Paracetamol na gravidez: o que realmente preocupa — e o que não

Paracetamol na gravidez é um tema que costuma gerar dúvidas, insegurança e até medo entre gestantes. Não por acaso, pois trata-se do analgésico e antitérmico mais utilizado durante a gestação, geralmente a primeira opção quando surgem dor de cabeça, febre ou outros desconfortos comuns desse período.

Nos últimos anos, porém, alertas nas redes sociais e manchetes chamativas levantaram a suspeita de que o uso do medicamento poderia estar ligado a alterações no neurodesenvolvimento infantil, como autismo e TDAH.

Mas o que dizem, de fato, as evidências científicas mais recentes?

O que a ciência investigou sobre o paracetamol na gravidez

No dia 16 janeiro de 2026, um estudo amplo e rigoroso foi publicado em uma das revistas médicas mais respeitadas do mundo, o periódico The Lancet Obstetrics, Gynaecology & Women’s Health.

Os pesquisadores reuniram dados de dezenas de estudos anteriores, envolvendo milhões de mães e crianças, para avaliar se o uso de paracetamol durante a gestação estava associado a maior risco de transtornos do neurodesenvolvimento.

A análise focou em diagnósticos como transtorno do espectro autista, transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) e deficiência intelectual.

Os pesquisadores compararam irmãos da mesma família porque eles têm genética e ambiente semelhantes.

Isso ajuda a entender se o resultado observado pode estar ligado ao medicamento — e não a características da família.

O que os resultados mostram

Após reunir e analisar todos esses dados, os pesquisadores não encontraram aumento significativo no risco de autismo, TDAH ou deficiência intelectual em crianças cujas mães usaram paracetamol durante a gravidez, dentro dos padrões mais comuns da prática clínica.

Mesmo quando os pesquisadores repetiram a análise usando apenas os estudos mais sólidos (aqueles que acompanharam as crianças por mais tempo e tiveram menos margem para erro) o resultado foi o mesmo.

Em outras palavras, as evidências mais robustas disponíveis hoje não indicam que o paracetamol cause prejuízos ao desenvolvimento neurológico infantil.

Esses resultados reforçam a orientação de entidades médicas internacionais, que seguem indicando o paracetamol como a opção mais segura para tratar dor e febre na gravidez.

Por que surgiram tantas dúvidas sobre o medicamento?

A desconfiança em torno do paracetamol não surgiu do nada.

Parte dela veio de estudos observacionais mais antigos, que apontavam pequenas associações entre o uso do medicamento na gestação e alterações no comportamento infantil.

Esse debate ganhou ainda mais visibilidade no fim do ano passado, após declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que relacionou o uso do paracetamol durante a gravidez a um suposto aumento do risco de autismo.

Em suas falas, ele citou o Tylenol, nome comercial pelo qual o medicamento é conhecido no país.

O problema é que muitos desses estudos não conseguiram distinguir se os efeitos observados vinham do medicamento ou de outros fatores da própria gravidez, como febre ou infecções.

A análise mais recente indica que a associação estava ligada a esses fatores, e não ao paracetamol em si.

Paracetamol e os possíveis efeitos colaterais

Embora seja considerado seguro quando usado corretamente, o paracetamol não é um medicamento isento de riscos. Entre os principais pontos de atenção estão:

  • Sobrecarga no fígado, especialmente em doses elevadas ou no uso prolongado — um dos principais motivos de internação por intoxicação medicamentosa em vários países;
  • Náuseas, desconforto abdominal e mal-estar, que podem ocorrer mesmo em doses habituais;
  • Reações alérgicas, mais raras, mas possíveis.

Por isso, o paracetamol não deve ser tratado como um remédio “inofensivo” ou de uso irrestrito.

A recomendação geral, tanto para gestantes quanto para a população em geral, é usar a menor dose eficaz, pelo menor tempo necessário, evitando combinações com outros medicamentos sem orientação profissional.

O risco de não tratar dor e febre durante a gestação

Um ponto frequentemente esquecido nesse debate é que deixar dor ou febre sem tratamento também pode trazer consequências.

A febre alta durante a gravidez, por exemplo, já foi associada a maior risco de complicações gestacionais e problemas para o bebê.

Nesse contexto, o paracetamol continua sendo uma ferramenta importante para proteger a saúde da mãe e do feto, ajudando a controlar sintomas que, quando ignorados, podem representar riscos reais.

O que fica de lição

Ao reunir um grande volume de dados e aplicar critérios rigorosos de análise, o estudo mais recente ajuda a colocar o tema em perspectiva e a reduzir o alarmismo em torno do paracetamol na gravidez.

Até o momento, a ciência não encontrou evidências sólidas de que o uso do medicamento, nos padrões habituais de prescrição, cause danos ao desenvolvimento neurológico infantil.

Isso não elimina a necessidade de cautela, mas reforça a importância de decisões baseadas em evidência, e não em medo.

Para gestantes, a orientação continua sendo conversar com o profissional de saúde, usar o medicamento apenas quando necessário e seguir as recomendações médicas.

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Michele Azevedo

Formada em Letras - Português/ Inglês, pós-graduada em Arte na Educação e Psicopedagogia Escolar, idealizadora do site Escritora de Sucesso, empresária, redatora e revisora dos conteúdos do SaúdeLab.

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