Câncer de mama: pesquisa clínica investiga o uso do canabidiol antes da cirurgia

O Outubro Rosa é marcado pela conscientização sobre o câncer de mama, uma das doenças que mais mobilizam campanhas de prevenção e diagnóstico precoce. Mas esse também é um momento para ampliar o olhar sobre a pesquisa científica e as possibilidades que vêm sendo investigadas para tornar o cuidado oncológico cada vez mais completo, considerando não apenas a doença, mas também a qualidade de vida das pacientes.

Na minha atuação profissional, acredito que falar sobre novas possibilidades terapêuticas exige informação, responsabilidade e disposição para acompanhar os avanços da ciência.

Entre os compostos que despertam interesse nesse campo está o canabidiol (CBD), presente na planta Cannabis sativa e estudado por seus possíveis efeitos sobre diferentes mecanismos do organismo, inclusive aqueles relacionados ao desenvolvimento de tumores.

Uma revisão sistemática publicada em abril de 2025 na revista científica BMC Cancer, assinada por Mojtaba Esmaeli e colaboradores, reuniu 34 estudos sobre o canabidiol no contexto do câncer de mama.

Os pesquisadores analisaram resultados relacionados à proliferação celular, à morte programada de células tumorais e a mecanismos associados à progressão da doença, com achados que ajudam a compreender por que essa substância continua despertando interesse na pesquisa oncológica.

O que a ciência já investiga sobre o canabidiol

Entre as linhas de investigação, uma das mais relevantes é compreender como o CBD interage com processos biológicos envolvidos no crescimento e na sobrevivência das células tumorais.

Em estudos pré-clínicos, realizados em laboratório e em modelos animais, os pesquisadores observaram efeitos que justificam novas investigações, especialmente em subtipos de câncer de mama que apresentam desafios terapêuticos importantes, como o triplo-negativo.

Esse interesse começa a chegar também à pesquisa clínica. A Medical University of South Carolina, nos Estados Unidos, conduz um ensaio de fase I que investiga o uso oral do canabidiol em pacientes com câncer de mama que aguardam cirurgia, com o objetivo de avaliar possíveis alterações biológicas no tumor, além da segurança da substância e de seus efeitos sobre a ansiedade no período pré-operatório.

A pesquisa representa uma etapa importante para compreender se os resultados observados em modelos experimentais podem ter alguma relevância no cuidado de pacientes.

É importante lembrar que cada etapa da pesquisa responde a perguntas diferentes. Os resultados obtidos em laboratório ajudam a identificar mecanismos de ação e formular hipóteses, enquanto os ensaios clínicos permitem avaliar como uma substância se comporta no organismo humano.

Por isso, acompanhar essas investigações é fundamental para compreender tanto as possibilidades quanto os limites do conhecimento atual sobre o canabidiol.

Canabidiol e qualidade de vida durante o tratamento

Além da pesquisa sobre os mecanismos tumorais, os canabinoides também vêm sendo estudados no contexto dos sintomas associados ao câncer e ao seu tratamento.

Dor, ansiedade, alterações do sono e náuseas podem afetar a rotina e o bem-estar de pacientes oncológicos, e compreender como diferentes abordagens podem contribuir para o cuidado dessas pessoas é uma parte importante da discussão sobre qualidade de vida.

Cada sintoma, entretanto, exige uma avaliação específica, considerando a substância utilizada e as evidências disponíveis.

Na minha visão, o avanço desse campo depende justamente da capacidade de aproximar a ciência das necessidades reais dos pacientes.

O canabidiol não deve ser apresentado como uma cura para o câncer de mama, mas seu estudo abre perguntas relevantes sobre mecanismos biológicos e possíveis aplicações que merecem ser investigadas com rigor.

Também é essencial que qualquer possibilidade de uso seja avaliada individualmente, considerando os medicamentos em uso e as possíveis interações com os tratamentos oncológicos.

Neste Outubro Rosa, meu convite é para que possamos ampliar o diálogo sobre a pesquisa científica, acolher as dúvidas de pacientes e familiares e promover o acesso a informações confiáveis.

Conhecer novas linhas de investigação não significa antecipar resultados, mas reconhecer que a ciência está em constante construção e que cada descoberta precisa ser avaliada com seriedade.

Porque falar sobre cuidado também é permitir que novas possibilidades sejam investigadas sem perder de vista aquilo que deve estar sempre no centro de qualquer decisão: a segurança e a qualidade de vida de cada paciente.

Continue lendo: Brasil tem milhões de pessoas com ansiedade. O canabidiol pode ajudar?

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Dra. Juliana Bogado
Dra. Juliana Bogado

Médica especialista em Canabinologia. CRM: 950327-RJ.

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