Saúde mental e superdotação: quando a inteligência também esconde sofrimento

Durante muito tempo, falar em superdotação significou falar quase exclusivamente de inteligência, facilidade para aprender, desempenho escolar e grandes potenciais. Ainda hoje, existe uma expectativa quase automática de que uma pessoa com altas habilidades terá menos dificuldades justamente porque apresenta capacidades cognitivas acima da média.

Mas inteligência elevada não é sinônimo de saúde mental.

Neste Setembro Amarelo, período em que ampliamos as discussões sobre sofrimento emocional e prevenção do suicídio, acredito que precisamos olhar também para um público que raramente aparece nesse debate: crianças, adolescentes e adultos com altas habilidades ou superdotação.

Existe uma ideia perigosa de que quem aprende rápido, tira boas notas, constrói uma carreira de sucesso ou demonstra grande capacidade intelectual necessariamente “dá conta” das próprias emoções. Nem sempre é assim.

Superdotação não é transtorno mental

É importante fazer essa distinção. Não devemos patologizar a superdotação. Ser superdotado não significa ser ansioso, deprimido ou emocionalmente adoecido.

A própria literatura científica ainda não estabelece uma relação simples entre altas habilidades e maior prevalência de transtornos mentais.

Revisões sobre o tema apresentam resultados heterogêneos: alguns estudos encontram questões socioemocionais importantes nesse grupo, enquanto outros não identificam diferenças significativas em comparação com pessoas não superdotadas.

O que precisamos compreender é que determinadas características individuais, combinadas ao ambiente e à ausência de identificação e suporte adequados, podem favorecer situações de sofrimento.

Perfeccionismo, intensidade emocional, alta sensibilidade, sensação de inadequação e dificuldade de pertencimento são aspectos que merecem atenção.

Não porque estejam necessariamente presentes em todas as pessoas superdotadas — não existe um único perfil de superdotação —, mas porque, quando aparecem e não são compreendidos, podem interferir na maneira como o indivíduo constrói sua relação consigo mesmo e com o mundo.

Quando ninguém pergunta como você está

Talvez uma das questões mais delicadas esteja justamente na expectativa criada em torno dessas pessoas. Quando uma criança demonstra uma capacidade muito acima da média, os adultos tendem a olhar para aquilo que ela consegue fazer: o que aprende, o que produz, aquilo em que se destaca.

Mas quem pergunta como essa criança está se sentindo?

Na escola, por exemplo, uma criança pode aprender rapidamente e, ainda assim, enfrentar tédio constante, falta de estímulo intelectual, dificuldade para encontrar pares com interesses semelhantes ou até esconder suas capacidades numa tentativa de pertencer ao grupo.

Essas experiências podem se acumular.

Quando não existe identificação, algumas pessoas passam anos tentando se adaptar aos ambientes sem compreender por que pensam, aprendem ou sentem de maneira diferente.

Isso pode aparecer na infância, nas amizades, nos relacionamentos, na universidade e, posteriormente, no trabalho.

É possível passar uma vida inteira sendo reconhecido pelo que se consegue fazer e pouco compreendido por aquilo que se sente.

Eu também compreendi isso na vida adulta

Essa discussão não faz parte apenas da minha trajetória como pesquisador. Ela também atravessa a minha própria história.

Fui identificado com altas habilidades/superdotação na vida adulta. E compreender essa característica fez com que muitas experiências anteriores ganhassem um novo significado.

A identificação não resolve automaticamente os problemas nem deve funcionar como um rótulo, mas pode oferecer uma chave para compreender a própria história, deixar de interpretar determinadas diferenças como defeitos pessoais e construir estratégias mais adequadas para lidar com elas.

Por isso, a identificação precoce é tão importante.

No caso das crianças e adolescentes, significa permitir que família e escola enxerguem não apenas o potencial, mas o indivíduo por inteiro.

Setembro Amarelo também é sobre abandonar estereótipos

Talvez uma das principais reflexões que o Setembro Amarelo possa nos deixar seja a necessidade de abandonar a imagem de quem “parece forte demais para precisar de ajuda”.

Saúde mental não pode ser medida pela inteligência, pelas notas, pela produtividade, pelo currículo ou pelo sucesso profissional.

Uma criança pode ter um desempenho acadêmico extraordinário e estar sofrendo. Um adulto pode construir uma carreira admirável e sentir que nunca pertenceu verdadeiramente aos ambientes pelos quais passou.

Por isso, talvez precisemos mudar algumas das perguntas que fazemos.

Em vez de perguntar somente “até onde essa criança pode chegar?”, precisamos perguntar também: “como ela está vivendo tudo isso?”

Ela se sente pertencente? Encontra pessoas com quem consegue se conectar? Consegue lidar com suas próprias expectativas? Sente que pode errar? Existe espaço para falar sobre suas emoções sem que alguém responda que ela é inteligente demais para ter determinado problema?

Desenvolver talentos é importante. Mas nenhum potencial intelectual deveria ser desenvolvido às custas da saúde emocional.

Reconhecer a superdotação não significa olhar apenas para aquilo que uma pessoa tem de extraordinário. Significa enxergá-la por inteiro.

E talvez esse seja um dos olhares que ainda estejam faltando quando falamos sobre saúde mental.

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Dr. Gustavo Gattino.
Dr. Gustavo Gattino

Dr. Gustavo Gattino é doutor em Saúde da Criança e do Adolescente pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), graduado em Musicoterapia e professor associado da Universidade de Aalborg, na Dinamarca. Há mais de duas décadas desenvolve pesquisas sobre desenvolvimento humano, saúde mental, neurodivergência, emoções, comportamento e relações entre música, arte e saúde. É autor de 10 livros e dezenas de artigos científicos, integra o Conselho Mundial da World Federation of Music Therapy (WFMT) e desenvolve pesquisas relacionadas às emoções e às altas habilidades/superdotação, condição com a qual também foi identificado na vida adulta.

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