Sobre ser trans: “Minha família preferiu ter uma filha viva a um filho morto”

Psicólogo afirma que a criança trans se sente inadequada e que aceitá-la é a melhor forma de demonstrar amor genuíno

8
mulher trans
Zelda Eliz Amorim, de 27 anos, conta o processo de aceitação como mulher trans (Foto: Arquivo pessoal)

“Minha família preferiu ter uma filha trans viva a um filho morto”, contou a mulher transgênero Zelda Eliz Amorim, de 27 anos, em entrevista exclusiva ao SaúdeLab. Ela, que teve uma infância e adolescência de descobertas, isolamento e muita luta por aceitação, fala ainda sobre a baixa expectativa de vida dos trans no Brasil: apenas 35 anos.

Segundo a Agência Senado, a alta taxa de mortalidade de transexuais contrasta com média nacional de longevidade, que é 79,9 anos. O motivo é a violência; os trangêneros são vítimas de homicídio, além de outras outras formas de agressão.

“Sempre são alvo daqueles que não aceitam as diferenças, sejam elas relacionadas à raça, religião, orientação sexual, deficiências físicas ou mentais, nacionalidade ou identidade sexual”, explica Zelda.

O preconceito, somado às agressões físicas e emocionais, promove marcas profundas nas pessoas.

movimento pro trans-sexuais
Movimentos estão se fortalecendo em prol da causa dos trans-sexuais | Imagem Guia do Estudante

Conflitos na infância

“Minha infância foi bem complicada”, desabafa a jovem. A família tinha valores cristãos rígidos. “Foi pesado, eu me sentia diferente”.

Zelda nasceu menino, mas desde muito criança lembra-se de gostar muito mais de coisas de menina, de brinquedos a roupas. Ademais, preferia conversas de meninas, de estar com elas.

“Nesta época, em minha cabeça eu era uma menina, só que com o tempo a família começou a me corrigir”, lamenta. Eles repetiam: “Você não pode brincar com boneca porque você é menino, você não pode fazer isso porque você é menino”.

Zelda recorda-se da creche que ficava durante o dia, que era administrada por freiras. “Elas me repreendiam muito, me batiam por eu ser bem diferente, efeminado”. Ela sentia que tinha algo errado, porém em sua cabeça ela era uma menina. “Entrei em conflito. Vivia me boicotando para entrar num padrão e não sofrer tanto”.

Ela, desde os seis anos, tinha medo constante da repreensão das pessoas. “Sempre foi assim. Teve um tempo que só me repreendiam ou me batiam, mas não falavam o motivo”.

Ainda assim, saiba que: Terapia com canabidiol já pode ser amplamente receitado como tratamento alternativo

Transgredindo

Como não havia mudanças significativas, passaram a dizer “isso não é coisa de menino, você tem que fazer tal coisa”. Então, ela interpretou como: “estou fazendo algo errado e por isso devo me encaixar”.

Frequentemente Zelda escapava da vigilância para fazer um pouco das suas vontades. “Por isso eu ia na casa da minha prima e brincava com as bonecas dela”, conta. Em lojas de roupas, ela conta que sem pensar, ia direto na sessão feminina. A pequena Zelda queria comprar vestidos: “apanhei muito por isso, foi uma infância muito complicada”.

Foi difícil para a família também, confessa a jovem. “Eles só começaram a tentar compreender quando eu saí de casa. A nossa criação foi sempre machista”. Eram, segundo ela, homens que faziam questão de demonstrar que eram “homens em discursos machistas sobre mulheres”.

“E eu não tive influências de mulheres que não fosse reforçando que eu deveria ter um padrão masculino. Logo, se me desviava do ideal deles, eu era boicotada”.

Lidando com frustrações

O Psicólogo Clínico Éverson Tidioli, especialista em população trans no processo transexualizador do Sistema Único de Saúde (SUS), focado na atenção à saúde de transexuais e travestis, afirma que os pais precisam lidar com suas frustrações.

Uma vez que uma criança nasce, ela já vem com uma pré-identidade, uma subjetividade já elaborada. Esta subjetividade é ajustada pelos pais nas primeiras experiências de infância. Além das questões biológicas, existem questões subjetivas da criança e tudo isso constrói o caráter, conforme explica o psicólogo.

trans
O psicólogo Everson Tidioli ressalta a importância da aceitação (Foto: Arquivo Pessoal)

Enfim, segundo Tidioli, cada pessoa tem sua própria identidade e quando a criança começa a transgredir, a ter comportamentos diferentes dos esperados pela família, seja de sonhos e objetivos dos pais, seja de identidade de gênero, haverá conflito.

