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Meu filho não fala. É autismo? Nem sempre
“Meu filho ainda não fala. Ele pode ser autista?”
Essa é uma pergunta que tem aparecido com frequência nos consultórios. E ela revela uma preocupação legítima dos pais, mas também um problema que ganhou força nos últimos anos, a tendência de transformar um único sinal do desenvolvimento infantil em uma hipótese diagnóstica.
Atraso ou ausência de fala merece atenção, sim. Mas não significa, sozinho, que uma criança tenha transtorno do espectro autista (TEA).
A fala é apenas uma parte da comunicação. Quando uma criança demora a falar, precisamos olhar para o desenvolvimento como um todo.
Como ela se comunica? Aponta? Usa gestos? Procura o adulto para compartilhar interesses? Compreende o que é dito? Responde ao próprio nome? Como brinca? Como interage? Demonstra intenção de se comunicar?
E há ainda outra pergunta fundamental. Ela quer falar, mas encontra dificuldade para produzir a fala?
O que é apraxia de fala infantil
É nesse ponto que condições menos conhecidas pelo público, como os transtornos motores de fala, precisam entrar nessa conversa.
Na apraxia da fala infantil, a dificuldade está relacionada ao planejamento e à programação dos movimentos necessários para produzir a fala.
A criança pode saber o que quer dizer, ter intenção comunicativa e tentar falar, mas apresentar dificuldade para organizar os movimentos que transformam essa intenção em sons e palavras.
Isso pode fazer com que os pais percebam apenas o resultado final, aquele “meu filho não fala”.
Mas duas crianças que não falam podem estar enfrentando dificuldades completamente diferentes.
Uma pode apresentar um transtorno do desenvolvimento da linguagem. Outra pode ter uma alteração dos sons da fala. Outra pode apresentar apraxia. Também existem questões auditivas, neurológicas e outras condições do neurodesenvolvimento que precisam ser consideradas.
E há uma ressalva importante. Essas condições não são necessariamente excludentes. Uma criança autista também pode apresentar alterações motoras da fala, por exemplo.
Por isso, o objetivo da avaliação não deve ser simplesmente escolher entre “é autismo” ou “não é autismo”.
O objetivo é entender o que está acontecendo com aquela criança.
Os riscos do diagnóstico por checklist nas redes sociais
Esse cuidado é especialmente importante em um momento em que as redes sociais transformaram o desenvolvimento infantil em uma espécie de checklist. A criança não aponta? Pode ser autismo. Não olha nos olhos? Pode ser autismo. Não fala aos dois anos? Pode ser autismo.
O problema não está em conhecer os sinais de alerta. Pelo contrário, informação de qualidade pode ajudar famílias a buscar avaliação mais cedo. O problema aparece quando um sinal isolado passa a ser tratado como diagnóstico.
Da mesma forma, dizer que “é só atraso de fala” e esperar indefinidamente também não é uma conduta adequada.
Atraso de fala não é diagnóstico, mas é um sinal que merece investigação.
Por que a avaliação fonoaudiológica é essencial
A avaliação fonoaudiológica é importante justamente porque permite olhar para a comunicação de forma mais ampla. Não se trata apenas de contar quantas palavras a criança fala, mas de observar como ela compreende, interage, brinca, tenta se comunicar e produz os sons da fala.
Quanto mais cedo entendermos a origem de uma dificuldade, mais direcionada poderá ser a intervenção.
Por isso, eu sempre digo aos pais que não tenham medo de investigar. Mas também não tenham pressa de encontrar um rótulo.
Uma criança que ainda não fala não precisa ser imediatamente encaixada em uma hipótese diagnóstica. Ela precisa ser escutada, inclusive quando ainda não consegue usar palavras para dizer o que sente, quer ou pensa.
Talvez a pergunta mais importante diante de um atraso de fala não seja “meu filho tem autismo?”.
Mas sim “o que o meu filho está tentando comunicar e o que está dificultando esse processo?”
É a partir dessa pergunta que conseguimos sair da ansiedade do diagnóstico e entrar no caminho mais importante, o da compreensão e do cuidado individualizado.
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