Já provou Buré? O mingau de milho dos povos indígenas que atravessou o tempo

Neste mês de agosto celebramos o Dia Internacional dos Povos Indígenas, uma data que convida à reflexão sobre a riqueza cultural, os conhecimentos ancestrais e a importância desses povos para a conservação da biodiversidade e da vida.

Muito antes da formação do Brasil, centenas de povos indígenas já cultivavam, manejavam e protegiam os ecossistemas, desenvolvendo sistemas alimentares sustentáveis que até hoje influenciam o que colocamos à mesa.

A alimentação brasileira carrega profundas raízes indígenas. A mandioca, considerada um dos maiores patrimônios alimentares do país, deu origem à farinha, ao beiju, à tapioca e ao tucupi.

O milho, o amendoim, o urucum, o açaí, o guaraná, o cupuaçu, a castanha-do-brasil, a pupunha e o pequi também fazem parte desse legado.

O mesmo vale para inúmeras frutas nativas e diversas espécies de feijões, construídas ao longo de milhares de anos por povos que aprenderam a produzir alimentos.

Mais do que ingredientes, esses alimentos representam conhecimentos sobre cultivo, colheita, processamento, conservação e respeito aos ciclos naturais.

Os saberes indígenas também ensinam que alimentar-se vai muito além de suprir necessidades nutricionais. A comida está profundamente ligada ao território, à identidade, à espiritualidade, à coletividade e à preservação dos recursos naturais.

Essa visão dialoga diretamente com os princípios da agroecologia, que valoriza a biodiversidade, o uso sustentável da terra, a produção local e os conhecimentos tradicionais como caminhos para sistemas alimentares mais resilientes e saudáveis.

Resistência e proteção dos territórios indígenas

Valorizar os povos indígenas é reconhecer que grande parte da identidade alimentar brasileira nasce desses conhecimentos ancestrais, e que protegê-los significa proteger também as pessoas que, há milênios, cuidam desses territórios e transmitem esses saberes entre gerações.

Vale olhar para a nossa própria alimentação e reconhecer que muito do que nos nutre hoje nasceu dos conhecimentos dos primeiros povos desta terra, um passo importante para sistemas alimentares mais justos, sustentáveis e comprometidos com a vida.

Receita indígena: buré de milho com cambuquira

A receita escolhida para hoje é de Buré ou Burê, muito presente na culinária indígena e no bioma amazônico. Vale a pena experimentar.

Ingredientes

  • 12 espigas de milho verde
  • 1 maço pequeno de cambuquira (broto de abóbora)
  • Rodelas de cebola
  • 3 dentes de alho
  • Limão

Modo de preparo

Corte os grãos das 12 espigas de milho e bata no liquidificador com pouca água. Coe e reserve.

Refogue no óleo o maço de cambuquira com as rodelas de cebola e os 3 dentes de alho.

Deixe uma chaleira de água fervendo à parte. Leve o creme de milho ao fogo em uma panela grande para engrossar e junte a água fervente aos poucos, até formar um mingau.

Cozinhe bem por 15 minutos e, por último, acrescente o refogado de cambuquira. Coloque sal a gosto.

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Dra. Valéria Paschoal

Nutricionista (CRN-3). CEO da VP Nutrição Funcional e diretora da Faculdade VP. Autora de obras da Coleção Nutrição Clínica Funcional (VP Editora). Coordenadora da Comissão Científica do Instituto Brasileiro de Nutrição Funcional (IBNF). Atua também na CSA Brasil (Community Supported Agriculture – Comunidade que Sustenta a Agricultura).

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