Imagine terminar uma conversa comum com uma rima sem ter planejado. Foi o que começou a acontecer com um neurologista de 55 anos depois de uma sequência de problemas no cérebro.
As palavras não rimavam apenas quando ele escrevia ou tentava fazer poesia. A rima aparecia nos próprios pensamentos e, pouco a pouco, também na fala cotidiana.
Em vez de simplesmente tentar controlar o novo comportamento, ele acabou fazendo algo ainda mais inesperado. Anos depois, passou a frequentar um centro cultural de rap em Los Angeles, onde participava de oficinas de freestyle e apresentações de microfone aberto.
O caso foi descrito pelo neurologista Mario F. Mendez, da UCLA e do VA Greater Los Angeles Healthcare System, em um relato publicado na revista Neurocase em 2022.
Primeiro vieram os problemas neurológicos
O homem começou a apresentar episódios inexplicados de perda de consciência por volta dos 53 anos. Dois anos depois, teve uma crise convulsiva generalizada.
A investigação revelou sinais de AVCs antigos, incluindo lesões no lado direito da parte posterior do cerebelo e no tálamo direito.
O cerebelo é conhecido principalmente por participar do equilíbrio e da coordenação dos movimentos. O tálamo fica em uma região profunda do cérebro e ajuda a transmitir informações entre diferentes áreas.
Depois vieram crises epilépticas focais, que começavam em uma região do lado esquerdo do cérebro envolvida com a linguagem.
Foi nesse contexto que surgiu a mudança mais incomum.
De repente, rimar virou uma necessidade
O homem passou a se interessar por poesia, algo que não fazia parte de sua vida anteriormente.
Mais do que isso, percebeu uma facilidade incomum para encontrar palavras que combinavam pelo som. Segundo o relato, ele descrevia uma espécie de impulso irresistível para rimar, inclusive dentro da própria cabeça.
A mudança também aparecia quando conversava normalmente. As rimas começaram a fazer parte de sua fala cotidiana.
Havia outro detalhe curioso. O próprio paciente tinha histórico de gagueira do desenvolvimento e dizia que, quando rimava, sua gagueira desaparecia e sua fala ficava fluida.
A rima, então, deixou de ser apenas uma característica estranha que havia surgido em sua vida. Tornou-se uma atividade que ele procurava.
O neurologista começou a fazer freestyle
Por volta dos 63 anos, ele passou a frequentar um centro cultural dedicado ao rap improvisado. Ia de carro, ônibus ou até a pé para participar de oficinas e apresentações de freestyle.
Ali, improvisava versos diante do público.
O relato conta que chegou a usar os nomes artísticos “Dr. Rapp” e, depois, “Dr. Flow”. Era mais velho que boa parte dos participantes, mas continuou frequentando as atividades.
Ele dizia que sentia vontade de rimar quando estava mais eufórico e acreditava que a atividade poderia ajudar a controlar suas crises. Para sua esposa, participar do rap também o deixava muito feliz.
O neurologista chegou a planejar um livro sobre sua experiência e sobre o possível efeito do rap na neuroplasticidade. Ele morreu de câncer aos 76 anos.
O que pode ter mudado no cérebro?
O relato não provou por que a rima surgiu. Ele levanta a hipótese de que as crises facilitaram a associação entre palavras que rimam, enquanto a lesão no cerebelo pode ter afetado o ritmo e o tempo da fala.
É apenas uma hipótese. Como se trata de um único caso, não dá para afirmar que esse foi o mecanismo.
Neste ano, um estudo do MIT com mais de 800 pessoas identificou uma região na parte posterior direita do cerebelo ligada à linguagem. Ela fica próxima da área atingida pelo neurologista.
A descoberta não explica o caso, mas reforça que o cerebelo também participa de funções relacionadas à linguagem.
Mudanças depois de um AVC ou de uma crise precisam ser avaliadas
Alterações repentinas na fala ou no comportamento depois de um AVC, uma crise ou um traumatismo craniano precisam de avaliação médica.
Se surgirem sinais súbitos de AVC, como dificuldade para falar ou fraqueza em um lado do corpo, é necessário procurar atendimento de emergência.
O caso do neurologista é uma exceção, não uma consequência esperada de AVC ou epilepsia.
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