Dia das Crianças: você deixa seu filho brincar do jeito dele? Especialistas revelam o que muitos pais não percebem nessas horas

Atividades cotidianas podem favorecer o desenvolvimento infantil; especialistas explicam como participar das brincadeiras e respeitar as particularidades de crianças neurodivergentes

Você já tentou ensinar alguma coisa à criança enquanto ela brincava e percebeu que ela só queria continuar do próprio jeito? Ou sentiu que precisava propor uma atividade educativa para aproveitar melhor aquele momento?

Uma criança empilha blocos, derruba tudo e começa de novo. Outra transforma uma caixa de papelão em uma nave espacial. Há também aquela que repete a mesma brincadeira diversas vezes. Essas situações fazem parte da maneira como a criança experimenta o mundo.

Brincar é uma das principais formas pelas quais a criança conhece o mundo, expressa emoções, experimenta possibilidades e aprende a se relacionar. Por isso, mais importante do que oferecer muitos brinquedos é garantir tempo e espaço para que ela explore, crie e também conduza a brincadeira. O adulto pode participar, mas sem transformar cada momento em uma atividade com objetivos e cobranças”, explica Thaís Barbisan, psicóloga e neuropsicóloga.

Na prática, isso não significa deixar a criança sempre sozinha ou evitar participar. Pais e cuidadores podem acompanhar a brincadeira sem assumir o controle, começando por observar o que desperta a atenção dos pequenos.

Se a criança está montando uma torre, por exemplo, o adulto pode ajudar a empilhar peças ou perguntar o que ela está construindo, deixando que decida os rumos da atividade.

Esses momentos também podem favorecer diferentes habilidades, dependendo da brincadeira e da participação da criança.

“Quando o adulto acompanha aquilo que desperta o interesse da criança, ele cria oportunidades de troca sem necessariamente conduzir tudo. Uma brincadeira de faz de conta, por exemplo, pode estimular criatividade e expressão emocional; um jogo pode trabalhar espera e tolerância à frustração; e uma atividade compartilhada pode favorecer habilidades sociais”, acrescenta Thaís.

Se a criança perde o interesse ou quer mudar de atividade, vale respeitar sua iniciativa, sem insistir para que termine o que começou.

Crianças autistas podem brincar de maneiras diferentes

Nem todas as crianças demonstram interesse pelas mesmas atividades, interagem da mesma forma ou se sentem confortáveis com as mesmas experiências.

No caso de crianças autistas, respeitar essas particularidades é importante para que a brincadeira não se transforme em uma tentativa de adequação a um padrão.

“Não precisamos exigir que elas brinquem exatamente da mesma maneira que as outras crianças. Podemos partir dos interesses que elas já demonstram e, a partir deles, ampliar gradualmente as possibilidades de interação e participação”, afirma Catiuscia Homem, terapeuta ocupacional especialista em TEA.

Na prática, isso pode significar começar por uma atividade de que a criança já gosta e introduzir pequenas variações quando ela demonstrar interesse.

Brinquedos de encaixe permitem experimentar formas e resolver problemas. Atividades com movimento envolvem equilíbrio e coordenação, enquanto jogos compartilhados oferecem oportunidades de alternar turnos.

“Não existe uma única maneira correta de brincar. O objetivo não deve ser fazer a criança abandonar aquilo que gosta para se adequar ao modelo de brincadeira esperado pelos adultos. Podemos utilizar aquilo que já faz sentido para ela como ponto de partida para ampliar experiências”, orienta Catiuscia.

Respeitar esse processo também significa não forçar contato ou participação. A brincadeira deve considerar as preferências e o ritmo da criança, sem exigir que ela interaja de uma maneira predeterminada.

Brincadeiras infantis
Brincadeiras infantis / Crédito: Canva

A comunicação acontece mesmo sem palavras

Uma criança pode demonstrar o que deseja apontando para um brinquedo, entregando um objeto ou olhando para o adulto. Perceber esses sinais ajuda pais e cuidadores a responder às tentativas de comunicação, mesmo quando a criança ainda não utiliza a fala.

“A brincadeira cria situações naturais para a criança se comunicar. Nem sempre essa comunicação acontece por meio da fala: um olhar, um gesto, uma troca de objeto ou uma expressão também são formas de interação. Quando o adulto acompanha o interesse da criança e responde ao que ela está tentando comunicar, ele cria oportunidades importantes para o desenvolvimento da linguagem sem transformar o brincar em uma sessão de terapia”, explica Paula Anderle, fonoaudióloga.

Durante a brincadeira, os adultos também podem nomear objetos e comentar o que está acontecendo, criando oportunidades para a criança participar da conversa no seu próprio ritmo.

“Se a criança aponta para um brinquedo, por exemplo, podemos nomeá-lo e criar uma pequena troca, em vez de simplesmente entregar o objeto imediatamente. São pequenas oportunidades de interação que acontecem dentro da rotina e que podem ser muito significativas”, afirma Paula.

Isso não significa reter o brinquedo até que a criança fale ou exigir uma resposta. A intenção é favorecer a interação, respeitando a maneira como ela se comunica.

Não é preciso ter brinquedos caros

Caixas de papelão, folhas de papel, lápis de cor e peças de encaixe podem servir de ponto de partida para brincar. Não é necessário comprar brinquedos educativos ou organizar atividades elaboradas para que esses momentos tenham valor.

O relatório clínico The Power of Play, da Academia Americana de Pediatria, destaca que brincadeiras adequadas à fase de desenvolvimento podem favorecer habilidades sociais, emocionais, cognitivas, de linguagem e autorregulação, além de fortalecer os vínculos entre crianças e cuidadores.

No Dia das Crianças, vale lembrar que estar presente não significa dirigir cada atividade. Às vezes, participar é brincar junto. Em outras, é deixar a criança explorar, inventar suas próprias regras e decidir quando quer compartilhar aquele momento.

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Redação SaúdeLab

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