Um estudo realizado pela Universidade de São Paulo (USP) revelou uma conexão importante entre os traços de personalidade e o desenvolvimento da insônia, oferecendo novas perspectivas para o tratamento do distúrbio. A divulgação do trabalho foi feita pela Agência FAPESP.
Os pesquisadores investigaram como essas características pessoais influenciam a predisposição à insônia e como podem interagir com aspectos emocionais, como a ansiedade, para agravar o quadro.
O estudo indicou que certos traços de personalidade têm uma relação direta com a insônia, sendo o neuroticismo – tendência a se preocupar muito e a ser mais emocionalmente instável – um dos principais responsáveis.
O que é a insônia?
A insônia é um distúrbio do sono que afeta milhões de pessoas ao redor do mundo, dificultando o processo de adormecer ou de manter o sono durante a noite.
Esse transtorno pode ter sérios impactos na saúde, como o aumento do risco de hipertensão, diabetes, ansiedade e depressão.
Dalva Poyares, médica especialista pela Sociedade Americana de Medicina do Sono e pela Associação Brasileira do Sono, explicou como a insônia ocorre:
“A insônia ocorre por uma predisposição do indivíduo a perder o sono, a ter um hiper alerta”.
Segundo a médica, a insônia é “uma resposta anormal ao estresse“, e em casos crônicos, “o indivíduo tem uma chance muito maior de desenvolver hipertensão“.
Ela também ressalta que, quando a insônia é grave, “isso pode resultar em alterações metabólicas, que podem até predispor para o aumento de peso e diabetes“.
O que são os traços de personalidade?
Antes de entender como os traços de personalidade influenciam a insônia, é importante compreender o que eles são.
Na psicologia, esses traços são características que determinam como uma pessoa se comporta, pensa e sente.
Eles são usados para descrever padrões de comportamento consistentes ao longo do tempo e das situações.
Um dos modelos mais conhecidos para explicar os traços de personalidade é o modelo dos “Big Five” (Cinco Grandes), que propõe cinco principais traços que influenciam nosso comportamento.
São eles:
- Extroversão: Pessoas sociáveis, comunicativas e enérgicas. Preferem ambientes estimulantes.
- Neuroticismo: Relacionado à estabilidade emocional. Indivíduos com alto neuroticismo tendem a se preocupar mais e podem apresentar mais sintomas de ansiedade e depressão.
- Amabilidade: Caracteriza pessoas empáticas, gentis e preocupadas com os outros. Buscam harmonia e tendem a ser cooperativas.
- Abertura à experiência: Indivíduos curiosos, criativos, que gostam de explorar novas ideias e atividades.
- Conscienciosidade: Relacionado à organização, responsabilidade e autodisciplina. Essas pessoas têm bom controle sobre suas ações e metas.
Como os traços de personalidade influenciam a insônia?
O estudo da USP mostrou que certos traços de personalidade estão fortemente associados ao desenvolvimento da insônia.
O neuroticismo é um dos principais fatores para a predisposição à insônia.
Ele está relacionado à tendência de experimentar emoções negativas, como ansiedade, com maior intensidade, o que dificulta o relaxamento e prejudica o sono.
No estudo, 61,7% das pessoas com insônia apresentaram altos índices de neuroticismo, enquanto apenas 32% do grupo sem insônia apresentaram esse traço.
Isso indica, portanto, que o neuroticismo pode ser um dos traços de personalidade mais relevantes para a insônia.
Como mencionamos no início deste texto, pessoas com esse perfil têm mais dificuldade em lidar com o estresse e são mais suscetíveis a distúrbios emocionais, como a ansiedade, que interferem no sono.
Além disso, pessoas com insônia também apresentaram níveis mais baixos de outros traços de personalidade, como amabilidade, abertura à experiência e conscienciosidade.
Isso sugere que certas características podem influenciar a capacidade de uma pessoa lidar com a insônia e até de mantê-la ao longo do tempo.
A ansiedade como mediadora dos traços de personalidade e da insônia
A ansiedade desempenha um papel importante na relação entre os traços de personalidade, especialmente o neuroticismo, e o desenvolvimento da insônia.
Ou seja, a ansiedade pode ser o elo que conecta o alto neuroticismo à dificuldade em dormir.
Pessoas com altos índices de neuroticismo, ao experimentarem níveis elevados de ansiedade, têm maior probabilidade de desenvolver insônia, uma vez que a ansiedade dificulta o relaxamento necessário para uma boa noite de descanso.
Dicas para o tratamento de insônia em pessoas com alto neuroticismo:
- Focar no controle da ansiedade.
- Utilizar terapias específicas, como a terapia cognitivo-comportamental, para lidar com pensamentos e sentimentos que prejudicam o sono.
A importância de compreender os traços de personalidade no tratamento da insônia
Compreender os traços de personalidade dos pacientes é essencial para um tratamento eficaz da insônia.
Cada pessoa é única, e o tratamento da insônia pode ser mais bem-sucedido quando leva em conta a personalidade do paciente, além dos sintomas do distúrbio.
Exemplo de personalização do tratamento:
- Pacientes com alto neuroticismo precisam de um tratamento focado não apenas na insônia, mas também nas questões emocionais associadas, como a ansiedade.
- Pacientes com baixa amabilidade ou abertura à experiência podem precisar de tratamentos que ajudem a melhorar a flexibilidade emocional e o engajamento com mudanças no estilo de vida.
Terapia cognitivo-comportamental e a personalização do tratamento
A terapia cognitivo-comportamental para insônia (TCC-I) é considerada o tratamento padrão.
No entanto, como mostrou o estudo, essa terapia pode ser mais eficaz quando adaptada aos traços de personalidade dos pacientes.
- Alta conscienciosidade: Pacientes podem responder bem a estratégias que envolvem organização e controle dos hábitos de sono.
- Alto neuroticismo: Abordagens focadas no manejo da ansiedade podem ser mais eficazes.
O impacto dos traços de personalidade no tratamento da insônia
Em resumo, de acordo com o estudo da USP, os traços de personalidade desempenham um papel fundamental no desenvolvimento e na persistência da insônia.
Ao entender como essas características influenciam o distúrbio, os profissionais de saúde podem adaptar os tratamentos de forma mais eficaz.
Em outras palavras, levando em conta a individualidade de cada paciente, é possível oferecer uma abordagem mais personalizada para o tratamento do distúrbio do sono.
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