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Decisões alimentares inconscientes: será que fazemos mesmo mais de 200 por dia?
Durante anos, uma ideia curiosa ganhou espaço em reportagens, campanhas de saúde e até consultórios. A de que tomamos mais de 200 decisões alimentares inconscientes todos os dias. Segundo essa narrativa, escolhemos o que comer quase no piloto automático, com pouco controle real sobre nossas escolhas.
Um estudo, porém, mostra que essa história não é bem assim.
Pesquisadores do Instituto Max Planck para o Desenvolvimento Humano, na Alemanha, analisaram a origem desse número tão repetido e concluíram que ele se baseia em um erro metodológico.
A análise foi publicada na revista científica Appetite.
De onde veio o número das “200 decisões”
A ideia surgiu a partir de um estudo de 2007 feito nos Estados Unidos.
Nele, voluntários foram convidados a estimar quantas decisões tomavam por dia sobre comida e bebida.
Quando responderam de forma geral, o número foi baixo: cerca de 14 decisões diárias.
Depois, os pesquisadores mudaram a forma de perguntar.
Em vez de uma estimativa única, pediram que os participantes pensassem separadamente em vários detalhes de cada refeição, como o que comer, quanto, quando, onde e com quem.
Ao somar todas essas respostas, o total ultrapassou 220 decisões por dia.
Essa diferença passou a ser interpretada como escolhas feitas sem consciência — as chamadas decisões alimentares inconscientes.
Por que esse cálculo pode estar errado
Segundo pesquisadores do Instituto Max Planck, esse aumento não indica que as pessoas decidam tudo no automático.
Ele ocorre por causa de um efeito psicológico chamado subaditividade.
Em termos simples, quando uma pergunta ampla é dividida em várias partes, cada detalhe acaba sendo contado separadamente. Isso faz a soma final crescer, mesmo sem refletir o que realmente acontece no dia a dia.
O efeito dessa ideia sobre nossos hábitos
Dizer que quase tudo o que comemos é decidido “no automático” pode ter um impacto negativo.
Isso passa a sensação de que mudar hábitos alimentares é muito difícil, já que o cérebro estaria sempre agindo sozinho.
O novo estudo aponta outra realidade.
As pessoas conseguem, sim, fazer escolhas conscientes, especialmente quando elas estão ligadas a objetivos pessoais, como emagrecer, melhorar a saúde ou adotar hábitos alimentares mais equilibrados.
O contexto importa mais do que a contagem
Em vez de contar decisões como números isolados, os cientistas defendem olhar para o contexto.
Emoções, rotina, ambiente e companhia influenciam diretamente nossas escolhas alimentares.
Uma estratégia prática destacada no estudo é o self-nudging — pequenas mudanças no ambiente que facilitam decisões melhores.
Deixar frutas à vista, guardar doces fora do alcance ou planejar refeições com antecedência são exemplos simples que ajudam no dia a dia.
No fim, a mensagem é a de que não somos reféns de centenas de decisões alimentares inconscientes.
Temos mais controle do que imaginamos quando entendemos nossos hábitos e criamos condições favoráveis para boas escolhas.
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