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Fogos, buzinas e gritos: quando a festa da Copa vira um desafio para algumas famílias
Jogos da Copa do Mundo costumam ser acompanhados por fogos de artifício, buzinaços e outras comemorações barulhentas. Embora esses momentos sejam vistos por muitas pessoas como parte da festa, eles podem representar um desafio para famílias de crianças autistas.
Para algumas delas, sons intensos e inesperados podem causar sofrimento, ansiedade e sobrecarga sensorial. E o barulho não é o único fator que pesa.
Em dias de jogo, a rotina muda, os ambientes ficam mais movimentados e situações normalmente previsíveis podem se tornar mais difíceis de administrar.
Por isso, especialistas recomendam que famílias se preparem com antecedência para reduzir o impacto desses estímulos e tornar o período da Copa mais tranquilo para as crianças.
Por que os jogos da Copa podem causar desconforto?
A psicóloga e neurocientista Mayra Gaiato explica que o desafio não está apenas no volume dos sons, mas também na forma como o cérebro os processa.
“Quando falamos de uma criança autista, muitas vezes não estamos diante de alguém que simplesmente não gosta de barulho. Estamos falando de um cérebro que pode interpretar determinados sons como algo extremamente invasivo. O que para uma pessoa é apenas um rojão distante, para outra pode ser percebido como uma experiência intensa de ameaça ou desconforto”, observa Mayra Gaiato.
Segundo a especialista, a quebra da previsibilidade também pode contribuir para o aumento da ansiedade.
“Uma das características que traz segurança para muitas crianças autistas é saber o que vai acontecer. Durante grandes eventos, existe uma quebra dessa previsibilidade. O trânsito muda, os sons mudam, as pessoas mudam seus comportamentos e isso pode gerar ansiedade antes mesmo de o jogo começar”, acrescenta.
Fogos não são os únicos vilões
Embora os fogos de artifício sejam uma das principais preocupações das famílias, eles não são os únicos estímulos que podem causar sobrecarga sensorial.
Buzinas, apitos, gritos, música alta, estalinhos e ambientes lotados também podem ser difíceis para algumas crianças.
Em muitos casos, o problema não está em um único som, mas na soma de vários estímulos acontecendo ao mesmo tempo.
Como preparar a criança para o jogo
A preparação antecipada costuma ajudar a reduzir o impacto das mudanças na rotina.
Entre as orientações dos especialistas estão:
- Explicar previamente que haverá jogo e comemorações;
- Avisar sobre a possibilidade de fogos, buzinas e outros sons intensos;
- Disponibilizar abafadores ou protetores auditivos;
- Organizar um local mais tranquilo para pausas;
- Observar sinais de que a criança está ficando sobrecarregada;
- Evitar exposição prolongada a ambientes muito barulhentos;
- Respeitar os limites da criança.
Mayra alerta que forçar a adaptação nem sempre é o melhor caminho.
“Um erro muito comum é acreditar que a criança precisa ser exposta ao desconforto para se acostumar. Mas a adaptação não acontece através do sofrimento. Ela acontece quando construímos experiências seguras, graduais e respeitosas”, afirma.
Copa e festas juninas aumentam os estímulos
Neste ano, os jogos acontecem em um período que também coincide com festas juninas e julinas em muitas regiões do país.
Com isso, a presença de fogos, rojões e apresentações musicais pode ser ainda mais frequente.
Para a neuropsicopedagoga Silvia Kelly Bosi, especialista em autismo e desenvolvimento infantil, esse cenário exige atenção não apenas das famílias, mas também dos organizadores de eventos.
“Cada vez mais falamos sobre inclusão escolar, social e comunitária. E inclusão também passa por pensar no ambiente sensorial. Pequenas adaptações podem fazer com que muitas crianças consigam participar dos eventos de forma mais confortável e segura”, destaca.
Nem toda crise é birra
Algumas reações das crianças diante do excesso de estímulos podem ser mal interpretadas por quem não conhece a realidade do autismo.
Tapar os ouvidos, tentar sair do ambiente ou apresentar uma crise podem ser formas de lidar com uma situação que se tornou difícil de suportar.
“Quando uma criança tapa os ouvidos, tenta fugir do ambiente ou entra em crise diante de um som intenso, muitas vezes ela não está fazendo birra. Ela está tentando se proteger de uma sobrecarga que o cérebro não está conseguindo processar naquele momento”, explica Silvia Kelly Bosi.
A terapeuta ocupacional Catiuscia Homem, que atua no desenvolvimento infantil e no atendimento de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA), afirma que compreender essa diferença muda a forma de acolher a criança.
“Quando os adultos deixam de perguntar ‘como faço ela aguentar?’ e passam a perguntar ‘como posso ajudá-la a se sentir segura?’, o caminho da intervenção muda completamente”, afirma.
Participar não precisa significar sofrer
Para Catiuscia Homem, inclusão não significa obrigar a criança a participar de todas as atividades da mesma forma que as outras pessoas.
Segundo a terapeuta ocupacional, o mais importante é respeitar as necessidades de cada criança.
“Talvez ela consiga ficar apenas uma parte da festa. Talvez precise de pausas. Talvez prefira assistir ao jogo em um ambiente mais tranquilo. E tudo bem. O objetivo não é fazer a criança suportar o sofrimento. É permitir que ela participe da vida de uma forma que seja possível para ela”, afirma.
Em um período marcado por comemorações, pequenas adaptações podem fazer toda a diferença para muitas famílias. Afinal, participar da festa não precisa significar sofrimento.
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