Book Appointment Now

Uma alergia alimentar pode virar emergência na escola: médica explica o que fazer
Em entrevista ao SaúdeLab, a alergista e imunologista Dra. Germana Pimentel Stefani explica os riscos da anafilaxia na escola e como proteger crianças com alergia alimentar sem isolá-las.
Uma troca de lanche, um doce entregue em sala ou uma atividade com embalagens reutilizadas podem parecer situações simples da rotina escolar. Para uma criança com alergia alimentar grave, porém, esses momentos podem representar risco real.
Esse risco tem nome: anafilaxia. Trata-se de uma reação alérgica grave, de início rápido, que pode envolver sintomas na pele, na respiração, no sistema digestivo e até na circulação. Quando não é reconhecida e tratada a tempo, pode colocar a vida em risco.
É nesse contexto que a Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (ASBAI) está realizando, entre 11 e 17 de maio, a Campanha Nacional de Conscientização sobre Alergia Alimentar, com o tema “Anafilaxia não espera. A escola precisa estar pronta”.
A mobilização coloca as escolas no centro da discussão porque é nesse ambiente que muitas crianças passam grande parte do dia.
Merenda, cantina, troca de lanches, festas e atividades que envolvem alimentos ou até embalagens reutilizadas fazem parte da rotina escolar e podem exigir atenção especial quando há alunos com alergia alimentar.
Dados do Registro Brasileiro de Anafilaxia da ASBAI mostram que 42,1% dos casos registrados foram desencadeados por alimentos, reforçando o tamanho do desafio no cotidiano escolar.
Para entender quais cuidados são necessários e como escolas e famílias devem agir, o SaúdeLab conversou com a médica Germana Pimentel Stefani, vice-coordenadora do Departamento Científico de Alergia Alimentar da ASBAI. Ela é alergista, imunologista e pediatra.
SaúdeLab — Quando falamos em anafilaxia no ambiente escolar, de que tipo de risco estamos falando na prática?
Dra. Germana Pimentel Stefani —
Estamos falando de crianças que podem ter reações alérgicas potencialmente graves, inclusive com risco de morte, caso não sejam adequadamente tratadas.
No ambiente escolar, o contato com alimentos é cotidiano. Portanto, o risco também é cotidiano. Daí a importância de todos na escola saberem reconhecer quem é a criança já sabidamente alérgica e, mesmo quando isso não se sabe, reconhecer quais são os sinais de alerta.
A anafilaxia pode acontecer em qualquer momento, inclusive pela primeira vez dentro da escola.
Também é importante lembrar que estamos falando de muitas crianças, geralmente para poucos cuidadores. Muitas vezes, são crianças que ainda não sabem verbalizar exatamente o que estão sentindo. Por isso, é necessário um olhar atento para que o reconhecimento precoce permita uma ação adequada.
SaúdeLab — Quais sinais a escola precisa reconhecer imediatamente para suspeitar de uma reação alérgica grave?
Dra. Germana Pimentel Stefani —
Quando falamos em alergia alimentar, especialmente em anafilaxia, é muito importante reconhecer os sinais precocemente. Uma reação alérgica grave costuma ocorrer quando dois ou mais sistemas do corpo estão envolvidos, com sintomas agudos após o contato com um alérgeno.
Na maior parte das vezes, os sintomas aparecem em poucos minutos, mas podem ocorrer em até duas horas.
A criança pode apresentar sinais na pele, como inchaço, manchas vermelhas e empolações; sintomas respiratórios, como tosse, chiado e falta de ar; sintomas gastrointestinais, como vômitos persistentes e diarreia intensa; além de mudanças importantes de comportamento, como irritabilidade aguda ou prostração súbita.
Também existe uma forma mais rara de reação alimentar, tardia, que não envolve pele. Nesses casos, a criança pode apresentar vômitos intensos, prostração importante, desidratação e até choque, geralmente entre uma e quatro horas após a exposição ao alimento. Por isso, nem toda reação grave é imediata ou clássica.

