Por que falar de peso nas consultas básicas faz mais diferença do que parece

O excesso de peso avançou silenciosamente por décadas, inclusive dentro dos consultórios. Embora a obesidade seja reconhecida como uma doença, ela ainda costuma receber pouca atenção nas consultas de rotina, muitas vezes por falta de tempo, sobrecarga dos profissionais e pela ideia equivocada de que emagrecer é apenas uma responsabilidade individual.

Um estudo de grande porte publicado na revista científica Nature Medicine sugere que esse cenário pode mudar com ajustes simples na atenção primária.

Quando o cuidado com o peso passa a ser tratado como prioridade nas unidades de saúde, o impacto aparece não só em quem recebe tratamento direto, mas em toda a população atendida.

A pesquisa analisou dados de mais de 270 mil adultos acompanhados em 56 clínicas de atenção primária no estado do Colorado, nos Estados Unidos, ao longo de quatro anos. Todos tinham índice de massa corporal acima de 25, faixa que inclui sobrepeso e obesidade.

Em vez de criar programas complexos, os pesquisadores testaram uma estratégia prática, integrada à rotina das consultas. A proposta foi organizar melhor o cuidado com o peso desde o atendimento básico.

O que mudou na prática

A intervenção, chamada PATHWEIGH, se baseou em três frentes principais:

  • Apoio explícito da liderança dos serviços de saúde, deixando claro que o cuidado com o peso era uma prioridade institucional;
  • Ajustes no prontuário eletrônico, facilitando a identificação de pacientes que poderiam se beneficiar de orientação ou tratamento;
  • Treinamento das equipes, com foco em uma abordagem mais qualificada, realista e sem estigma.

Na rotina das unidades, isso se traduziu em mais espaço para o tema durante as consultas e menos barreiras para orientações e encaminhamentos.

Pequenas mudanças, impacto coletivo

À primeira vista, o efeito médio pode parecer discreto.

Em 18 meses, a diferença de peso entre pacientes atendidos nas clínicas que adotaram o novo modelo e aqueles que receberam o cuidado tradicional foi de cerca de 580 gramas.

Mas esse número ganha outro peso quando visto em escala populacional.

Adultos tendem a ganhar cerca de meio quilo por ano ao longo da vida. Evitar esse avanço já representa um ganho relevante em saúde pública.

Na prática, o novo modelo ajudou a mudar essa trajetória.

Em vez de seguir engordando lentamente, a população atendida conseguiu manter o peso estável ou apresentar leve redução, o que pode significar menos casos de diabetes, hipertensão e outras doenças associadas ao excesso de peso ao longo do tempo.

Benefícios além do tratamento direto

O impacto não ficou restrito a quem recebeu intervenções específicas.

Mesmo entre pacientes que não passaram por tratamento direto para perda de peso, o ganho ao longo do tempo foi menor nas clínicas que adotaram o novo modelo.

Entre aqueles que receberam algum tipo de cuidado específico, a perda média chegou a pouco mais de dois quilos em 18 meses, um resultado considerado clinicamente relevante.

Além disso, a chance de um paciente receber atenção relacionada ao peso aumentou em 23%, incluindo orientações, encaminhamentos e, em alguns casos, medicamentos.

Ainda assim, a maioria das abordagens envolveu mudanças no estilo de vida.

Os autores destacam que o objetivo não é afirmar que perder meio quilo muda a vida de uma pessoa individualmente.

O valor do estudo está no efeito coletivo. Pequenas melhorias aplicadas de forma consistente em milhões de consultas podem ajudar a conter uma epidemia que avança há décadas.

Crédito da pesquisa: Implementation and effectiveness of a care process to prioritize weight management in primary care, Nature Medicine.

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Michele Azevedo

Formada em Letras - Português/ Inglês, pós-graduada em Arte na Educação e Psicopedagogia Escolar, idealizadora do site Escritora de Sucesso, empresária, redatora e revisora dos conteúdos do SaúdeLab.

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