“Tenho depressão, mas a empresa não sabe” – a realidade de portadores de doenças crônicas

O maior medo dos portadores de doenças crônicas é não conseguirem se recolocar no mercado de trabalho

7
doenças crônicas
Pessoas com doenças crônicas temem perder o emprego por sua condição (Foto: CottonBro)

“Tenho depressão, mas a empresa que trabalho não sabe” – conheça a difícil realidade de portadores de doenças crônicas, que optam por esconder sua condição para manter seu emprego.

Nelson, de 45 anos, em entrevista exclusiva ao SaudeLab, contou que foi demitido após uma licença médica de três meses por depressão aguda (CID 10 – F33). “Passei pela Síndrome de Burnout e crises de pânico também, então minha situação era limitante”, explica.

A depressão é uma doença psiquiátrica crônica e recorrente que produz uma alteração do humor. É caracterizada por “tristeza profunda, associada a sentimentos de dor, amargura, desencanto, desesperança, baixa autoestima e culpa, assim como distúrbios do sono e do apetite”, segundo informou o médico psiquiatra Drauzio Varella.

Ouvimos uma jovem que preferiu não se identificar, que contou: “Trabalhei num escritório com uma mulher que perseguia mulheres quem trabalhavam com ela. Posteriormente, todas pediam para mudar de setor em pouquíssimo tempo”.

Estresse, doenças e medo

Segundo o supervisor de Tecnologia da Informação Nelson foi afastado do trabalho após uma forte crise causada pelo estresse. “Minha jornada de trabalho era 12h diárias, mas uma vez por semana, pelo menos, eu ficava 30h disponível para a empresa”.

Por ser uma empresa coreana, não raro, Nelson precisava participar de videoconferências no fuso horário local, com 12h de diferença. “Eu entrava segunda às 8h e saía na terça, 18h”.

Sua saúde ficou debilitada devido as poucas horas de sono, má alimentação e nenhuma atividade física ou diversão, que são primordiais. “Isso prejudicou a minha qualidade de vida”. Por consequência, Nelson, que sofre de depressão,  acabou sendo afastado pelo psiquiatra por três meses. “Quando voltei, ao término do período de estabilidade pós-licença, fui demitido”.

Com isso, ele teve medo de informar sua atual empresa de sua condição. “Primeiro tive medo de não ser admitido, depois, de ser demitido. Então se preciso faltar por não estar bem, apelo ao banco de horas, invento virose”, conclui.

doenças
As doenças crônicas podem ser agravadas em situações de estresse (Foto: Andrea Piacquadio)

Lucas, 35 anos, HIV positivo, formado em Gastronomia, confessou que só conseguiu emprego quando desistiu de sua área de formação: “Ninguém me aceita na cozinha”. Ele confessa que já pensou em esconder sua doença, mas que não o faz por uma questão de índole.

“Os medicamentos que tomo me deixam em condições de não transmissor do vírus da aids. Porém é tanto preconceito e medo das pessoas que é inviável trabalhar na cozinha”, lamenta-se.

Doenças crônicas e direitos

A advogada Ana Carolina Jessouron Oliveira informa que a empresa não pode demitir o funcionário que possua laudo ou atestado solicitando afastamento. Do mesmo modo, caso a doença tenha sido desencadeada por causa do trabalho exercido, como foi o caso de Nelson, a demissão pode ser considerada discriminatória.

“Se ficar provado que a pessoa teve um problema de saúde provocado ou agravado pela atividade laboral, a empresa tem que readmiti-la. Seja essa reintegração amigável ou judicial, se for do interesse dela voltar”, completa a advogada Jessica Maestrello.

A medicina preventiva

A médica endocrinologista Fernanda Gomes de Melo, conta que já recebeu pedidos de seus pacientes para mascarar suas doenças crônicas. Diabetes e pressão alta são as principais ocorrências.

“Eu acho que é preciso uma mentalidade diferente nas empresas, diversidade é também incluir pessoas com doenças crônicas. E acreditar que podem ter tratamento, controle, prevenção e reversão dentro de um programa de medicina do trabalho, com um acompanhamento preventivo”.

"Cautela com energéticos" é a dica da Dra. Fernanda Gomes de Melo
“Cautela com energéticos” é a dica da Dra. Fernanda Gomes de Melo (Imagem: Divulgação)

O acompanhamento preventivo não precisa ser uma coisa cara, explica a médica. “A princípio, pode ser junto com o exame periódico, uma orientação de mudança de hábito e de estilo de vida”, informa Fernanda. “Este controle muitas vezes vai fazer a empresa gastar menos a longo prazo”.

Existe esta possibilidade, explica a endocrinologista, mas depende das empresas terem esse olhar para o mercado, para o mundo. “Eu acredito que da mesma maneira que a gente tem lutado contra racismo, machismo, esses preconceitos também vão acabar tendo um holofote”.

No Hospital Oswaldo Cruz, cita a médica, há um programa de medicina do trabalho que já ganhou até prêmio, que é o programa Bem-Estar. Além disso, oferece acompanhamento, coach de saúde, orientação para atividade física, nutrição. Cada atividade feita, a pessoa ganha pontos. Quando atinge uma certa quantidade, ela ganha um bônus uma vez por ano, como se fosse um 14° salário. Com isso as pessoas se animam a se engajam a se cuidar.

O hospital oferece ainda programas específicos para gestantes (mesmo que seja mulher de funcionário), assim como doenças crônicas de acompanhamento periódico. Eles não representam custos para a empresa, mas que acaba levando a resultados de saúde dos funcionários muito melhores.

Deixe seu comentário

Grupos do SaúdeLab

SaúdeLab no WHATSAPP
SaúdeLab no TELEGRAM

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here