Surda oralizada comenta exclusão e isolamento no Big Brother Brasil: “Minha vida”

"O sentimento de exclusão vai matando a gente por dentro", explica a autora Lak Lobato

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Surda oralizada comenta exclusão e isolamento no Big |Brother Brasil: "Minha vida" | Fonte Página Zero

Lak Lobato, escritora e surda oralizada, comentou o episódio de exclusão e isolamento que aconteceu no programa Big Brother Brasil, da Rede Globo: “Vi a minha vida”. Ela se refere a situação do ator Lucas Penteado que foi alvo de intolerância no programa. E antes de prosseguirmos, ou que adquiriram-na ao longo da vida. Elas podem usar qualquer língua oral para se expressarem, seja na modalidade oral, oro-facial, e também denominada de leitura labial e/ou leitura e escrita.

“Ele foi vítima de ataques, foi isolado e silenciado por diversos participantes, e totalmente excluído pelos demais e passou a manifestar tristeza constante”, explica Lak, em entrevista exclusiva ao SaúdeLab.

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As pessoas os portadoras de surdez orolabial utilizam qualquer língua oral para se comunicarem | Fonte imagem Desculpe, Não Ouvi!

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Olhar da pessoa com surdez segundo Lak Lobato

A autora é responsável pelo portal “Desculpe, não ouvi!”, que fala de surdez e implante coclear, além de quatro livros sobre o assunto, dois para adultos e dois infantis. Veja seu relato:

“Na verdade, eu não assisto Big Brother. Não consigo criar o hábito de assistir TV Aberta”, explica a escritora. “Não, eu não sou esnobe, tenho deficiência auditiva adquirida aos nove anos de idade”.

Ela conta que a surdez aconteceu para ela em 1987, “quando acessibilidade e inclusão não passava na cabeça das pessoas nem em sonho, nem existia televisão acessível”, explica.

Big Brother da vida real

Dos 9 aos 17 anos, Lak só assistiu filmes legendados no cinema e nada mais. Quando a TV a cabo estreou no Brasil, a escritora finalmente teve oportunidade de assisti-la: “foi a felicidade”.

A programação, segundo ela, era toda legendada. “Embora continuasse sendo estrangeira, pude começar a ver séries, programas de entrevista e culinária, documentários e até alguns shows de auditório que eu achava divertidíssimos”.

Com o tempo, a programação legendada foi sendo substituída pela dublada e as opções foram diminuindo. Até que, finalmente, chegou o serviço de streaming que dá a opção de escolha. E no meio disso, as TVs abertas passaram a ter legenda por sistema de closed caption.

“Porém, como expliquei, eu não consegui deixar de estranhar a programação nacional, daí nunca assisti o BBB”. Lak ficou sabendo, segundo conta, porque “as redes sociais não deixam passar nada sem comentar” e houve a identificação do caso do ator Lucas e sua história.

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A autora se identificou com a experiência de Lucas no programa Big Brother Brasil (Foto: Arquivo Pessoal)

Isolamento

“Foi assim que eu vi minha vida e a experiência da exclusão que sofri”, ela conta. “Lá no começo, quando minha voz ainda não causava estranheza” – a ausência de feedback auditivo que a surdez provoca vai atrapalhando no controle da voz, portanto, é comum que surdos adquiridos vão passando a ter uma forma de falar característica e diferente do padrão com o tempo – “eu ainda me sentia bem incluída no mundo”.

Lak explica que isso foi mudando conforme as pessoas percebiam que ela não conseguia participar de uma conversa em grupo. “Eu precisava que as pessoas falassem de frente pra mim, que elas repetissem ocasionalmente quando eu não compreendia de imediato”.

Ela continua: “Isso geralmente causa preguiça nos interlocutores. E, somado ao surgimento do sotaque, eu fui sendo deixada de lado. Pelos amigos de escola, pelos parentes em reuniões de família, pelos colegas de faculdade…”.

De todas as experiências, a mais dolorosa foi ser deixada de lado pelas equipes de trabalho. “Quando a gente entra numa empresa pelo sistema de cotas, é comum agirem como se tivéssemos roubado a vaga de alguém que merecia mais do que nós”, lamenta Lak.

“Como se a pessoa com deficiência não fosse digna de participar da sociedade, garantir o próprio sustento e tocar a vida”, alinhava. “Isso vale para todas as pessoas com deficiência e não apenas para surdos”.

O implante coclear

A autora explica ainda que a surdez, diferente das outras deficiências, forma uma barreira na comunicação. E as pessoas “tem medo”, “não estão preparadas”, “não sabem lidar”. Ela garante que os ouvintes acham que é normal deixar o surdo de lado o tempo. “Eles pensam que está tudo bem, porque você já deve estar acostumado”.

