Nem todo TDAH é igual: muitas meninas passam anos sem diagnóstico

Ela nunca foi a aluna que corria pela sala ou interrompia a professora. Era vista como distraída, esquecia tarefas com frequência e parecia viver “no mundo da lua”. Como não incomodava a aula, ninguém imaginou que pudesse ter TDAH.

Histórias como essa são mais comuns do que muita gente imagina. Enquanto alguns casos chamam atenção pela hiperatividade, outros passam despercebidos por anos, especialmente entre as meninas.

Sem um diagnóstico, muitas crianças crescem ouvindo que são preguiçosas, desorganizadas ou desinteressadas, quando, na verdade, convivem com um transtorno do neurodesenvolvimento que poderia ter sido identificado mais cedo.

No Dia Mundial de Conscientização do TDAH, lembrado em 13 de julho, especialistas alertam que ainda há muitos equívocos sobre a condição. Um dos principais é acreditar que toda pessoa com TDAH é agitada ou impulsiva.

Por que o TDAH pode passar mais despercebido nas meninas?

Durante muito tempo, o TDAH foi associado principalmente à imagem da criança hiperativa e impulsiva. Mas essa não é a única forma como o transtorno se manifesta.

Em muitos casos, os sintomas aparecem de maneira mais discreta, com dificuldade para manter a atenção, desorganização, esquecimentos frequentes e problemas para planejar ou concluir tarefas.

“Nem toda criança com TDAH é hiperativa. Muitas apresentam dificuldades de atenção, organização e controle dos impulsos, e muitas meninas passam anos sem diagnóstico porque seus sintomas são menos perceptíveis”, explica a neuropsicopedagoga especialista em desenvolvimento infantil Silvia Kelly Bosi.

Como esses sinais costumam chamar menos atenção, muitas meninas só recebem o diagnóstico anos depois.

Algumas desenvolvem estratégias para compensar as dificuldades, enquanto outras convivem por muito tempo com críticas, baixo rendimento escolar e prejuízos à autoestima antes de entender o que está acontecendo.

O TDAH desaparece com o tempo?

Outro mito comum é acreditar que o TDAH existe apenas na infância. Embora os sintomas possam mudar com a idade, o transtorno pode continuar na adolescência e na vida adulta.

Segundo o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) do Ministério da Saúde, cerca de 7,6% das crianças e adolescentes brasileiros entre 6 e 17 anos convivem com o TDAH.

Pesquisas desenvolvidas pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), por meio de seu Ambulatório de TDAH, também mostram que muitos pacientes continuam apresentando sintomas ao longo da vida.

Em alguns casos, o diagnóstico só acontece na idade adulta, quando dificuldades presentes desde a infância finalmente passam a ser compreendidas.

TDAH em meninas
TDAH em meninas / SaúdeLab

Parece que hoje todo mundo tem TDAH?

Com o assunto cada vez mais presente nas redes sociais, muita gente tem a impressão de que o número de pessoas com TDAH aumentou rapidamente.

Especialistas, porém, fazem uma ressalva importante.

“Não estamos diante de uma epidemia de TDAH. O que observamos é uma melhora na capacidade de identificar uma condição que sempre existiu. Hoje temos mais evidências científicas, mais profissionais capacitados e uma sociedade mais aberta a discutir saúde mental e neurodesenvolvimento”, afirma a psiquiatra Fabricia Signorelli, do Ambulatório de TDAH da UNIFESP.

Isso significa que parte do aumento nos diagnósticos está relacionada ao maior conhecimento sobre o transtorno, à evolução dos critérios diagnósticos e ao acesso mais amplo à informação, e não necessariamente a um crescimento no número de pessoas que desenvolvem a condição.

O perigo do autodiagnóstico nas redes sociais

Se o aumento da informação ajudou mais pessoas a conhecer o TDAH, ele também facilitou o autodiagnóstico nas redes sociais. Hoje, muita gente acredita ter o transtorno apenas por se identificar com vídeos sobre o tema.

Afinal, quem nunca esqueceu um compromisso, perdeu o foco durante uma tarefa ou deixou algo para depois?

Esses comportamentos, sozinhos, não significam que alguém tenha TDAH.

“O diagnóstico exige uma análise da história de vida, do funcionamento da pessoa em diferentes contextos e da presença de prejuízos significativos. As redes sociais ajudam a ampliar o debate, mas não substituem a avaliação clínica”, destaca a psiquiatra Fabricia Signorelli.

O diagnóstico não é feito com base em um teste encontrado na internet nem em um vídeo de poucos segundos.

Ele depende de uma avaliação clínica detalhada, que considera o histórico do paciente, a intensidade dos sintomas e o impacto deles na rotina.

Além disso, outras condições podem provocar dificuldades semelhantes, o que reforça a importância de uma investigação cuidadosa.

Quando é hora de procurar ajuda?

Nem toda criança distraída tem TDAH. Da mesma forma, adultos podem passar por fases de desorganização ou dificuldade de concentração sem que isso represente um transtorno.

O sinal de alerta aparece quando esses sintomas persistem por um longo período, surgem em diferentes ambientes (como casa, escola ou trabalho) e começam a prejudicar o aprendizado, os relacionamentos ou a vida profissional.

Nesses casos, a recomendação é procurar avaliação com um profissional habilitado. O diagnóstico costuma envolver uma análise clínica cuidadosa e, quando necessário, uma equipe multiprofissional.

A principal orientação é evitar comparações. O TDAH não se manifesta da mesma forma em todas as pessoas.

Quando o diagnóstico traz respostas

Para muitas pessoas, descobrir o TDAH representa mais do que iniciar um tratamento. É também uma oportunidade de compreender situações que pareciam não fazer sentido.

Dificuldades recorrentes na escola, sensação de incapacidade, problemas para organizar a rotina e frustrações acumuladas ao longo dos anos podem ganhar uma nova explicação.

“Muitos pacientes passaram anos acreditando que eram incapazes, desorganizados ou insuficientes. Quando o diagnóstico acontece, eles passam a compreender essas dificuldades de forma menos punitiva e conseguem construir novas estratégias para lidar com elas”, afirma a psicóloga e neuropsicóloga Thaís Barbisan.

Isso não significa que o diagnóstico resolva todos os desafios. Mas ele pode orientar o tratamento, favorecer adaptações quando necessárias e ajudar a reduzir a culpa que muitas pessoas carregam sem entender a origem das próprias dificuldades.

TDAH em meninas
TDAH em meninas / SaúdeLab

Informação é aliada, não rótulo

Apesar dos avanços no conhecimento sobre o TDAH, ainda persistem ideias equivocadas. Entre elas, a de que toda pessoa com o transtorno é hiperativa ou de que qualquer distração já indica um diagnóstico.

Nunca foi tão fácil encontrar informações sobre o tema. O desafio é separar conteúdos baseados em evidências daqueles que simplificam uma condição complexa.

Conhecer melhor o TDAH não significa rotular crianças ou adultos. Significa garantir que quem realmente precisa tenha acesso à avaliação e ao acompanhamento adequados.

Quando o transtorno é reconhecido e avaliado corretamente, crianças, adolescentes e adultos têm mais chances de receber o suporte necessário e evitar anos de dúvidas, julgamentos e sofrimento desnecessário.

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Redação SaúdeLab

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