Bruxismo infantil: se seu filho range os dentes enquanto dorme, esse texto é pra você

Seu filho range os dentes enquanto dorme? Talvez seja hora de prestar mais atenção não apenas aos dentes, mas também à forma como essa criança está respirando, dormindo e vivendo.

O bruxismo infantil é muito mais frequente do que imaginamos. Uma meta-análise sobre crianças brasileiras encontrou prevalência de 25,8%, ou seja, aproximadamente uma em cada quatro crianças apresenta bruxismo.

Em outra meta-análise, considerando crianças de diferentes países, a prevalência estimada de bruxismo do sono chegou a 31,16%.

São números importantes demais para serem tratados simplesmente com a frase: “É normal, depois passa”.

Hoje sabemos que o bruxismo é multifatorial. Existe, sim, uma importante participação genética.

Mas aquilo que acontece ao redor da criança também importa: qualidade do sono, respiração, ansiedade, estresse, sedentarismo, rotina familiar e exposição excessiva às telas estão entre os fatores que vêm sendo investigados pela ciência.

Antes de olhar para os dentes, precisamos olhar para a respiração

Uma criança precisa respirar e dormir bem para se desenvolver adequadamente. Durante a infância, o sono é um período fundamental para crescimento, consolidação da memória, aprendizagem e desenvolvimento cerebral.

Por isso, quando uma criança range os dentes à noite, uma das perguntas que deveriam ser feitas é: como ela está respirando enquanto dorme?

Ela ronca? Dorme de boca aberta? Tem o nariz constantemente obstruído? Sua muito durante a noite? Tem um sono extremamente agitado? Acorda cansada ou apresenta sonolência durante o dia?

Esses sinais merecem investigação.

Uma revisão sistemática publicada em 2024 analisou 29 estudos sobre bruxismo do sono e distúrbios respiratórios em crianças e adolescentes.

Em 25 deles, as duas condições apareceram associadas, embora os próprios pesquisadores ressaltem que a qualidade da evidência disponível ainda é limitada.

Outro dado chama atenção: em um estudo brasileiro recente com pré-escolares, crianças que roncavam apresentaram aproximadamente 2,5 vezes mais chance de bruxismo.

Isso não significa que toda criança que range os dentes tenha apneia ou outro distúrbio respiratório. Significa que o ranger dos dentes pode ser uma pista que merece ser investigada — e não simplesmente ignorada.

E existe outro personagem nessa história: a tela

Nunca tivemos crianças tão conectadas.

Celular, tablet, televisão, videogame e redes sociais passaram a ocupar horas do dia e, muitas vezes, avançam até o período em que o cérebro deveria estar se preparando para dormir.

O problema é que a luminosidade excessiva desses aparelhos diminui a produção natural da melatonina, hormônio fundamental para o sono.

Além disso, as telas frequentemente substituem a atividade física, brincadeira, interação familiar, desaceleração e uma rotina adequada de sono.

Um estudo brasileiro que acompanhou crianças de 8 a 10 anos antes e durante a pandemia encontrou aumento do bruxismo, dos distúrbios do sono e da exposição às telas durante o período de isolamento. A incidência de bruxismo observada durante a pandemia foi de 36,2%, enquanto os distúrbios do sono aumentaram de 62,9% para 70,5%.

É difícil falar sobre saúde infantil hoje sem falar sobre estilo de vida.

E há mais um dado interessante: um estudo com 739 crianças brasileiras encontrou que aquelas com estilo de vida sedentário apresentaram 1,92 vez mais chance de provável bruxismo do sono.

“Mas eu também rangia os dentes quando criança”

Isso importa.

A genética tem participação relevante no bruxismo. Um estudo brasileiro recente realizado com 219 pares de gêmeos pré-escolares encontrou forte influência genética sobre o fenômeno.

Mas genética não significa destino.

O organismo de uma criança se desenvolve em interação permanente com o ambiente. Sono, respiração, nível de atividade física, experiências emocionais, rotina e hábitos familiares também fazem parte dessa equação.

É justamente por isso que não devemos olhar apenas para os dentes.

O que os pais devem observar?

Se seu filho range os dentes frequentemente, apresenta desgaste precoce dos dentes, ronca, respira pela boca, tem sono agitado, transpira muito à noite, acorda cansado ou apresenta alterações importantes de comportamento e sonolência durante o dia, converse com o profissional referência nesse assunto.

O desgaste dentário é um dos sinais clínicos que podem aparecer associado ao bruxismo e merece avaliação. Mas a consulta não deveria terminar na boca.

Dependendo dos sinais encontrados, pode ser necessária uma investigação multidisciplinar envolvendo odontologia, pediatria, otorrinolaringologia e outros profissionais.

O grande recado para os pais é simples: não escutem apenas o barulho dos dentes. Escutem o que o organismo dessa criança pode estar tentando mostrar. Não é normal!

Uma criança precisa de tempo para brincar, se movimentar, respirar adequadamente e dormir com rotina estabelecida e constante.

Porque infância não deveria ser uma versão em miniatura da vida acelerada dos adultos — e cuidar do sono de uma criança é também cuidar do seu desenvolvimento.

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Andréa Melo.
Dra. Andréa Melo

Dra. Andréa Melo (DDS, MSc, PhD) é cirurgiã-dentista (CRO-RJ 33652), graduada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), mestre em Ciência dos Materiais pelo Instituto Militar de Engenharia (IME) e doutora em Dentística pela UERJ. É pesquisadora, autora, educadora internacional, fundadora da SIBX – Sociedade Internacional de Bruxismo e criadora do Exame da Placa Diagnóstica e do Método DTC, voltados ao diagnóstico diferencial, tratamento e controle do bruxismo, ronco e apneia. Já formou mais de 2.000 profissionais em 27 países, consolidando uma atuação internacional baseada em ciência, inovação e educação.

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