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Lak explica que o mais difícil é ser isolado na empresa (Foto: Arquivo Pessoal)

Há pouco mais de uma década, depois de mais de vinte anos de silêncio, ela teve oportunidade de fazer a cirurgia de implante coclear.

O implante coclear é um dispositivo médico eletrônico para pessoas com perda auditiva de grau severo a profundo. Ele funciona transformando sons em estímulos elétricos que são enviados diretamente ao nervo auditivo. Isso significa que ele substitui parcialmente as células danificadas da cóclea.

“Então pude voltar a ouvir toda essa trilha sonora abundante a vida oferece todos os dias. E a conversa das pessoas”. Claro, diz Lak, que não foi uma coisa imediata. “Não sai da sala de cirurgia ouvindo nem ouvindo no dia que ligaram a parte externa dessa tecnologia”.

Adaptação

Ela explica que foi um longo (re)aprendizado de compreensão sonora, lentamente reaprendendo a interagir com as pessoas auditivamente. “Eu lembro que me assustava muito como as pessoas falam as coisas com todo mundo ouvindo, como se elas não se preocupassem em compartilhar informações o tempo todo”.

Por muito tempo, a autora explica ter tido a ilusão de que as conversas eram coisas privadas, porque “a surdez cria uma bolha silenciosa em volta da gente que dá essa impressão”.

Mais ela avança nas suas posturas e acrescenta: “Hoje em dia, é mais difícil eu ser deixada de lado no trabalho”. No entanto, se acontece é pelas mesmas razões que qualquer pessoa é deixada de lado e não pela surdez em si.

Porém, as sequelas são permanentes. “Eu me sinto desconfortável em grupos grandes, não confio muito nas pessoas, principalmente se não tiver intimidade”.

Lak afirma que evita qualquer situação social que possa lhe gerar estresse, por exemplo, uma balada barulhenta demais para conversar. Como ela diz, “sei bem o que o Lucas sentiu no Big Brother”, lamenta profundamente.

E certamente algo que é verdadeiro e passivo de reflexão na sociedade, pois como ela sublinha “as pessoas precisam entender que o sentimento de exclusão vai matando a gente por dentro, até que um dia sobra apenas a sombra de quem poderíamos ter sido”, conclui a escritora.

Responsabilidade do Estado

A advogada Ana Carolina Jessouron Oliveira pontua que a consciência a respeito das verdades que alicerçam a inclusão começa a tomar forma em nossa geração. “Felizmente e infelizmente, dado que tardio”, lamenta.

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A advogada Ana Jessouron atribui ao Estado a responsabilidade de dirimir as diferenças (Foto: Arquivo Pessoal)

Assim, como vivemos um momento em que o Estado resolveu assumir a responsabilidade pelas estruturas arraigadas nas diferenças, explica a advogada, “todavia, ainda falta entendimento comunitário a respeito do assunto. Debates políticos são levantados, polos assumidos, mas a falta de conhecimento continua sendo vantajosa pra quem tira proveito”.

E tem mais, “nunca vou esquecer de quando, lendo o livro do M. L. King, entendi realmente a necessidade do Estado se redimir com relação àqueles que estruturalmente se viram prejudicados nessa corrida da vida”, pontua a advogada.

Veja então, essas colocações e reflita o quanto é importante cada indivíduo se posicionar, pois, “pessoas que quando conseguiam participar, já sabiam que não ocupariam o pódio de maneira nenhuma. E quando um consegue, dentre inúmeros que sequer participam, somos todos obrigados a ouvir aquele velho e cansado discurso de meritocracia”, conclui a advogada.

Educação

A verdade é que, para Ana, só o movimento estatal não resolve muito. Como ela bem diz, “é como a placa da obrigatoriedade de reserva no banco do metrô para idosos, gestantes ou pessoa com deficiência”, explica. “Ainda pensamos que, estando num banco comum, não temos obrigação de ceder o banco a quem tem direito”.

Ademais, a falta de conhecimento dentro das empresas, na sociedade, ainda vai alimentar a exclusão. Resta saber o que os membro da chamada ‘sociedade’, ou melhor eu e você, faremos, após sabermos como é estar convivendo com exclusão e isolamento de tantas pessoas nas condições abordadas nesse artigo e em tantas outras que acontecem bem diante dos nossos olhos.

Afinal,  nada como além de ouvir a gente ‘escutar’, não é mesmo. Não se espante, pois ‘escutar’ significa interiorizar o aprendizado com práticas e posturas em direções a novos rumos, prestar e dar atenção. Como diz uma das obras de Lak,  “E Não É Que Eu Ouvi?”

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