Especialista em Reprodução Humana passou por 3 tentativas de fertilização in vitro e conta: “Viver tudo isso como paciente foi completamente diferente

Foi ao enfrentar o próprio tratamento para engravidar que a ginecologista e especialista em Reprodução Humana Melissa Cavagnoli passou a enxergar ainda mais de perto os desafios emocionais da fertilização in vitro (FIV).

Embora conhecesse tecnicamente cada etapa do procedimento, a experiência como paciente trouxe uma compreensão diferente sobre a vulnerabilidade, o desgaste emocional e as incertezas que podem fazer parte do tratamento.

A médica passou por três tentativas de fertilização in vitro e enfrentou dificuldades no preparo do endométrio antes de conseguir realizar o sonho da maternidade. A trajetória também ampliou seu olhar sobre as necessidades das mulheres que acompanha em seu consultório.

“Eu conhecia tecnicamente cada etapa do tratamento, mas viver tudo isso como paciente foi completamente diferente. Passei a compreender ainda mais profundamente a ansiedade, a expectativa e as frustrações que acompanham essa jornada”, conta.

A história de Melissa ajuda a mostrar que, embora a FIV tenha etapas bem definidas, o percurso nem sempre é simples ou igual para todas as mulheres. Mas como funciona o tratamento e em quais situações ele pode ser indicado?

Quando a fertilização in vitro é indicada

A FIV é uma técnica de reprodução assistida em que o óvulo é fecundado pelo espermatozoide em laboratório. Depois, o embrião formado pode ser transferido para o útero.

O procedimento pode ser recomendado em casos de obstrução das tubas uterinas, endometriose, alterações importantes nos espermatozoides e algumas situações de infertilidade sem causa aparente. Também pode ser considerado quando outros tratamentos não apresentam o resultado esperado.

A idade da mulher é um fator importante, pois a quantidade e a qualidade dos óvulos diminuem com o passar dos anos. A baixa reserva ovariana também pode influenciar o planejamento, mas não significa, isoladamente, que a mulher não consiga engravidar naturalmente.

Em geral, a investigação da infertilidade é indicada após 12 meses de tentativas para mulheres com menos de 35 anos e após seis meses a partir dessa idade. Acima dos 40 anos, pode ser necessário procurar ajuda mais cedo.

A indicação depende de uma avaliação individual.

“Nem toda mulher com dificuldade para engravidar precisa necessariamente fazer uma FIV”, explica Melissa.

Como é feita a fertilização in vitro
Imagem ilustrativa; ao lado, a médica Melissa Cavagnoli. / Crédito: Montagem: SaúdeLab | Imagem: Canva | Foto da médica: arquivo pessoal.

Como funciona o tratamento?

Segundo a especialista, a fertilização in vitro envolve seis etapas principais. A duração e os medicamentos utilizados podem variar conforme as características e a resposta de cada paciente.

1. Avaliação inicial

O médico investiga o histórico reprodutivo, os ciclos menstruais, possíveis doenças e tratamentos anteriores.

Exames hormonais, ultrassonografias e a análise do sêmen ajudam a identificar os fatores envolvidos.

A investigação do homem também deve começar desde o início, já que o fator masculino pode contribuir para até 40% dos casos de infertilidade.

2. Estimulação ovariana

A paciente utiliza medicamentos hormonais, geralmente injetáveis, para estimular o desenvolvimento de vários folículos nos ovários.

Essa fase costuma durar de 9 a 13 dias, com acompanhamento por ultrassonografias.

3. Coleta dos óvulos

Quando os folículos estão desenvolvidos, chega o momento de retirar os óvulos. O procedimento, chamado punção ovariana, é feito com a orientação de um ultrassom e geralmente com a paciente sedada.

A coleta é realizada por via vaginal, e a paciente costuma receber alta no mesmo dia.

4. Fertilização em laboratório

A fecundação pode ocorrer pelo contato entre os óvulos e os espermatozoides em laboratório ou por uma técnica chamada ICSI, em que um espermatozoide é injetado diretamente no óvulo.

Essa segunda opção é indicada principalmente em casos de alterações importantes no sêmen ou quando houve falha de fertilização anterior, entre outras situações específicas. Não é necessária para todos os casais.

Os embriões são acompanhados nos primeiros dias, mas nem todos continuam se desenvolvendo.

5. Transferência embrionária

Depois que os embriões se desenvolvem no laboratório, um deles pode ser escolhido para ser colocado no útero. Para isso, o médico utiliza um tubo fino e flexível, chamado cateter, que conduz o embrião até o local.

Em muitos casos, a preferência é colocar um único embrião por vez, o que reduz o risco de gravidez de gêmeos ou múltiplos. Essa decisão depende das características da paciente e do embrião.

O procedimento costuma ser rápido e geralmente não exige anestesia. Ele pode ser realizado no mesmo ciclo da coleta dos óvulos ou em outro momento, após o congelamento do embrião.

6. Teste de gravidez

Depois da transferência, a paciente aguarda o exame de sangue beta-hCG, que verifica a presença do hormônio da gravidez.

Em geral, o teste é realizado entre 9 e 14 dias depois, conforme a orientação da equipe.

Por que a primeira tentativa pode não dar certo?

A FIV não garante uma gravidez. A idade, a qualidade dos óvulos e dos embriões e as condições do útero estão entre os fatores que influenciam o resultado.

A trajetória de Melissa ilustra como o processo pode exigir novas tentativas.

Além das três fertilizações, ela enfrentou dificuldades no preparo do endométrio, tecido que reveste o interior do útero e precisa estar em condições adequadas para receber o embrião.

“É importante que a paciente saiba que nem sempre o caminho será linear. Podem existir etapas frustrantes, resultados que não correspondem às expectativas e a necessidade de recomeçar. O acompanhamento médico precisa considerar não apenas os aspectos físicos, mas também o impacto emocional de todo esse processo”, afirma.

Um resultado negativo não significa necessariamente que não existam outras possibilidades.

A equipe médica pode reavaliar o tratamento e discutir novas estratégias.

Durante a estimulação ovariana, também podem ocorrer desconforto abdominal, inchaço e alterações de humor. Mais raramente, pode surgir a síndrome de hiperestimulação ovariana, uma complicação que exige acompanhamento médico.

A experiência de ser paciente mudou seu olhar

Para Melissa, viver a FIV na prática trouxe uma compreensão diferente das dificuldades enfrentadas pelas mulheres que atende.

A espera pelos resultados e a possibilidade de frustração fazem parte de uma experiência que vai além dos procedimentos médicos.

“Eu sempre digo que, se pudesse escolher outra vida para viver, escolheria a minha novamente. Amo minha profissão e amo ser mãe. Sei que cada história tem seu próprio caminho, e meu desejo é que as mulheres encontrem informação, acolhimento e orientação para tomar suas decisões com segurança”, conta.

Sua trajetória não representa uma promessa de resultado para outras pacientes. Cada caso tem suas particularidades, mas o relato da médica evidencia por que informação, acompanhamento e acolhimento são importantes durante todo o tratamento.

Continue lendo: Óvulos congelados, doadores, testes genéticos: até onde se pode escolher para ter um bebê

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Redação SaúdeLab

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