Especial Semana da Mulher: de todas as mulheres?

O meu feminismo é inclusivo e não excludente", diz a autora

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Especial Semana da Mulher: de todas as mulheres? (Foto: Arquivo Pessoal/CANVA)

Especial Semana da Mulher: Dia 8 de Março, se comemora o Dia das Mulheres. Porém, de todas as mulheres? – Este é o questionamento de Lak Lobato, escritora e surda oralizada, autora de livros infantis e para  adultos sobre surdez e implante coclear, exclusivo para o SaúdeLab.

Ela, que também é autora do blog “Desculpe, não ouvi”, perdeu a audição aos dez anos de idade, enquanto dormia, e voltou a ouvir vinte anos depois, com o implante coclear.

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8 de Março, se comemora o Dia das Mulheres. Porém, de todas as mulheres? | Imagem: CANVA

Lak afirma que nunca gostou do Dia das Mulheres ser tratado como data comemorativa. “Sempre senti que era algo mais, um dia de luta, de conscientização, de honrar as mudanças do passado e planejar as que ainda precisam ser feitas no presente e no futuro”, explicou Lak.

Até que, um dia, a escritora diz ter entendido que “não era mulher o suficiente para ser lembrada nesta data”. Ela afirma: “Raramente as representações que fazem tem a ver com a minha realidade”.

Mulher recebe mais julgamentos?

Porque, além de ser mulher – e ela enfatiza: “veja bem, além de ser mulher e não antes de, eu sou uma pessoa com deficiência desde os 10 anos de idade”. E completa: “porém, a partir do dia que eu acordei completamente surda, foi isso que passou a me definir”.

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Lak explica que o mais difícil é ser isolado na empresa (Foto: Arquivo Pessoal)

Lak começou o dia fazendo uma postagem nas redes sociais com a hashtag “SerMulherComDeficiênciaÉ”, onde elencava uma série de frases que ouviu durante a vida, muitas delas em mais de uma situação.

  • Perguntarem se seu marido foi a primeira pessoa que gostou dela, mesmo ela tendo se casado aos 30 anos;
  • Dizerem que seu marido é um santo, por ter aceitado se casar com uma mulher surda.
  • Assim como afirmarem que ela deveria ser grata por ter encontrado alguém.
  • Colocarem-na em situação de ter que explicar como conseguiu encontrar alguém “mesmo com os seus problemas”.
  • Sempre perguntarem: “Você não tem medo de ter filhos com o seu probleminha?”.
  • Semelhantemente, ouvir que não precisa ter medo de ter filhos porque “o pai não tem problema e vai ajudar a cuidar”.
  • E mais, se sofreu muito na adolescência ou ainda como fez para estudar.
  • Ser questionada se deu mais trabalho que sua irmã, para sua mãe, completando: “aposto que deu mesmo”.
  • Bem como ser elogiada pelas coisas cotidianas, sempre com “você é uma guerreira”, um “exemplo de superação”. “Sou um parâmetro ruim para a pessoa se sentir melhor com as dificuldades dela”, conclui.
  • “Feliz dia das mulheres, mesmo que você seja vista como um fardo e não como uma mulher como qualquer outra”, Lak alega ter ouvido. “Muitas dessas frases, ouvi de outras mulheres. Algumas, até mesmo de outra mulher com deficiência”, lamenta.

Mulheres com deficiência e autoestima

Lak esclarece que esta situação de julgamento, acaba prejudicando muito sua autoestima. “O meu valor como ser humano, que já era baixo por ser mulher, se tornou irrisório quando eu adquiri uma deficiência”. E completa: “Eu passei a ter que dar provas de que continuo sendo um ser humano como qualquer outro”.

Ela ainda afirma ter que explicar sua vida amorosa, que classifica como “saudável como qualquer outra mulher que namorou várias vezes até casar”. Lak afirma que se casou por amor e não por caridade de alguém. “Eu escolhi não ter filhos porque não tenho vontade de ser mãe e isso não tem nada a ver com a deficiência”.

Sobre dar trabalho para a mãe na infância, ela garante que não deu mais trabalho para a mãe que sua irmã sem deficiência, “porque deficiência não determina personalidade e nem caráter”. Lak afirma ainda que foi uma adolescente responsável e centrada, “porque sou uma mulher responsável e centrada, simples assim”.

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“O meu feminismo é inclusivo e não excludente”, diz Lak (Foto: USP)

Deficiência e luta pela causa

“O que me entristece é que, no auge dos meus 43 anos, não sinto que a causa das pessoas com deficiência pertença à luta da diversidade. Somos uma causa à parte”.

Para Lak, o feminismo raramente fala sobre as mulheres com deficiência, “como se fosse outra luta e não a mesma”, explica. “Somos um grupo de baixo valor, que só pode participar de uma luta própria, não ser parte de lutas coletivas”.

A escritora continua apoiando o dia das mulheres, mas sente que falta a interseccionalidade entre ser mulher e ter deficiência.

Os números trazidos por ela são alarmantes: Meninas com deficiência tem quatro vezes mais chance de sofrer abuso sexual por conta da vulnerabilidade. Ela explica que seja por pensarem que são vítimas mais fáceis, seja por acharem que pessoas com deficiência não tem sexualidade desenvolvida. Ou ainda pela falta de educação sexual enqunto crianças.

“São raras as homenagens à mulheres com deficiência no dia oito de março e mais raro ainda, a pauta deficiência ser colocada no dia das mulheres”, explica Lak. “Precisamos mudar essa mentalidade de que são assuntos separados! O meu feminismo é inclusivo e não excludente”, finaliza.

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