Superdotação em meninas: quando esconder a inteligência se torna uma forma de pertencer

Estudos apontam a influência dos estereótipos de gênero na identificação das altas habilidades; reconhecer essas meninas também significa cuidar de seu desenvolvimento emocional

Imagine uma menina que aprende rapidamente, faz perguntas complexas e demonstra uma curiosidade extraordinária.

Na escola, porém, prefere não chamar atenção. Evita demonstrar tudo o que sabe, tem medo de errar e, em determinadas situações, esconde suas capacidades para não se sentir diferente das colegas.

Essa é uma realidade possível entre meninas com altas habilidades ou superdotação. Durante muito tempo, associamos a superdotação ao desempenho excepcional, sem considerar suficientemente como as expectativas sociais podem influenciar a maneira como meninas expressam suas capacidades.

Uma meta-análise publicada na revista Contemporary Educational Psychology, com 130 estudos, identificou que meninos apresentavam uma probabilidade 19% maior de serem identificados como superdotados ou incluídos em programas específicos.

Embora a diferença geral encontrada tenha sido pequena, os resultados reforçam a importância de observar possíveis desigualdades nos processos de identificação.

Quando ser diferente significa tentar se encaixar

Em algumas meninas superdotadas, a necessidade de aceitação social pode levar à tentativa de esconder interesses, conhecimentos ou habilidades.

O receio de parecer diferente, as expectativas relacionadas ao comportamento feminino e a pressão por desempenho podem influenciar a maneira como elas se relacionam com suas próprias capacidades.

Uma revisão sistemática brasileira, publicada na Revista Educação Especial, analisou 25 artigos científicos e identificou os estereótipos de gênero entre os temas relevantes para compreender a identificação e a trajetória de mulheres com altas habilidades.

É importante esclarecer que nem toda menina superdotada apresenta sofrimento emocional, dificuldades sociais ou perfeccionismo.

Entretanto, quando essas questões aparecem, não devem ser ignoradas simplesmente porque a estudante apresenta boas notas ou demonstra grande capacidade intelectual.

A busca por aceitação, o medo de decepcionar e a dificuldade para lidar com frustrações podem comprometer a expressão do potencial e o bem-estar de algumas dessas meninas.

Em determinados casos, a identificação acontece somente na vida adulta, quando experiências anteriores começam a ganhar outro significado.

Ainda assim, não existem evidências suficientes para afirmar que a maioria das mulheres superdotadas seja identificada tardiamente.

Precisamos reconhecer as meninas antes que elas aprendam a se esconder

O primeiro passo é abandonar a ideia de que existe um único perfil de superdotação.

Uma menina não precisa apresentar notas extraordinárias em todas as disciplinas, participar constantemente das aulas ou demonstrar suas capacidades de maneira evidente para merecer atenção.

Famílias e escolas precisam observar interesses, criatividade, formas de aprendizagem e necessidades emocionais, utilizando processos de identificação que considerem diferentes manifestações das altas habilidades.

Também precisamos ensinar que inteligência não significa obrigação de acertar sempre.

Essas meninas devem encontrar ambientes nos quais possam experimentar, errar, desenvolver amizades, enfrentar frustrações e expressar seus interesses sem receio de julgamento.

A Política Nacional para Estudantes com Altas Habilidades ou Superdotação, instituída em 2026, representa uma oportunidade para ampliar a identificação e o atendimento educacional.

Sua implementação precisa considerar também as desigualdades que podem deixar determinadas estudantes invisíveis.

Como pesquisador e pessoa identificada com altas habilidades na vida adulta, considero fundamental ampliar essa discussão.

Não basta descobrir o quanto uma menina é capaz de aprender.

Precisamos garantir que ela não sinta necessidade de esconder quem é para encontrar seu lugar no mundo.

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Dr. Gustavo Gattino.
Dr. Gustavo Gattino

Dr. Gustavo Gattino é doutor em Saúde da Criança e do Adolescente pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), graduado em Musicoterapia e professor associado da Universidade de Aalborg, na Dinamarca. Há mais de duas décadas desenvolve pesquisas sobre desenvolvimento humano, saúde mental, neurodivergência, emoções, comportamento e relações entre música, arte e saúde. É autor de 10 livros e dezenas de artigos científicos, integra o Conselho Mundial da World Federation of Music Therapy (WFMT) e desenvolve pesquisas relacionadas às emoções e às altas habilidades/superdotação, condição com a qual também foi identificado na vida adulta.

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