Um pequeno copo de plástico de um conjunto de brinquedos da Barbie ficou preso no pulmão de uma mulher durante 51 anos. O objeto havia sido aspirado quando ela tinha apenas 8 anos e só foi retirado aos 59, depois de uma sequência de pneumonias e de uma investigação médica que chegou a levantar a suspeita de câncer.
O mais surpreendente é que ela sempre soube que havia aspirado o copinho. Ainda na infância, contou o episódio aos médicos, mas as radiografias não conseguiam mostrar o objeto. Como não havia sinal dele nos exames, ela foi informada de que provavelmente já o tinha expelido.
O caso aconteceu no Canadá e foi descrito por médicos da Universidade da Colúmbia Britânica, em Vancouver, na revista científica Case Reports in Pulmonology, em 2026.
Segundo os autores, trata-se do caso mais longo documentado de um corpo estranho retido nas vias respiratórias.
As pneumonias voltaram décadas depois
Depois de enfrentar pneumonias recorrentes na infância, a mulher passou décadas relativamente bem. Já adulta, porém, voltou a ter episódios graves da doença, sempre na parte inferior do pulmão direito.
Durante oito anos, radiografias mostraram alterações recorrentes nessa região. O histórico de tabagismo, embora ela tivesse parado de fumar havia 31 anos, influenciou a investigação.
Os médicos consideraram a possibilidade de doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC).
Nos oito meses anteriores à avaliação especializada, ela recebeu cinco ciclos de antibióticos para tratar as infecções. Como os episódios continuavam, uma tomografia do tórax foi solicitada.
O exame mostrou uma área do pulmão direito com perda de volume e dois brônquios, canais por onde o ar chega aos pulmões, obstruídos. As imagens também levantaram a suspeita de um possível tumor.
A lembrança da infância mudou o rumo da investigação
Durante a consulta com especialistas em doenças respiratórias, a mulher voltou a contar que havia aspirado o copinho de plástico quando era criança. Ela já tinha relatado o episódio outras vezes, mas as radiografias não conseguiam mostrar o objeto.
Dessa vez, os médicos decidiram investigar essa possibilidade.
Eles realizaram uma broncoscopia, exame que permite enxergar o interior dos canais por onde o ar passa até chegar aos pulmões. Para isso, utilizaram um aparelho fino e flexível, com uma pequena câmera na ponta.
O exame finalmente revelou o copinho, que estava preso e bloqueava completamente dois desses canais no pulmão direito.
A equipe conseguiu retirar o objeto com instrumentos especiais, entre eles uma pinça e uma pequena cesta usada para capturá-lo.
O tecido que envolvia o copinho também foi analisado. Os médicos encontraram uma reação do organismo à presença prolongada do objeto, mas não identificaram sinais de câncer.
Depois da retirada, os especialistas compararam o copinho com um acessório de plástico de um conjunto da Barbie fabricado na década de 1970. O formato e os relevos eram semelhantes.

A retirada não apagou todos os danos
A retirada do copinho eliminou a presença do objeto, mas não desfez todos os danos causados ao pulmão.
Exames realizados nos meses seguintes mostraram que os brônquios continuavam estreitados e que havia bronquiectasia, uma dilatação permanente dessas estruturas.
Também permaneceram cicatrizes e perda de volume em parte do pulmão direito.
Apesar das alterações, a mulher não apresentava sintomas respiratórios persistentes nem limitações nas atividades. Por isso, os médicos decidiram não realizar outra intervenção naquele momento, recomendando nova avaliação caso as pneumonias voltassem.
Como um objeto pode permanecer tanto tempo no pulmão?
O plástico é um dos materiais que podem dificultar a identificação de um corpo estranho nas vias respiratórias. Isso porque ele nem sempre aparece nas radiografias convencionais.
Segundo os autores do relato, apenas 21% a 32% dos corpos estranhos são identificados diretamente nesses exames.
Assim, mesmo quando há um objeto obstruindo um brônquio, a radiografia pode mostrar apenas sinais indiretos, como inflamação, infecções recorrentes e perda de volume pulmonar.
Quando sintomas respiratórios precisam de atenção
Alguns sinais merecem avaliação médica, especialmente quando se repetem:
- Pneumonias recorrentes, principalmente quando atingem sempre a mesma região do pulmão.
- Tosse persistente, chiado no peito ou falta de ar, mesmo que os sintomas pareçam leves.
- Histórico de engasgo ou suspeita de aspiração, ainda que o episódio tenha ocorrido muitos anos antes. Essa informação pode ajudar na investigação.
Em caso de dificuldade respiratória súbita ou intensa, é necessário procurar atendimento de urgência.
O caso também reforça a importância de ouvir com atenção os relatos dos pacientes. Informações sobre episódios antigos, mesmo que pareçam distantes dos sintomas atuais, podem ajudar a esclarecer o que está acontecendo e direcionar a investigação médica.
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