Doar sangue emagrece, enfraquece ou causa anemia? Hematologista esclarece

Um jovem em tratamento contra a leucemia que precisa de dezenas de transfusões. Um bebê prematuro que depende de hemácias e plaquetas para sobreviver. Um paciente submetido a transplante de medula óssea que recebe sangue por semanas enquanto o organismo se recupera.

Histórias como essas fazem parte da rotina da hematologista e médica atuante em hemoterapia Dra. Luciana Garcia Di Paolo.

Ainda assim, muitos brasileiros continuam evitando os hemocentros por causa de mitos que circulam há anos.

Entre eles a crença de que doar sangue pode causar anemia, enfraquecer o organismo, emagrecer ou até criar uma espécie de dependência.

Esses receios acabam afastando potenciais doadores justamente em um período de conscientização sobre a importância desse gesto.

Durante o Junho Vermelho, campanha que busca incentivar a doação de sangue em todo o país, especialistas reforçam que a informação correta é uma das principais ferramentas para ajudar a manter os estoques dos hemocentros.

Mas o que realmente acontece com o corpo após a doação?

Para esclarecer as dúvidas mais comuns, a Dra. Luciana explica o que a ciência sabe sobre o assunto e por que milhares de pacientes dependem diariamente desse gesto para continuar seus tratamentos.

Doar sangue pode causar anemia ou enfraquecer o organismo?

A possibilidade de sofrer algum prejuízo à saúde ainda faz muitas pessoas pensarem duas vezes antes de procurar um hemocentro.

Por isso, esclarecer o que realmente acontece com o organismo após a doação é uma das formas de combater a desinformação sobre o tema.

“Como hematologista e médica atuante em hemoterapia, uma das dúvidas mais frequentes que escuto é o receio de que doar sangue possa causar anemia ou enfraquecer o organismo. Na realidade, em pessoas saudáveis e aptas à doação, o corpo repõe rapidamente o volume coletado e a doação não traz prejuízos à saúde”, afirma a Dra. Luciana Garcia Di Paolo.

A especialista ressalta que todo o processo segue critérios rigorosos de segurança. Antes da coleta, o candidato passa por uma avaliação clínica para verificar se está apto a doar.

Além disso, existem intervalos mínimos entre as doações.

As mulheres podem doar a cada quatro meses, totalizando até três doações por ano. Já os homens podem doar a cada três meses, chegando a quatro doações anuais.

Por que algumas pessoas sentem tontura ou fraqueza após doar sangue?

Embora a doação de sangue seja considerada um procedimento seguro, algumas pessoas podem apresentar desconfortos passageiros logo após a coleta.

“Com relação a enfraquecimento, o que pode acontecer, em algumas pessoas, é uma sensação passageira de tontura, fraqueza ou mal-estar logo após a doação, principalmente pela retirada do volume de sangue”, explica a hematologista.

Por isso, a especialista reforça a importância de alguns cuidados simples antes da coleta, como estar bem alimentado, hidratado, ter dormido adequadamente na noite anterior e evitar o consumo de álcool nas horas que antecedem a doação.

A segurança também começa ainda na etapa de triagem.

Segundo a médica, os sinais vitais são avaliados para identificar situações que possam aumentar o risco dessas reações, como alterações da pressão arterial.

Após a coleta, o doador permanece por um período no hemocentro, recebe líquidos e alimentação e fica em observação.

“Seguindo os critérios de segurança, a doação é um procedimento muito seguro”, afirma.

Doar sangue causa anemia
Doador de sangue / Canva

Doar sangue emagrece?

A crença de que doar sangue pode ajudar na perda de peso não encontra respaldo na medicina.

“Não existe associação com emagrecimento”, assegura a especialista.

Após a coleta, o organismo apenas repõe gradualmente o volume e os componentes sanguíneos retirados durante a doação.

Existe algum tipo de “vício” em doar sangue?

Outra dúvida bastante comum é se o organismo poderia se acostumar com a doação e passar a depender dela.

“Assim como não existe associação com emagrecimento, também não existe nenhum mecanismo de ‘vício’ relacionado à doação de sangue”, afirma a hematologista.

Os intervalos entre as doações são estabelecidos justamente para garantir que todo o processo ocorra com segurança para o doador.

Quem realmente recebe o sangue doado?

Quando pensam em transfusão, muitas pessoas associam automaticamente o sangue doado a acidentes graves.

Embora vítimas de trauma realmente necessitem desse suporte, a realidade é muito mais ampla.

Segundo a Dra. Luciana, a maior parte do sangue coletado é utilizada diariamente por pacientes em tratamento de câncer, pessoas com doenças hematológicas, pacientes submetidos a cirurgias de grande porte, transplantes, complicações obstétricas e diversas outras condições médicas.

Ou seja, a necessidade de sangue não acontece apenas em situações emergenciais. Ela faz parte da rotina de inúmeros tratamentos realizados todos os dias.

Uma única doação realmente faz diferença?

Muitas pessoas acreditam que uma única doação tem impacto limitado. No entanto, o alcance desse gesto pode ser maior do que se imagina.

“Uma bolsa de sangue pode ser fracionada em diferentes componentes, como concentrado de hemácias, plaquetas e plasma, beneficiando mais de um paciente”, destaca a hematologista.

A especialista também chama atenção para a importância da regularidade das doações. Segundo ela, são os doadores frequentes que ajudam a manter os estoques dos hemocentros em níveis adequados durante todo o ano.

Em períodos de férias, feriados e festas, as doações costumam diminuir significativamente, o que pode comprometer a continuidade de tratamentos e cirurgias.

Os pacientes que dependem da decisão de um doador

Ao longo da carreira, a Dra. Luciana acompanhou de perto histórias que ajudam a dimensionar a importância da doação de sangue.

Entre elas estão as de pacientes jovens com leucemia que precisaram receber dezenas de transfusões durante o tratamento.

A médica também recorda casos de recém-nascidos prematuros que dependeram de hemácias e plaquetas para sobreviver nos primeiros dias de vida.

Outro exemplo são os pacientes submetidos a transplante de medula óssea, que frequentemente precisam de suporte transfusional durante semanas.

Embora as situações sejam diferentes, todas têm algo em comum.

“Em todos esses casos, a recuperação só foi possível porque alguém, em algum momento, decidiu doar sangue”, ressalta a médica.

A observação ajuda a lembrar uma realidade que muitas vezes passa despercebida: por trás de cada bolsa de sangue existe um gesto voluntário que pode fazer diferença no tratamento e na recuperação de outras pessoas.

Um gesto simples que pode salvar vidas

Para a especialista, a principal mensagem do Junho Vermelho é lembrar que a doação de sangue continua sendo uma das formas mais concretas de ajudar o próximo.

“Se eu pudesse deixar uma mensagem para o Junho Vermelho, seria a de que a doação de sangue é um dos atos mais simples e concretos de solidariedade que existem”, destaca.

Em menos de uma hora, uma pessoa saudável pode contribuir diretamente para pacientes que dependem diariamente das transfusões para realizar tratamentos, enfrentar cirurgias e seguir em recuperação.

Em um cenário em que os estoques dos hemocentros precisam ser constantemente renovados, a médica reforça que informação e conscientização continuam sendo fundamentais para incentivar novos doadores e manter esse gesto de solidariedade em movimento.

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Redação SaúdeLab

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