Ao olhar no espelho, uma mulher de 28 anos percebeu algo incomum no olho direito. Uma estrutura fina parecia se mover sob a superfície. No pronto-socorro, os médicos confirmaram o que ela havia visto: um verme vivo, com cerca de 3 centímetros, deslocando-se sob a membrana que recobre a parte branca do olho.
O parasita era o Loa loa, conhecido como verme-do-olho-africano. Ele é transmitido pela picada de moscas infectadas encontradas em regiões da África Ocidental e Central.
A mulher havia vivido na Nigéria, um dos países onde o parasita é encontrado, mas estava na Inglaterra havia quatro anos e não tinha voltado ao país desde então. O verme, porém, permaneceu em seu organismo durante esse período, sem ser identificado.
O caso ocorreu em Wakefield, no norte da Inglaterra, e foi relatado por médicos do Mid Yorkshire Teaching NHS Trust, organização pública de saúde que administra hospitais na região. O relato foi publicado na revista científica Cureus.
A retirada do verme, porém, não encerrou o problema. Pouco depois, a equipe descobriu que a paciente estava grávida de aproximadamente seis semanas, o que mudou os planos de tratamento.
Como o verme ficou escondido por quatro anos
Apesar do verme no olho, a mulher sentia apenas um leve desconforto. Sua visão continuava normal, e os exames não mostraram lesões nas estruturas oculares avaliadas.
Os exames de sangue deram outras pistas.
Os médicos encontraram um aumento de células de defesa frequentemente associado a infecções por parasitas. Um teste de anticorpos também reforçou a suspeita.
A mulher não se lembrava de ter apresentado outros sinais da infecção, como inchaços temporários na pele.
Segundo os médicos, o verme pode ter permanecido em seu organismo durante os quatro anos desde que ela deixou a Nigéria. Parasitas adultos dessa espécie conseguem sobreviver por anos sem provocar sintomas evidentes.
Retirar o verme não resolveu tudo
Os médicos anestesiaram o olho com colírio, fizeram uma pequena abertura na membrana que recobre sua parte branca e retiraram o verme inteiro, ainda vivo. Especialistas do Hospital for Tropical Diseases, em Londres, confirmaram que era um macho de Loa loa.
Uma semana depois, o olho estava cicatrizando bem. Mas retirar o verme visível não garantia que a infecção tivesse acabado. Outros parasitas poderiam continuar no organismo, e as fêmeas liberam larvas microscópicas que circulam pelo sangue.
Para investigar essa possibilidade, os médicos coletaram sangue entre 10h e 14h, período em que essas larvas costumam estar mais presentes na circulação.
Nenhuma foi encontrada, mas isso não foi suficiente para descartar a infecção.
A gravidez mudou o tratamento
O medicamento usado para tratar a loíase é a dietilcarbamazina, conhecida como DEC. Seu uso exige cuidados porque, em pacientes com grande quantidade de larvas do parasita no sangue, o tratamento pode provocar uma complicação grave chamada encefalopatia, que afeta o cérebro e pode ser fatal.
Como a mulher estava grávida de aproximadamente seis semanas, os médicos decidiram adiar o medicamento até depois do parto.
A decisão levou em conta a falta de dados suficientes sobre a segurança da DEC durante a gestação e a necessidade de avaliar melhor a infecção.
O relato publicado na revista Cureus não informa o desfecho da gravidez nem a evolução posterior da paciente.




