flertando comigo, por exemplo”.

Sarah, que é namorada de P.S., é estudante de psicologia e foi quem o alertou quanto a possibilidade de diagnóstico. “Passamos muitos anos como se cada um falasse um idioma diferente, havia muito ruído de comunicação”.

Ela explica que P. tinha necessidade de ficar sozinho, “parecia sumir às vezes, mas só estava curtindo seu mundo” e principalmente, uma tremenda dificuldade de falar de seus sentimentos. “Isso nos afastou muitas vezes, terminamos, mas sempre o sentimento acabava nos resgatando”.

“Com ela, posso ser eu mesmo, não preciso usar máscaras sociais. Ela sabe quando começo a ficar desconfortável e me ajuda”, ele desabafa.

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O autista tem dificuldade em falar de seus sentimentos, mas os tem (Foto: Fauxels)

Adaptando a rotina com o autismo

Com o diagnóstico, muitas peças se encaixaram e Sarah passou a entender e interpretar corretamente as necessidades de P.S, de rotina, silêncio, isolamento. Adaptando o dia-a-dia, de modo a evitar situações gatilho.  “De antemão, sei que ele passa mal em supermercado por causa da iluminação e do barulho”, ela explica. “Então ele só vai quando é muito necessário, usa fone de ouvido corta ruídos e vamos com uma lista para fazer as compras de forma objetiva”.

Ainda assim, segundo Sarah, ele volta para casa bastante cansado e precisa deitar e descansar. “Entendemos também que casa cheia não faz bem para ele, são poucas visitas de cada vez e para que ele fique bem, evitamos misturar música e voz humana”.

Autismo e romantismo

Ela conta que o casal ainda conversa sobre muitas coisas que ele ainda está descobrindo a respeito de si mesmo. Sarah emociona-se ao lembrar que há mais de dez anos, quando ela trabalhava fotografando uma banda de heavy metal, aos finais de semana, ele ia aos shows com ela. “Ele trabalhava a semana toda em uma empresa e a única forma de ficarmos juntos, era viajando com a banda aos finais de semana”.

“Ele ficava comigo no palco, fotografando também. Ao final, ele estava exausto, mal conseguia comer e precisava dormir”. Ela justifica a exaustão aos diversos estímulos: Som alto, jogo de luzes, gritos do público.

“Hoje entendo que ele fazia um esforço hercúleo para estar lá comigo. Colocava o hiperfoco na fotografia e por amor se submeteu a isso, por anos”. Sarah completa: “Ele não dizia que me amava, mas depois do diagnóstico, descobrimos que ele demonstrava”.

Ela conta que o casal se conheceu pela internet, “nos achamos em uma lista de discussão por e-mails. Ele fala que se apaixonou pela minha inteligência e eu idem. Nosso primeiro encontro foi marcado com três meses de antecedência”, diverte-se. “Hoje entendo que ele usou esse tempo para se preparar. Para ele, até o romance tem que ser raciocinado e lógico”.

Autistas tem sentimentos sim

Estudos comprovam que o número de autistas adultos cresceu muito nas últimas duas décadas. “Nossas descobertas sugerem que o aumento na prevalência se deve ao melhor reconhecimento dos transtornos do espectro do autismo”, disse Stephen J. Blumberg, cientista sênior do Centro Nacional de Estatísticas de Saúde e principal autor do estudo.

Ele aponta ainda que as pessoas com autismo podem ter maiores capacidades emocionais do que as neurotípicas. “Estudos comprovam que pessoas com autismo podem ter sentimentos mais fortes e profundos do que aqueles sem autismo”, disse.

“Se você perguntasse a uma pessoa com autismo se ela queria um relacionamento romântico, ela provavelmente diria que sim, mas provavelmente também diria que não sabe como fazer”, completa Blumberg.

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O diálogo é sempre esclarecedor em todo relacionamento (Foto: Leah Kelley)

Dicas para ter um relacionamento com um autista

O cientista dá dicas para quem deseja se relacionar com um autista, que em sua maioria não entende quando estão sendo alvos de paquera.

O ambiente

Certas características associadas ao espectro do autismo vão contra as normas típicas de namoro. Por exemplo, embora uma pessoa neurotípica possa pensar que um bar ou restaurante é um ótimo lugar para um primeiro encontro, pode ser um dos piores lugares para alguém do espectro.

“Se for um lugar barulhento e lotado, um indivíduo do espectro pode se sentir desconfortável ou distraído”. Problemas sensoriais também podem tornar certas luzes e ruídos especialmente desagradáveis. O tumulto envolvido em algumas situações pode deixá-lo ansioso e incapaz de se concentrar no que estão falando.

Direto e reto

Autistas geralmente lutam muito para se comunicar da mesma forma que pessoas não autistas. Algumas formas de expressão podem ser muito sutis e difíceis para que entendam e reajam adequadamente. “Os autistas costumam ser mais diretos ao expressar seus sentimentos e pode soar descortês a quem recebe”, explica o coordenador dos estudos.

Autistas são literais. Se você disser que está tudo bem, ele acreditará e não fará mais perguntas. Ele não se interessa por conversas triviais, ainda mais se envolver pessoas que ele não conhece. Isso pode causar alguns problemas e mal-entendidos dentro do relacionamento.

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Todo autista necessita de uma rotina (Foto: Michaela)

Controle da rotina e carinhos

Alguns, porém, não gostam de ser tocados ou não sabem quando é apropriado demonstrar afeição fisicamente. Pergunte como ele se sente sobre abraços em público e definam quais demonstrações de afeto são bem-vindas.

Autistas têm rotinas pessoais que fazem com que se sintam melhor. Assim, quando são rompidas bruscamente, eles podem se sentir ansiosos e irritáveis.

Estereotipias, ou tiques, assim como como bater as mãos ou observar as luzes, são outra característica comum presente no autismo, mesmo que você não compreenda a razão por trás delas.

Tente fazer perguntas para entender melhor seus desafios e preferências. Isso também fará com que você tenha maior entendimento de cada rotina e ao mesmo tempo, ele se sinta validado em suas necessidades.

Sarah concorda: “O diálogo é sempre esclarecedor e nos aproxima muito”.

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