Book Appointment Now

32 vezes por dia? O que a ciência descobriu sobre gases intestinais
Soltar gases faz parte da vida. Ainda assim, é um tema cercado de constrangimento, e, até agora, baseado mais em estimativas do que em medições precisas. Afinal, quantas vezes por dia isso é considerado normal? A resposta pode surpreender.
Pesquisadores da Universidade de Maryland, nos Estados Unidos, desenvolveram a chamada “Smart Underwear”, uma roupa íntima com um pequeno sensor acoplado capaz de medir, de forma contínua, a liberação de gases intestinais.
Com o dispositivo, descobriram que adultos saudáveis podem soltar gases, em média, 32 vezes por dia — mais que o dobro das cerca de 14 vezes frequentemente citadas na literatura médica.
A variação individual também chamou atenção.
No estudo, houve participantes que liberaram gases apenas quatro vezes ao dia, enquanto outros chegaram a 59 episódios em 24 horas.
Por que as estimativas antigas eram menores?
Durante décadas, médicos tentaram avaliar queixas relacionadas a gases com métodos pouco precisos.
Muitos estudos dependiam do relato dos próprios pacientes, o que abre margem para esquecimento, constrangimento ou dificuldade de registrar episódios, especialmente durante o sono.
Além disso, a sensibilidade varia bastante.
Duas pessoas podem produzir quantidades parecidas de gases, mas uma sentir inchaço e pressão na barriga, enquanto a outra praticamente não nota nada.
Com o novo dispositivo, os pesquisadores conseguiram medir de forma objetiva e contínua, dia e noite, sem depender da memória de quem participa.
Como funciona a “roupa íntima inteligente”?
O aparelho é pequeno e discreto.
Ele se prende à roupa íntima comum e utiliza sensores eletroquímicos para detectar o hidrogênio presente nos gases.
Isso é relevante porque o hidrogênio é produzido exclusivamente pelas bactérias que vivem no intestino.
Ao monitorar esse gás, os cientistas conseguem acompanhar, em tempo real, a atividade metabólica do microbioma; ou seja, como as bactérias estão fermentando os alimentos no dia a dia.
Os pesquisadores comparam o dispositivo aos sensores usados por pessoas com diabetes, que monitoram a glicose ao longo do dia. A diferença é que ele acompanha a produção de gases intestinais de forma contínua.
Em testes, após o consumo de inulina (uma fibra que estimula a fermentação no intestino), o aparelho detectou o aumento de hidrogênio com 94,7% de precisão.
O que isso revela sobre o intestino?
Os gases intestinais surgem quando as bactérias do intestino fermentam o que você come, principalmente fibras. Nesse processo, são produzidos gases como hidrogênio e, em algumas pessoas, metano.
Ao medir principalmente o hidrogênio de forma contínua, os cientistas conseguem acompanhar como o intestino reage aos alimentos no dia a dia.
Isso ajuda a entender melhor o efeito de fibras, probióticos e mudanças na dieta sobre o funcionamento do intestino.
Diferentemente do colesterol ou da glicose, que têm valores de referência bem definidos, ainda não existia um parâmetro claro para gases intestinais.
Sem essa base, era difícil saber quando a produção é realmente excessiva ou apenas uma variação comum.
O “Atlas dos Gases Humanos”
Com base nos primeiros resultados, a equipe lançou o projeto Human Flatus Atlas, que pretende mapear o padrão considerado normal de gases em adultos nos Estados Unidos.
A proposta é acompanhar centenas de voluntários usando o dispositivo em casa e cruzar os dados com alimentação e composição do microbioma.
Nos estudos iniciais, três perfis chamaram atenção:
- pessoas que consomem bastante fibra e quase não produzem gases;
- pessoas que produzem muitos gases ao longo do dia;
- indivíduos que ficam entre esses dois extremos.
A equipe quer entender o que diferencia esses grupos, inclusive analisando amostras de fezes para estudar as bactérias intestinais.
O que isso muda na prática?
Para quem sofre com excesso de gases, distensão abdominal ou desconforto frequente, a tecnologia pode representar um avanço importante.
Com dados objetivos, médicos poderão avaliar se a produção está realmente acima do esperado ou se o incômodo está mais relacionado à sensibilidade intestinal.
Além disso, o dispositivo pode ajudar a testar como mudanças na alimentação afetam o intestino de forma personalizada — e talvez até redefinir o que significa ter um funcionamento “normal”.
O estudo foi publicado na revista científica Biosensors and Bioelectronics: X.
Os pesquisadores envolvidos também registraram pedidos de patente relacionados à tecnologia.
Leitura Recomendada: Por que a imunoterapia falha em alguns pacientes com câncer?



