Colapso materno: por que tantas mães estão exaustas

Até quando a mãe será o único contato da escola?

Até quando só a mãe terá acesso à gaveta do remédio de febre?

Até quando só a mãe vai organizar a mochila, o lanche, a agenda?

Até quando só a mãe vai perceber a gripe começando ou o dente que caiu?

Até quando só a mãe terá que preencher formulários, autorizações, lembretes?

Até quando será sempre a mãe a levar o filho à consulta, a interpretar o relatório, a segurar a mão no exame médico, a acompanhar cada passo da recuperação?

Até quando só a mãe vai saber o nome dos amigos da turma?

Até quando só a mãe vai reparar, no olhar, que o filho está sendo alvo de bullying?

Até quando só a mãe vai ouvir, no tom de voz, que algo grave aconteceu?

Até quando só a mãe vai decifrar o que não foi dito?

Até quando a mãe será a ponte única entre casa, escola, médicos e terapias?

Até quando a vida da família seguirá apoiada num único corpo?

O colapso materno não acontece de repente.

Ele se constrói. É feito da repetição das pequenas solidões e demandas invisíveis: quando ninguém mais percebe a unha por cortar, o choro persistente, o comer compulsivo, o uniforme apertado, o tênis machucando.

É feito também de tudo aquilo que uma mãe precisa manter funcionando dentro da própria cabeça. O horário do antibiótico. A data da reunião. O nome do medicamento. O telefone da terapeuta. A autorização que precisa voltar assinada.

A consulta que precisa ser remarcada. O trabalho escolar que vence na sexta.

O alimento que acabou. A mudança de comportamento que começou há três dias e que ninguém mais parece ter percebido.

Há uma quantidade imensa de trabalho acontecendo antes mesmo que qualquer tarefa seja executada.

Alguém precisa lembrar que existe uma consulta antes de levar a criança até ela. Alguém precisa perceber que o tênis ficou pequeno antes de comprar outro. Alguém precisa notar que o silêncio daquele dia não é o silêncio habitual. Alguém precisa saber onde está a carteirinha do plano, quando vence a receita, o que a escola pediu, qual profissional precisa receber o relatório e por que o filho voltou para casa diferente.

E esse alguém, em milhões de famílias, continua sendo a mãe.

Chamamos de cuidado uma estrutura que, muitas vezes, depende da memória, do tempo, da disponibilidade, do corpo e da saúde mental de uma única pessoa.

Depois nos espantamos quando ela adoece.

Perguntamos por que está exausta. Por que não dorme. Por que não consegue trabalhar como antes. Por que deixou de encontrar os amigos. Por que abandonou projetos. Por que não consegue se exercitar, ler um livro, marcar uma consulta para si mesma ou simplesmente passar algumas horas sem calcular o que ainda falta fazer.

O colapso que um dia se torna visível começou muito antes.

Começou cada vez que uma responsabilidade familiar ganhou automaticamente o nome da mãe. Cada vez que a escola ligou para ela sem sequer tentar outro contato. Cada vez que alguém perguntou a ela onde estava uma coisa que também poderia procurar. Cada vez que foi necessário lembrar outro adulto de uma obrigação que também era dele. Cada vez que descansar exigiu organizar previamente tudo para que sua ausência não desorganizasse a vida de todos.

Nenhuma pessoa deveria ser imprescindível a esse ponto.

Porque, veja, se o cuidado for dividido, mães poderão respirar sem culpa. Poderão adoecer sem que a casa inteira desmorone. Poderão trabalhar sem administrar uma segunda jornada pelo telefone. Poderão sair sem deixar instruções sobre cada detalhe da vida dos filhos.

Poderão existir para além da função.

Poderão ser gente com desejos, sonhos e planos.

Mães serão pessoas completas.

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Debora Saueressig
Debora Saueressig

Debora Saueressig é jornalista, palestrante e comunicadora com quase 30 anos de experiência. Ao longo da carreira, atuou em redações, comunicação institucional, saúde mental e no Poder Legislativo do Rio Grande do Sul, com passagem por comissões como Saúde e Constituição e Justiça. Mulher autista de diagnóstico tardio e mãe de uma criança autista, dedica-se hoje à discussão sobre neurodiversidade, maternidade atípica, inclusão, saúde mental e políticas públicas. Durante as enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul, mobilizou e coordenou uma rede de acolhimento voltada a famílias atípicas.

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