Entre o medo e a dor: a realidade do vaginismo e da dispareunia

A sexualidade faz parte da saúde. Essa é a definição adotada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que reconhece a vivência sexual como um dos indicadores de qualidade de vida. Não se trata apenas de ato sexual, mas de prazer, intimidade, identidade, bem-estar emocional e relação com o próprio corpo.

Quando a dor entra nesse cenário, o impacto vai muito além do físico.

Relações dolorosas podem gerar ansiedade, frustração, afastamento afetivo, queda da autoestima, alterações de humor, distúrbios do sono e sofrimento emocional.

Ainda assim, milhões de mulheres convivem com dor durante o sexo sem diagnóstico adequado ou tratamento eficaz.

Estudos indicam que entre 40% e 45% das disfunções sexuais acometem mulheres, e que uma parcela significativa envolve dor associada à penetração.

Mesmo assim, esse tipo de queixa ainda é subnotificada, muitas vezes normalizada ou tratada apenas como um problema psicológico, o que atrasa o cuidado correto.

O que são as disfunções sexuais femininas dolorosas

As disfunções sexuais femininas podem ser temporárias ou persistentes e envolvem alterações em uma ou mais fases da resposta sexual, como desejo, excitação, orgasmo e relaxamento.

Quando há dor, duas condições se destacam:

Dispareunia

Caracteriza-se por dor durante ou após a relação sexual.

Essa dor pode ser superficial ou profunda, aparecer desde o início da penetração ou surgir durante o movimento.

Vaginismo

Ocorre quando há uma contração involuntária e intensa da musculatura vaginal, tornando a penetração extremamente dolorosa ou até impossível.

A dor não se limita à relação sexual e pode surgir também em exames ginecológicos, uso de absorventes internos ou introdução de qualquer objeto na vagina.

Segundo critérios internacionais, essas condições são diagnosticadas quando a dor é recorrente ou persistente por pelo menos seis meses, associada a medo, ansiedade ou tensão muscular relacionada à penetração.

Por que essas disfunções ainda são pouco diagnosticadas

As causas das disfunções sexuais dolorosas são multifatoriais. Elas podem envolver:

  • tensão excessiva dos músculos do assoalho pélvico
  • alterações hormonais
  • experiências dolorosas anteriores
  • medo, ansiedade ou crenças negativas sobre sexualidade
  • histórico de traumas físicos ou emocionais
  • educação sexual repressora ou ausência de informação
  • alterações neurológicas ou vasculares

Por vergonha, tabu ou desconhecimento, muitas mulheres não relatam o problema.

Outras recebem apenas orientações genéricas ou são encaminhadas exclusivamente para acompanhamento psicológico, quando, na verdade, o corpo também precisa de cuidado específico.

O papel da fisioterapia pélvica no tratamento

A fisioterapia pélvica atua diretamente sobre a musculatura do assoalho pélvico, um conjunto de músculos responsáveis por sustentar órgãos, controlar esfíncteres e participar ativamente da resposta sexual.

Quando essa musculatura está excessivamente contraída, dolorida ou sem coordenação adequada, o corpo responde com dor.

O objetivo da fisioterapia não é apenas fortalecer, mas ensinar a relaxar, controlar e perceber o próprio corpo.

A partir da Classificação Internacional de Funcionalidade (CIF), a fisioterapia avalia o impacto da disfunção em três níveis:

  • Físico: dor, tensão, desconforto vaginal
  • Funcional: dificuldade ou impossibilidade de ter relações
  • Social e emocional: evitação do contato íntimo, sofrimento, impacto no relacionamento

Quais recursos a fisioterapia utiliza

A análise de estudos nacionais e internacionais mostra que os melhores resultados ocorrem quando diferentes recursos são combinados, respeitando a individualidade da paciente.

Entre as principais estratégias estão:

Técnicas de relaxamento e consciência corporal

Ajudam a reduzir o medo, a ansiedade e a ativação involuntária da musculatura pélvica.

Massagem pélvica e liberação miofascial

Atuam diretamente nos pontos de tensão e dor, melhorando circulação, elasticidade dos tecidos e reduzindo pontos dolorosos internos.

Treinamento dos músculos do assoalho pélvico

Ensina a contrair e relaxar de forma consciente. Não se trata apenas de “apertar”, mas de aprender controle e coordenação.

Dilatadores vaginais

Utilizados de forma gradual, segura e orientada, ajudam o corpo a perder o reflexo de defesa associado à penetração.

Biofeedback

Permite que a mulher visualize, em tempo real, o funcionamento da musculatura, facilitando o aprendizado e o controle.

Eletroterapia, termoterapia e recursos complementares

Utilizados em situações específicas para alívio da dor e redução da tensão muscular.

Educação sexual e orientação terapêutica

Fundamental para desconstruir mitos, explicar a anatomia, normalizar sensações e reduzir o medo associado ao próprio corpo.

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O que os estudos mostram sobre os resultados

Diversos estudos analisados apontam redução significativa da dor, melhora da função sexual e impacto positivo na qualidade de vida.

Em alguns casos, a dor foi completamente eliminada após a associação de técnicas como massagem perineal, exercícios do assoalho pélvico, uso de dilatadores e educação sexual.

Também foram observados ganhos como:

  • aumento do conforto durante exames ginecológicos
  • melhora da lubrificação e da excitação
  • maior confiança corporal
  • retomada da vida sexual de forma gradual e segura

Os estudos que utilizaram apenas um único recurso, de forma isolada, apresentaram resultados mais limitados, reforçando a importância de um plano terapêutico individualizado e integrado.

A importância da abordagem multidisciplinar

A fisioterapia pélvica não substitui outros cuidados. Pelo contrário, os melhores resultados aparecem quando há integração entre fisioterapeuta, médico e psicólogo.

A comunicação entre os profissionais ajuda a identificar causas, alinhar estratégias e acolher a mulher de forma completa.

Em muitos casos, o acompanhamento psicológico é essencial para lidar com medo, ansiedade, traumas ou crenças negativas.

O corpo e a mente precisam caminhar juntos no processo de recuperação.

As disfunções sexuais femininas dolorosas são reais, frequentes e tratáveis. A dor não deve ser normalizada nem silenciada.

A fisioterapia pélvica se mostra uma ferramenta segura, eficaz e baseada em evidências para o tratamento do vaginismo e da dispareunia, especialmente quando associada a educação sexual e cuidado multidisciplinar.

Falar sobre o tema ainda exige quebrar tabus, mas é justamente essa conversa que permite devolver às mulheres conforto, autonomia, prazer e qualidade de vida. Sexualidade saudável também é saúde.

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Sobre a Dra. Mariana Milazzotto

Fisioterapeuta com quase 20 anos de atuação, mestre em Ciências Médicas e referência nacional no tratamento clínico do lipedema e na reabilitação de mulheres no pós-operatório de câncer de mama. Criadora da Jornada Desvendando o Lipedema, programa que forma fisioterapeutas e terapeutas corporais em práticas de acolhimento, movimento e reabilitação funcional.

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Fisio Mariana Milazzotto

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