Cássio tinha dinheiro, sucesso e uma carreira de ídolo. Mesmo assim, entrou em depressão: por que isso pode acontecer?

Hoje goleiro do Cruzeiro, Cássio chegou ao clube depois de uma longa passagem pelo Corinthians, onde se tornou ídolo e conquistou títulos. Mas foi justamente no fim desse ciclo que ele viveu um dos períodos mais difíceis da carreira.

À primeira vista, Cássio tinha tudo para estar bem. Uma carreira vitoriosa, reconhecimento, dinheiro e o sonho de jogar no Corinthians realizado. Mesmo assim, chegou a um ponto em que já não conseguia continuar.

“Eu tava em depressão, velho. Quando eu saí do Corinthians, velho, eu tava… Chegou a um ponto ali, cara, que eu tive que buscar ajuda”, contou ao Charla Podcast.

O relato toca em uma dúvida que pode aparecer para quem nunca passou por isso. Se a vida parece estar dando certo, como alguém pode chegar à depressão?

A resposta passa por entender que sofrimento emocional não é medido apenas pelo que as outras pessoas enxergam.

Ter uma vida aparentemente boa não impede a depressão

Cássio contou que uma das maiores dificuldades era não conseguir mais fazer justamente aquilo que sempre sonhou.

“Eu ficava pensando assim, conversava com a minha esposa, falei: ‘Cara, eu não tô conseguindo jogar no Corinthians.” E fez questão de explicar: “Não é que tu não quer, é que tu não tem força para sair daquela situação ali.”

A psiquiatra Fabricia Signorelli já abordou essa percepção ao falar sobre pressão psicológica no esporte.

Segundo ela, “existe uma tendência de enxergar jogadores de alto rendimento como pessoas emocionalmente inabaláveis, mas eles continuam sendo seres humanos”.

A médica acrescenta que “o cérebro responde ao estresse independentemente da fama ou do talento”.

Isso vale também para quem está fora dos campos. Ter emprego, família, dinheiro ou uma vida aparentemente organizada não impede que uma pessoa desenvolva um quadro depressivo.

A cobrança pode se transformar em um peso

Cássio não apontou um único acontecimento como responsável pelo que viveu. Ele citou as críticas da torcida, o momento ruim do Corinthians e a própria cobrança.

“Eu me cobrava porque as coisas não iam bem”, afirmou.

Quando essa cobrança se torna constante, a maneira como a pessoa interpreta o que acontece com ela também pode mudar.

A neurologista Marília Graner explica que alguns pensamentos podem aparecer de forma automática, sem que a pessoa pare para analisar se aquilo realmente corresponde à realidade.

Em uma de suas colunas no SaúdeLab, ela explica esse mecanismo:

“Quando alguém pensa: ‘Eu sempre erro’, ‘Eu não sou o suficiente’ ou ‘Isso vai dar errado’, não são insights profundos. É apenas um padrão automático em ação.”

Na prática, isso significa que, diante de uma situação difícil, a mente pode repetir rapidamente interpretações negativas que já se tornaram habituais.

A pessoa pode começar a enxergar um problema específico como prova de que tudo está dando errado ou de que ela não é capaz.

Depressão do Cássio
Cássio durante sua passagem pelo Corinthians e, à direita, já defendendo o Cruzeiro/ Fotos: Djalma Vassão/Gazeta Press e Rafael Vieira/Cruzeiro

Depressão não é simplesmente falta de vontade

A diferença apontada por Cássio é importante. Não se trata simplesmente de não querer fazer algo.

“Não é que tu não quer, é que tu não tem força para sair daquela situação ali”, explicou.

A depressão pode envolver humor deprimido, perda de interesse ou prazer, culpa e autodesvalorização, entre outros sintomas. O diagnóstico, porém, não é feito a partir de um único sinal e depende de avaliação profissional.

Por isso, desânimo ou cansaço pontual não devem ser automaticamente confundidos com depressão. A preocupação aumenta quando essas mudanças persistem e começam a interferir na vida cotidiana.

Buscar ajuda pode ser parte da saída

Cássio contou que a esposa foi importante para que ele percebesse que precisava de ajuda. Ela procurou uma psicóloga que já havia acompanhado o goleiro e, a partir dessa conversa, surgiu a indicação de buscar também um psiquiatra.

“Aí ela (a psicóloga) falou: ‘Cara, eu acho que nós precisamos trazer outra pessoa, que daí é o psiquiatra’.”

Cássio então passou a ser acompanhado pelo médico, que prescreveu medicação.

“Ele começou, me receitou o remédio, tivemos conversas longas”, contou o goleiro.

O relato ajuda a entender que psicólogo e psiquiatra podem ter papéis diferentes e complementares. A psicoterapia pode fazer parte do tratamento, enquanto o psiquiatra é o médico que avalia o quadro e pode prescrever medicamentos quando necessário.

Isso não significa que toda pessoa que busca ajuda precise tomar remédios. A necessidade de medicação é avaliada individualmente, de acordo com o quadro de cada paciente.

O tratamento também não deve ser visto como sinal de fraqueza. Ao falar sobre saúde mental no esporte, Fabricia Signorelli reforça que atletas de alto rendimento também estão sujeitos ao sofrimento psicológico, apesar da imagem de força e desempenho que carregam.

Por isso, ela afirma que “cuidar da saúde mental não é sinal de fragilidade, mas uma estratégia de alto desempenho”.

No caso de Cássio, reconhecer que já não conseguia lidar sozinho com aquela situação foi parte importante do processo de buscar ajuda.

O relato não significa que críticas ou pressão profissional necessariamente provoquem depressão, nem que toda pessoa que perde a motivação esteja deprimida. Mas lembra que uma pessoa pode parecer bem aos olhos de quem está de fora e, ainda assim, estar enfrentando um sofrimento que precisa de cuidado.

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Redação SaúdeLab

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