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Popular, eficaz e perigoso? O que 43 dermatologistas dizem sobre o minoxidil oral
O minoxidil oral tem se tornado cada vez mais comum entre pessoas que enfrentam queda de cabelo.
Embora ainda não tenha aprovação oficial para esse fim, seu uso se espalhou em farmácias de manipulação, vídeos nas redes sociais e até por automedicação, o que preocupa especialistas.
Criado originalmente como um remédio para pressão alta, o medicamento ganhou notoriedade por um efeito colateral curioso: o crescimento acentuado de pelos.
Hoje, em doses baixas, é usado como alternativa ao minoxidil tópico (uma loção ou espuma aplicada diretamente no couro cabeludo), principalmente em casos de calvície e afinamento dos fios.
O artigo que busca orientar o uso clínico do minoxidil oral foi publicado na revista científica JAMA Dermatology, com participação de 43 dermatologistas de 12 países.
Uma das pesquisadoras brasileiras envolvidas, a dermatologista Isabella Doche, detalhou as descobertas em entrevista ao Jornal da USP.
Mas afinal, quando o uso do minoxidil por via oral é indicado? Quais são os cuidados necessários? E por que ele ainda não consta oficialmente nas bulas? Continue a leitura para entender.
Como o minoxidil oral age no combate à queda de cabelo
Embora o minoxidil oral ainda não tenha aprovação oficial da Anvisa para esse fim, ele é utilizado fora da bula (o chamado uso off-label) por muitos dermatologistas.
Assim como em outros países, o uso segue sendo feito com base em experiência clínica e estudos disponíveis, mas sem liberação formal pelas agências regulatórias.
Isso significa que, mesmo sem constar nas indicações formais do remédio, alguns profissionais o prescrevem com base na prática e em evidências em desenvolvimento.
Apesar do uso crescente, os especialistas destacam que ainda são necessários mais estudos e padronizações para o uso oral do minoxidil.
Como mencionado no início, originalmente, o minoxidil foi desenvolvido para controlar a pressão alta. Com o tempo, médicos notaram que um dos efeitos colaterais era o crescimento acentuado de pelos e cabelos.
Isso ocorre porque ele promove vasodilatação (a dilatação dos vasos sanguíneos), melhorando a circulação no couro cabeludo e, consequentemente, no folículo piloso.
Sobre o mecanismo de ação, a dermatologista Isabella Doche explica que ainda não se sabe exatamente como o minoxidil oral atua.
Uma das hipóteses mais aceitas é que ele prolonga a fase de crescimento dos fios, chamada fase anágena, por meio da abertura de canais de potássio.
No entanto, ela ressaltou que essa teoria ainda está sendo estudada e que o funcionamento exato do medicamento permanece parcialmente desconhecido.
Minoxidil oral ou tópico: qual é a diferença?
A forma mais conhecida do minoxidil é a loção ou espuma aplicada diretamente no couro cabeludo.
Essa versão é vendida em farmácias sem necessidade de receita médica.
No entanto, nem todos se adaptam ao produto. Em alguns casos, a aplicação causa coceira, irritação e até descamação da pele.
Por isso, o minoxidil oral tem ganhado espaço como alternativa.
Ele é indicado especialmente para pessoas que apresentam reações ao uso tópico ou que não conseguem manter a rotina diária de aplicação.
“A versão oral, em doses baixas, oferece uma alternativa com maior adesão ao tratamento e, muitas vezes, com resultados mais satisfatórios”, afirmou a médica ao Jornal da USP.
Mas há um detalhe importante: no Brasil, não existe ainda uma versão industrializada do medicamento em baixa dosagem para uso capilar.
Por isso, ele precisa ser manipulado sob prescrição médica, com controle da procedência e da dosagem exata.
Estudo internacional aponta segurança, mas com ressalvas
O estudo publicado na JAMA Dermatology usou a metodologia Delphi, em que especialistas respondem a várias rodadas de questionários até que um consenso seja alcançado sobre diferentes tópicos.
