Pacientes que rangem ou apertam os dentes podem colocar lentes de contato dental?
Podem. Mas essa decisão não deveria começar pela cor ou pelo formato dos dentes. Em pacientes com bruxismo, a reabilitação estética precisa começar pelo diagnóstico da função.
As lentes de contato dental são facetas cerâmicas extremamente finas, muitas vezes próximas ou inferiores a 0,5 milímetro. Quando bem indicadas e aderidas predominantemente ao esmalte, apresentam excelentes resultados. Estudos de longo prazo mostram taxas de sobrevivência superiores a 90%.
O problema é que esses números não podem ser aplicados indistintamente a todos os pacientes.
Bruxismo muda o cenário
O bruxismo é uma atividade dos músculos mastigatórios que pode ocorrer durante o sono ou em vigília. Conforme sua intensidade, frequência e o comportamento mandibular, pode produzir cargas repetidas sobre dentes e restaurações.
E a cerâmica, embora resistente, não é indestrutível. Quando o bruxismo é identificado, confeccionar restaurações sem acompanhar e controlar essa condição pode aumentar o risco de fratura precoce.
Estudos indicam maior risco de falha em facetas cerâmicas anteriores de pacientes com bruxismo. Em acompanhamentos de longo prazo, pacientes com hábitos parafuncionais apresentaram maior risco de falha, e parte significativa das fraturas ocorreu em pessoas com bruxismo.
Esses dados exigem cautela, porque o diagnóstico do bruxismo nem sempre é feito da mesma maneira e os estudos disponíveis apresentam limitações. Ainda assim, o sinal clínico merece atenção.
Portanto, o bruxismo não é necessariamente uma contraindicação para facetas, mas é um fator de risco que precisa fazer parte do planejamento.
O diagnóstico, o controle e o tratamento adequado dessa condição, de forma concomitante à reabilitação estética, podem contribuir para a longevidade das lentes de contato dental.
Como a prevalência do bruxismo aumentou nos últimos anos, é muito importante diagnosticar, tratar e controlar essa condição para que qualquer tratamento estético seja durável.
E tratar o bruxismo vai muito além do uso de uma placa ou da aplicação de toxina botulínica. O tratamento correto requer diagnóstico preciso e uma abordagem efetiva. Falaremos disso na próxima coluna.
E quanto às lentes ultrafinas de 0,5 milímetro?
Em laboratório, facetas ultrafinas apresentam resultados mecânicos promissores. Estudos com laminados inferiores a 0,5 milímetro e preparos de 0,3 a 0,5 milímetro mostram que determinadas cerâmicas, especialmente quando cimentadas ao esmalte, podem suportar cargas elevadas.
Mas há uma diferença importante entre resistir a uma força em laboratório e permanecer anos na boca de alguém que range ou aperta os dentes.
O bruxismo envolve milhares de ciclos de carga, em diferentes direções. Por isso, ainda não há evidência clínica suficiente para afirmar que uma faceta anterior de até 0,5 milímetro tenha, em longo prazo, a mesma previsibilidade em pacientes com bruxismo e em pacientes sem essa atividade.
Quanto mais conservador o tratamento, melhor. Mas “mais fino” não significa automaticamente “mais seguro”.
O problema pode estar no desenho do novo sorriso
Outro ponto fundamental é o tamanho final dos dentes.
Hoje é possível modificar com precisão o comprimento, a largura e a posição visual dos incisivos centrais. Porém, aumentar excessivamente os dentes anteriores para atender a um padrão estético pode alterar a sobremordida e, principalmente, a guia anterior — a relação entre os dentes anteriores que participa da orientação dos movimentos mandibulares.
Estudos experimentais mostram que guias mais inclinadas podem modificar a atividade dos músculos envolvidos nesses movimentos.
Isso significa que não devemos modificar drasticamente a geometria da mordida em nome da estética sem analisar como aquela mandíbula funciona.
Essa preocupação é ainda maior em pacientes com bruxismo.
O dente bonito precisa caber na biomecânica
Antes de alongar incisivos ou instalar múltiplas facetas, é necessário avaliar a mordida, a sobremordida, os movimentos mandibulares, o espaço funcional, os sinais de desgaste, a presença de apertamento ou bruxismo e, quando indicado, os músculos e as articulações temporomandibulares.
Mock-ups e testes provisórios ajudam a verificar se a nova anatomia é compatível com estética, fala e função antes da confecção definitiva.
A odontologia estética produz cerâmicas cada vez mais finas, resistentes e naturais. Mas o melhor sorriso não é necessariamente o que tem dentes maiores ou mais brancos.
É aquele em que estética, músculos, mordida e articulações conseguem funcionar juntos.
No paciente com bruxismo, essa diferença pode determinar se a lente permanecerá bonita por muitos anos — ou se uma excelente cerâmica será submetida a uma biomecânica para a qual nunca deveria ter sido desenhada.
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