“Os genitores projetam nos filhos planos de profissão, de estudo e até mesmo de relacionamentos. Qualquer escolha feita  diferente destas, vai gerar frustração nos pais, mas os filhos não são culpados”, afirma o especialista.

Aceitação da criança trans

Na transexualidade, a primeira coisa que chama a atenção é desenvolvimento de certas características que não foram fortemente alimentadas pelos pais e por isso o indivíduo se tornam resistente a ela. “Os pais tornam-se incapazes de lidar com os próprios medos, frustrações, dúvidas e angústias”.

“Os genitores deixam de validar os sentimentos da criança trans”. Quando a criança é recriminada ou punida por apresentar características do gênero oposto, “o impacto acaba sendo negativo para a autoestima”, pontua o especialista.

Em cada período de desenvolvimento existem necessidades a serem atendidas e  sentimentos a serem validados pelos cuidadores.

Quando as demandas emocionais não acontecem, a criança passa a se sentir feia, desimportante, inconveniente, inadequada, deslocada. Além de tudo isso, não se sente  pertencente a um grupo, podendo desenvolver posturas de isolamento e retraimento.

A criança trans é mais propensa a ter suas emoções negligenciadas e a interpretação cognitiva que tem de si mesma é distorcida. “E isso pode culminar em depressão e ansiedade, por falta de acolhimento”, explica.

“Aceitação gera saúde mental. Quando eu aceito a criança com seus potenciais e características, quando legitimo seu sentimentos, estou gerando um adulto saudável emocionalmente”.

E o resultado disso é um adulto com resiliência, capacidade de resolução de problemas, com maturidade emocional. “E isso independe do gênero”.

“Temos que compreender que a criança é um ser a parte das nossas vontades. Aceitá-la é a melhor forma de demonstrar amor genuíno”.

trans
Aceitação é a melhor forma de demonstrar amor genuíno, segundo o psicólogo Everson Tidioli (Foto: Rodnae)

A adolescência de Zelda

A adolescência de Zelda, dos 10 aos 14 anos, foi frequentando uma igreja evangélica. “Era mais um meio de fugir de mim mesma”.

Para Zelda, era errado ser “ela mesma”, porque “não estava agradando as pessoas ao meu redor. Então eu fui mascarando, guardando isso comigo, tentando me encaixar, tentando me espelhar em outros meninos, para poder fazer o que era certo”.

Ela imitava o jeito de falar de um primo, de um amigo da escola e desta maneira “fui deixando de me entender, joguei para debaixo do tapete, porque eu não queria encarar isso”. Zelda queria ser um deles, para “que parassem de falar de mim, de me olhar estranho, de rirem do meu jeito”.

Depois disso, dos 15 anos em diante, a jovem afirma que descobriu que não existia só aquele mundo em que havia sido criada e que sofria por ser excluída. No entanto, tinha medo de se expor. “Com uns 16 anos eu me assumi homossexual; porém aquele corpo não me representava, eu me sentia incomodada”.

A descoberta da transexualidade

Dos 16 aos 18 anos, Zelda continuou insistindo no padrão masculino, em uma busca desenfreada por pertencimento. “Comecei a fazer academia e tudo mais. Eu tinha me identificado com a transexualidade, mas eu não queria aceitar”.

Além disso, ela tinha uma visão totalmente errada sobre pessoas trans. “Eu via o que aparecia na mídia, os estereotipados e os da marginalidade, pessoas agressivas, ou que  viviam na prostituição”.

O conflito interno era: “eu não posso, porque vai ser difícil, minha roda de amigos vai mudar, minha família, as oportunidades, tudo vai mudar. Uma hora não dava mais, me deixava muito triste negar quem eu era”.

O caminho a levou a um quadro depressivo, uso de drogas pesadas e internação em clínica. “Eu procurava saídas, porque eu não queria me aceitar. E isso me levou pra caminhos bem obscuros, como as tentativas de suicídio”.

O acolhimento

trans
Depois de tentar o suicídio, Zelda recebeu ajuda profissional e começou a se aceitar (Foto: Arquivo Pessoal)

A segunda internação foi aos 21 anos. “Eu tinha tentado suicídio e lá na clínica, tive um tempo de me encarar sem drogas, sem lugares que me faziam esquecer de mim, me afastei de amizades tóxicas”, conta Zelda.