A partir das respostas, foram estabelecidas orientações sobre o uso do minoxidil oral em homens, mulheres e adolescentes com diferentes tipos de alopecia (queda de cabelo).
De acordo com os dermatologistas envolvidos, os principais benefícios foram observados tanto em casos de alopecia não cicatricial (como a calvície comum) quanto em algumas formas de alopecia cicatricial (quando há inflamação que danifica o folículo).
Além disso, estudos recentes indicam que o remédio pode ter um efeito hormonal chamado antiandrogênico, ou seja, ajuda a reduzir a ação dos hormônios andrógenos, que contribuem para o afinamento dos fios.
Quais são as doses recomendadas?
As doses variam conforme o sexo e a idade do paciente. O consenso entre os especialistas foi o seguinte:
- Mulheres adultas: entre 1,25 mg e 5 mg por dia, sendo que muitas já apresentam bons resultados com 1 a 1,5 mg diários.
- Homens adultos: entre 2,5 mg e 5 mg por dia.
- Adolescentes (12 a 17 anos): meninas devem começar com 0,6 mg e meninos com 1 mg, podendo chegar até 2,5 mg e 5 mg, respectivamente.
No caso de crianças abaixo dessa faixa etária, ainda não há consenso.
“O uso pediátrico é bastante raro e está sendo estudado. Faltam especialistas com experiência suficiente nesses casos”, acrescenta a dermatologista.
Efeitos colaterais e cuidados necessários
Apesar do perfil de segurança ser considerado bom, o minoxidil oral não é livre de efeitos colaterais.
Um dos efeitos mais comuns é a hipertricose, ou seja, o crescimento de pelos em áreas como rosto e corpo — algo que pode ser incômodo, especialmente para as mulheres.
Também podem surgir sintomas como taquicardia (aceleração dos batimentos cardíacos), tontura e inchaços no rosto, mãos e pés, especialmente nas primeiras semanas de uso.
“Esses efeitos tendem a desaparecer em até duas semanas”, explica a médica.
Já os riscos mais graves, embora raros, incluem a efusão pericárdica, que é o acúmulo de líquido ao redor do coração.
Esse termo pode parecer técnico, mas é importante compreendê-lo: trata-se de uma complicação cardiovascular que pode ocorrer mesmo em doses baixas, segundo a literatura médica. Por isso, o acompanhamento médico é fundamental.
O remédio é contraindicado para pessoas com histórico de efusão pericárdica, pericardite, insuficiência cardíaca e outras doenças cardiovasculares.
Também não deve ser utilizado por gestantes e lactantes.
Pacientes com problemas como arritmias, pressão baixa ou doenças renais devem ser avaliados por um especialista antes de iniciar o tratamento.
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Monitoramento e ajustes no tratamento
Segundo a dermatologista brasileira, não há necessidade de exames complexos em pacientes saudáveis.
O monitoramento se baseia na resposta clínica (ou seja, o quanto o cabelo melhora) e na presença de efeitos colaterais. Se necessário, o médico pode ajustar a dose.
Não houve consenso sobre a frequência ideal desses ajustes.
Alguns profissionais preferem fazer alterações mensais, enquanto outros recomendam avaliações trimestrais. O mais importante, segundo os especialistas, é que o paciente tenha acompanhamento regular.
Popularização aumenta automedicação — um risco real
Com o crescimento da divulgação do minoxidil oral em redes sociais e blogs, aumentaram também os casos de uso sem prescrição médica.
Isso preocupa os profissionais de saúde.
“É possível encontrar o medicamento sendo vendido sem receita, o que é extremamente perigoso”, alerta a dermatologista Isabella Doche.
Ela destaca que o uso do medicamento deve sempre ser feito com acompanhamento médico, e a manipulação da fórmula precisa ser feita em farmácias confiáveis, com autorização da vigilância sanitária.
O uso inadequado pode não apenas trazer efeitos colaterais indesejados, como também mascarar outras condições de saúde que precisam de investigação adequada.
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