Por que algumas dores nas mulheres parecem não desligar?

Mulheres convivem mais tempo com dor crônica do que homens. Não é impressão. Não é exagero. E, ao que tudo indica, não é apenas uma questão de sensibilidade.

Durante anos, essa diferença foi atribuída à forma de relatar o incômodo. Mas novas evidências apontam para algo mais profundo: a maneira como o corpo consegue (ou não) desligar o próprio mecanismo da dor.

O que acontece quando a dor não desliga

A dor é um alerta. Quando há lesão ou inflamação, sensores enviam sinais ao cérebro avisando que algo está errado.

Em situações normais, esse aviso tem fim. O tecido melhora, o corpo entende que o problema foi resolvido e o sinal diminui.

Na dor crônica, esse desligamento não acontece como deveria. O alerta permanece ativo mesmo depois que a causa inicial já passou.

E aqui entra um detalhe importante.

O sistema imunológico também participa do momento de encerrar a dor. Ele não serve apenas para combater infecções — ajuda a regular quando o alarme pode ser desligado.

Algumas células de defesa, chamadas monócitos, liberam uma substância conhecida como interleucina-10 (IL-10). Esse composto atua como um sinal de calma para os nervos ligados à dor, reduzindo sua atividade.

É como um freio interno que impede que o sofrimento se prolongue além do necessário.

Onde homens e mulheres começam a responder de forma diferente

Nos testes realizados, esse freio biológico apareceu mais ativo nos homens.

As células produtoras de IL-10 tendiam a agir com maior intensidade, o que esteve associado a um encerramento mais rápido do processo doloroso.

Nas mulheres, essa resposta foi menos ativa.

Com menos desse “sinal de calma” circulando, o sistema pode demorar mais para estabilizar, o que ajuda a explicar por que a dor pode persistir por mais tempo.

Um dos fatores envolvidos parece ser hormonal.

Nos testes, a testosterona fez essas células produzirem mais da substância que ajuda a desligar a dor.

Quando os pesquisadores bloquearam esse hormônio, a produção diminuiu.

Isso indica que os hormônios podem influenciar o quanto esse “freio” natural da dor funciona no organismo.

O que essa descoberta muda

Essa explicação desloca um antigo estigma.

Se mulheres relatam mais dor persistente, a razão pode não estar apenas na percepção individual. Pode haver uma base biológica mensurável por trás dessa diferença.

Hoje, a maioria dos tratamentos apenas bloqueia o sinal da dor quando ele já está ativo, sem interferir no mecanismo que a mantém.

Entender como o corpo desliga naturalmente esse processo pode abrir caminho para terapias que reforcem esse “freio” biológico, em vez de apenas aliviar o sintoma.

Ainda não é um tratamento disponível, mas é um avanço importante na compreensão da dor crônica. O estudo foi publicado na revista científica Science Immunology.

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Michele Azevedo

Formada em Letras - Português/ Inglês, pós-graduada em Arte na Educação e Psicopedagogia Escolar, idealizadora do site Escritora de Sucesso, empresária, redatora e revisora dos conteúdos do SaúdeLab.

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