“Finalmente foi o lugar onde eu comecei a olhar pra mim mesma e me entender. E as consultas com um psicólogo e um psiquiatra ajudaram”.

Ela finalmente concluiu que “a família gostava de mim, me amava. Meus pais preferiram ter uma filha viva do que ter um filho morto. Porque isso ia acabar acontecendo, eu estava sempre em risco, querendo acabar com tudo. A morte seria uma fuga”.

Tidioli informa que é muito comum os pais preferirem recorrer apenas a meios não profissionais, “para colocar os filhos no caminho que eles acham correto e acabam não atendendo as necessidades da criança”.

Um dos eixos da depressão é uma visão distorcida de si mesmo, sentir-se feio, inadequado, desajustado, inconveniente, de achar que nunca será amado, desamparado, porque essas pessoas não tiveram suas necessidades atendidas. “E a questão maior é que tiveram suas emoções negligenciadas”, esclarece o especialista.

É preciso despertar na família a importância de procurar profissionais qualificados, específicos, para entender que aquilo que eles estão vivenciando com a criança trans, não é nenhum bicho de sete cabeças.

“Então a importância dessa aceitação familiar desde cedo, é fundamental para uma questão de saúde emocional lá na frente”. Como prevenção de quadros depressivos e de ansiedade, de fortalecer a identidade dessa criança, “de fazer com que ela se sinta pertencente ao mundo onde ela vive, não deslocada”, conclui.

Descobrindo o amor próprio

Quando saiu da clínica, a  jovem procurou o atendimento especializado do SUS. “Comecei a passar com psicólogo, endócrino e conversar bastante para ter certeza de quem eu era”, explica.

Zelda frequentava ainda as reuniões de grupos trans, organizados pela prefeitura. “Fui conhecendo a vivência e as histórias de outras meninas e meninos trans e fui me encontrando, até decidir fazer minha transição. E com 21 anos comecei a fazer o tratamento, me hormonizar. E não parei mais”, alegra-se.

A busca por identidade

Zelda explica que o processo de transição envolve toda a família e com as mudanças é natural vir um estranhamento. “Minha família no início era bem rígida, já fui expulsa de casa, mas depois começaram a entender, eles se reconstruíram bastante”.

A jovem diz que hoje a família faz parte de sua rede de apoio. “Minha mãe me ajudou muito e mesmo sendo cristã, ela é a pessoa que mais me apoia e me defende”. E completa: “Eles me ajudaram com a mudança do meu nome, me ajudaram a procurar profissionais”.

A construção da identidade não foi um processo simples. “Realmente tudo aquilo que eu pensava que ia acontecer de ruim, aconteceu, não foi fácil. Você tem que ter um preparo, porque a sociedade ainda é muito arcaica”, lamenta. “As portas se fecham, as pessoas mudam. O tratamento muda”.

“Porém era isso ou nada. Eu prefiro ser uma pessoa feliz, por mais que o Brasil seja um país difícil pra uma pessoa trans viver, ao menos eu estou feliz comigo mesma”, comemora Zelda. “Esteticamente falando, também tenho orgulho da minha trajetória”.

Para ela, todo apoio e acolhimento é importante. “O difícil é andar na rua com medo de acontecer alguma coisa, você sai e não sabe se vai voltar, com tantas notícias de pessoas trans morrendo”.

Ela conta que duas amigas tiveram mortes violentas, “foi muita crueldade”.

trans
Zelda aconselha que seja visto “além de rótulos e genitais” (Foto: Sharon Mccutcheon)

Clamor

Mas o Brasil, para Zelda, é hipócrita: “O Brasil é o país que mais consome pornografia trans no mundo e ao mesmo tempo o que mais mata pessoas trans”.

“Eu clamo por mais empatia! Procurem conhecer pessoas e desconstruírem seu preconceito. O mundo é vasto e está se tornando mais diverso. Portanto, todos merecem respeito, acolhimento e compreensão, busquem ver além de rótulos e genitais, vejam pessoas”, conclui Zelda.

Confira também Surda oralizada comenta exclusão e isolamento no Big Brother Brasil: “Minha vida”

Deixe seu comentário

Grupos do SaúdeLab

SaúdeLab no WHATSAPP
SaúdeLab no TELEGRAM

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here