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Nem tudo está nas palavras: o que um psicólogo percebe em você na terapia
Você conta uma história, fala sobre um problema ou tenta explicar o que está sentindo. Enquanto isso, o psicólogo escuta, mas também observa.
A expressão do rosto mudou? O tom de voz não combina com o que está sendo contado? A pessoa se afastou, desviou o olhar ou ficou em silêncio diante de determinada pergunta?
Esses sinais podem chamar a atenção durante uma sessão, mas não funcionam como um código capaz de revelar automaticamente o que alguém pensa ou sente. O significado depende da pessoa, da situação e do que está acontecendo naquela interação.
Para entender esse olhar profissional neste Dia do Psicólogo, celebrado em 27 de agosto, o SaúdeLab conversou com as psicólogas Rafaela Schiavo, especialista e referência em Psicologia Perinatal e da Parentalidade, e Mayra Gaiato, especialista em Análise do Comportamento Aplicada (ABA) e referência em autismo e neurodesenvolvimento.
Uma história triste contada com um sorriso pode chamar atenção
Para Rafaela, a escuta começa antes mesmo de o profissional interpretar aquilo que foi dito.
“Quando um paciente fala com a gente, temos que fazer a observação de tudo: da expressão facial que ele emite, da expressão corporal e do tom de voz”, explica.
Ela cita uma situação simples para ilustrar: “Ele pode contar uma história triste rindo”.
A reação, por si só, não permite concluir o que aquela pessoa está sentindo. Mas a diferença entre o conteúdo do relato e a maneira como ele é apresentado pode levar o psicólogo a explorar melhor aquela experiência.
É uma escuta diferente daquela de uma conversa entre amigos. O profissional acompanha a narrativa, percebe mudanças e pode voltar a determinados pontos para entender melhor o que está sendo relatado.
Às vezes, a pessoa chama de “minha” uma ideia que veio de outra pessoa
Nem tudo o que o psicólogo percebe está no rosto ou na postura.
Durante o relato, também podem aparecer crenças que o paciente considera verdades pessoais, mas que foram construídas a partir da relação com familiares, parceiros ou outras pessoas importantes.
Rafaela dá um exemplo: “Ele fala que algo é uma verdade e acredita que aquilo é dele, mas, conforme vamos escutando a história, percebemos que não é dele, é de outra pessoa”.
É nesse ponto que podem surgir novas perguntas e intervenções. A proposta não é simplesmente dizer ao paciente que aquela crença está errada, mas ajudá-lo a entender como ela foi construída e que lugar ocupa em sua vida.

O comportamento ganha outro significado quando visto dentro da situação
É fácil cair na ideia de que a terapia funciona como uma espécie de leitura corporal: braços cruzados significariam resistência, olhar desviado indicaria desinteresse e assim por diante.
Na prática, a interpretação é bem mais cuidadosa.
É justamente esse olhar para o comportamento que Mayra Gaiato chama de microanálise funcional.
“São sinais sutis que, principalmente as pessoas neurodivergentes, expressam. Elas têm dificuldade de comunicar verbalmente o que estão sentindo ou pensando, mas conseguem — intencionalmente ou não — acabar fazendo isso com o corpo”, explica.
Ela observa, entre outros aspectos, “para onde a pessoa está olhando”, o “apertar dos olhos”, as microexpressões faciais, a boca e “a direção para a qual o corpo está virando”.
Mais importante do que um gesto isolado é perceber o que mudou durante a interação e em que momento isso aconteceu.
Uma criança pode não dizer que está desconfortável, mas seu comportamento pode dar pistas
No atendimento infantil, nem sempre o desconforto aparece em palavras. A criança pode não conseguir identificar o que está sentindo ou explicar por que determinada atividade, pergunta ou estímulo não está sendo agradável.
Mayra observa justamente essas mudanças durante a interação.
“Se ela se esquiva ou foge, é porque está com sensações ruins. É porque é aversivo para ela, e nem sempre ela vai saber identificar, muito menos expressar verbalmente”, afirma.
Perceber esses sinais pode ajudar o profissional a decidir se é preciso mudar a forma como aquela situação está sendo conduzida.
No autismo, o contato visual não conta toda a história
Mayra chama atenção para uma diferença importante no atendimento de pessoas autistas: não olhar diretamente nos olhos não significa que não exista comunicação pelo olhar.
Segundo ela, mesmo quando a pessoa não mantém esse contato visual direto, os olhos e a musculatura ao redor deles continuam expressando mudanças que podem ser observadas pelo profissional.
“Ele emite inúmeros outros [comportamentos] o tempo todo, com as microexpressões dos olhos e da musculatura ao redor dos olhos”, diz.
Para Mayra, aprender a observar essas respostas pode ajudar o profissional a ajustar a própria condução do atendimento.
“Quando o psicólogo sabe e aprende a decodificar, ele aprende quando precisa aumentar a demanda, diminuir a demanda, diminuir o som, dar um tempo para a pessoa respirar ou esperar,” assegura a profissional.
Isso não significa que uma expressão isolada tenha um significado único. O que importa é observar as mudanças que acontecem durante a interação e responder a elas de acordo com o contexto.
E o que a terapia pode revelar que o próprio paciente ainda não percebeu?
Existe outra camada da escuta psicológica que aparece ao longo do processo. Aquilo que a pessoa começa a descobrir sobre si mesma enquanto fala.
Rafaela conta que a profissão lhe ensinou como é comum confundir desejos próprios com expectativas de outras pessoas.
“Elas tendem a querer realizar muito mais os desejos dos outros do que os seus”, aponta a especialista.
Segundo ela, a terapia pode ajudar a diferenciar “o que é o desejo do outro e o que é o desejo dela mesma”.
A descoberta, conta Rafaela, também aconteceu com ela.
“A psicologia ensinou que eu também tinha alguns desejos que não eram realmente meus, eram desejos de outras pessoas que eu confundia com os meus,” confessa.
No fim, uma conversa pode fazer a pessoa perceber que algumas certezas sobre si mesma talvez não fossem tão suas quanto pareciam.
O que um psicólogo percebe além das palavras
No fim, não existe um dicionário capaz de traduzir cada olhar, sorriso, silêncio ou movimento do corpo.
O que existe é uma escuta profissional que considera palavras, comportamento, contexto e a relação construída durante o atendimento. Essa observação pode ser especialmente importante quando a pessoa encontra dificuldade para colocar em palavras aquilo que está vivendo.
Para Rafaela, ser psicóloga significa “ser um profissional que acolhe as dores emocionais de outra pessoa”.
Mayra resume sua motivação de forma mais pessoal: “Eu fiz psicologia porque tinha um único objetivo: ajudar outros seres a se sentirem melhor.”
Duas trajetórias diferentes, com áreas de atuação distintas, chegam a um ponto semelhante: em terapia, ouvir não é apenas esperar o paciente terminar de falar. É perceber também aquilo que surge na conversa, no comportamento e na relação, inclusive quando ainda faltam palavras para explicar o que está acontecendo.
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