SaúdeLab — O que o dado de que 42,1% dos casos registrados foram desencadeados por alimentos revela sobre o cuidado com merenda, cantina, festas e troca de lanches?
Dra. Germana Pimentel Stefani —
O Registro Brasileiro de Anafilaxia aponta que 42% dos casos de anafilaxia foram desencadeados por alimentos, considerando a população em geral. Quando falamos da população infantil e escolar, especialmente educação infantil e fundamental 1, essa proporção tende a ser ainda maior, porque as reações por medicamentos são menos comuns nas crianças do que nos adultos.
E o contato com alimento na escola não acontece apenas no lanche oferecido pela instituição.
Acontece também nas trocas de lanche entre as crianças, em um docinho levado como sobremesa, em um chocolate entregue no Dia das Crianças, em feiras escolares e festas típicas.
Com a proximidade das festas juninas, por exemplo, alimentos como amendoim aparecem com frequência e são extremamente alergênicos para algumas crianças.
Também não podemos deixar passar em branco as atividades com materiais recicláveis, como caixas de ovos, caixas de leite e potes de iogurte, que podem ser fontes de alérgenos.
Por isso, a atenção não deve ficar restrita aos 20 ou 30 minutos do lanche. Todo o período escolar merece atenção especial.
SaúdeLab — Que medidas mínimas uma escola deveria adotar hoje para receber com segurança um aluno com alergia alimentar?
Dra. Germana Pimentel Stefani —
O primeiro ponto é o conhecimento. A escola precisa entender como funciona a alergia alimentar, quais riscos estão envolvidos, quais cuidados devem ser tomados e como agir tanto na identificação precoce quanto no manejo agudo de uma crise alérgica.
A escola também deve estar preocupada com o acolhimento dessas famílias e dessas crianças, que já passam por bastante restrição.
Deve haver uma política antibullying. Muitas vezes, os próprios profissionais da escola acabam excluindo a criança ou tratando-a como problemática, e isso precisa ser absolutamente evitado.
A criança precisa se sentir livre e segura para ser apenas uma criança dentro do ambiente escolar.
Toda a equipe precisa estar treinada: merendeiras, profissionais que servem os alimentos, auxiliares, professores, coordenação e até a portaria. Muitas vezes, uma troca de lanche pode acontecer no fim da aula, na saída da escola.
Além disso, a instituição deve ter um plano de ação claro, acessível e conhecido por todos, com identificação da criança, medicações prescritas e orientações objetivas sobre como agir em caso de reação.
SaúdeLab — Em uma emergência, qual é o erro mais perigoso?
Dra. Germana Pimentel Stefani —
Em uma emergência alérgica, o maior risco não é aplicar o plano de ação. É não aplicar.
A conduta passiva de esperar para ver se melhora ou demorar demais para perceber e acionar um plano de ação pode ser mais prejudicial do que agir diante de uma suspeita de reação importante.
Dentro de um plano de ação bem feito, com medicações prescritas para aquela criança, a questão mais importante é o tempo de ação. Quanto antes é possível identificar e agir, menor o risco para a criança.
Outro ponto fundamental é que, uma vez que a escola esteja bem preparada, ela precisa ter autonomia para colocar o plano de ação em prática. Não é adequado esperar autorização da família enquanto a criança piora.
Esses protocolos precisam estar por escrito, com medicações ajustadas ao peso da criança, documentados e de fácil acesso. Não adianta ter a medicação trancada na sala da diretora se, no momento da emergência, ninguém consegue acessá-la.
SaúdeLab — Como a dificuldade de acesso à adrenalina autoinjetável impacta o cuidado nas escolas?
Dra. Germana Pimentel Stefani —
A dificuldade de acesso à adrenalina autoinjetável é, sem dúvida, um gargalo importante no cuidado da criança alérgica no Brasil. Isso vale para a educação infantil, para outras idades, para escolas públicas e particulares, e também para o cuidado em casa.
Hoje, o acesso ainda depende de importação, com um custo muito alto para a enorme maioria das famílias brasileiras. Mas, mesmo diante da ausência da caneta, isso não tira da escola o dever ético de cuidar de uma criança que está tendo uma reação.
A ausência da adrenalina autoinjetável não exime a escola de saber o restante do plano de ação. Mesmo sem o dispositivo, a instituição precisa reconhecer rapidamente a anafilaxia e acionar precocemente os serviços de emergência, como o SAMU 192.
É importante informar que se trata de uma criança alérgica, com suspeita de anafilaxia e prescrição de adrenalina, mas que não porta a caneta de adrenalina. Assim, uma rede de apoio, acolhimento e cuidado pode se formar em torno dessa criança.
Também é essencial entender que a criança tem direito de participar da escola e ter uma vida escolar. A falta da caneta não pode ser uma restrição para que ela frequente a escola.

SaúdeLab — Como proteger a criança com alergia alimentar sem isolá-la ou transformá-la em um “problema” dentro da escola?
Dra. Germana Pimentel Stefani —
Além da segurança física e da integridade da criança do ponto de vista da saúde, precisamos cuidar da saúde mental.
É extremamente comum a ocorrência de bullying relacionado à alergia alimentar, especialmente em crianças um pouco maiores. Por isso, é muito importante a escola abordar que alergia não é frescura. Restrição alimentar por alergia não é uma dieta por escolha. Ninguém escolhe ser alérgico, muito menos ser alérgico grave.
Ameaçar uma criança com o alimento ao qual ela é alérgica deve ser entendido como uma agressão grave. Sujar a carteira de um aluno com anafilaxia a amendoim com pasta de amendoim, por exemplo, achando que é uma brincadeira, pode provocar uma reação grave.
A escola precisa trabalhar educação, conscientização e inclusão com toda a turma, e também com os próprios profissionais.
Os adultos também precisam se vigiar para não excluir esse aluno, não afastá-lo das atividades e não fazer comentários inadequados.
Segurança não pode virar exclusão.
A criança com alergia alimentar tem direito de simplesmente ser criança, aproveitar a escola para aprender, brincar e conviver de forma saudável e segura.
Em caso de suspeita de anafilaxia
Diante de sinais de reação alérgica grave, a orientação é seguir imediatamente o plano de ação individual definido pelo médico e buscar atendimento de urgência.



