Especialista: enxaqueca vai muito além da dor de cabeça e mulheres sentem na pele

A enxaqueca é muito mais do que uma dor de cabeça. Ela é uma doença neurológica que pode afetar profundamente a rotina, o trabalho, os estudos, os relacionamentos e a qualidade de vida.

Um relatório da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) mostra que quase metade da população das Américas convive com algum tipo de doença neurológica. Entre adolescentes e jovens adultos, a enxaqueca aparece como uma das principais causas de incapacidade.

No Brasil, estima-se que cerca de 30 milhões de pessoas tenham a condição. Outras tantas, porém, convivem com os sintomas sem saber da doença. Entre os casos diagnosticados, aproximadamente 75% são mulheres.

Por que a enxaqueca afeta mais as mulheres

Isso acontece, em grande parte, porque as mulheres estão mais expostas às mudanças hormonais ao longo da vida.

O estrogênio, um dos principais hormônios femininos, influencia o funcionamento do cérebro e pode interferir na forma como o organismo percebe a dor.

Por isso, períodos como a menstruação, a gravidez, o pós-parto e a menopausa podem modificar o comportamento das crises.

Enxaqueca é hereditária e tem gatilhos conhecidos

A pessoa já nasce com uma predisposição para desenvolver a doença, que é hereditária.

Ao longo da vida, diferentes situações podem funcionar como gatilhos:

  • alterações hormonais
  • estresse
  • mudanças no sono
  • alimentação inadequada entre outros fatores

A enxaqueca acontece porque o cérebro de quem tem a doença é mais sensível a determinados estímulos.

Durante uma crise, essa sensibilidade aumenta ainda mais, podendo provocar dor forte, enjoo, vômitos, incômodo com a luz, o barulho e o cheiro, além de outros sintomas importantes.

Nas mulheres, as crises costumam ser mais intensas e frequentes principalmente da adolescência até aproximadamente os 50 anos de idade, período de maior atividade hormonal. Por isso, alguns cuidados são especialmente importantes.

Enxaqueca com aura, anticoncepcional e risco de AVC

Mulheres que têm enxaqueca com aura, por exemplo, apresentam sintomas neurológicos antes ou durante a crise, como alterações na visão.

Quando essa condição está associada ao uso de anticoncepcionais com hormônios combinados e ao tabagismo, o risco de acidente vascular cerebral (AVC) pode aumentar significativamente.

Isso não determina que toda mulher com enxaqueca terá um AVC ou que deva interromper um anticoncepcional por conta própria, mas é fundamental conversar com o médico de confiança para avaliar os riscos e escolher o tratamento mais adequado para cada caso.

Enxaqueca não tem cura, mas tem controle

Sendo uma doença hereditária, a enxaqueca não tem cura. Mas a notícia positiva é que, com acompanhamento especializado, é possível diminuir a frequência e a intensidade das crises e recuperar a qualidade de vida.

O tratamento integrado tem um olhar para o paciente como um ser único, o que permite combinar medicamentos e tratamentos modernos com mudanças de hábitos e outras estratégias para prevenir as crises.

Uma mudança determinante para o sucesso do cuidado da doença é evitar a automedicação. Usar remédios para dor com muita frequência pode, em vez de resolver o problema, contribuir para que a dor se torne cada vez mais frequente.

O excesso de cafeína também pode atuar como gatilho e cronificar a enxaqueca.

Enxaqueca não é frescura e não precisa fazer parte da vida para sempre. Quanto antes a pessoa buscar ajuda, mais cedo terá o controle das crises e voltará a viver com mais liberdade e qualidade.

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Dra. Thais Villa.
Dra. Thais Villa

Neurologista (CRM 110217 SP – RQE 27301 – RQE 25462) com Doutorado pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e Pós-Doutorado pela Universidade da Califórnia (UCLA) nos Estados Unidos. Fundadora do Headache Center Brasil, que em 2026 completou 10 anos de atendimentos. A clínica multiprofissional é pioneira no país no diagnóstico e tratamento integrado das dores de cabeça e da enxaqueca. Professora de Neurologia e Chefe do Setor de Cefaleias na UNIFESP no período de 2015 a 2022. Membro Titular da Academia Brasileira de Neurologia. Membro da Sociedade Brasileira de Cefaleia. Membro do Conselho Consultivo do Comitê de Cefaleias na Infância e Adolescência da International Headache Society. Atua exclusivamente na pesquisa e atendimento de pacientes com dor de cabeça, no diagnóstico e tratamento da enxaqueca, enxaqueca crônica, cefaleia em salvas e outras cefaleias. Palestrante convidada em congressos nacionais e internacionais.

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