Jogo de videogame trouxe uma pista sobre como pessoas com autismo percebem o mundo

Para algumas pessoas autistas, a dificuldade pode não estar em perceber um estímulo isolado, mas em juntar várias informações ao mesmo tempo para entender o que está acontecendo. Sons, imagens, movimentos e outros sinais chegam juntos, e o cérebro precisa organizá-los rapidamente.

Essa diferença pode ajudar a explicar por que determinadas situações do cotidiano são mais difíceis para algumas pessoas que têm essa condição.

Uma nova pesquisa encontrou pistas sobre esse processo usando uma estratégia incomum, um videogame simples que também pode ser utilizado por pessoas com grandes dificuldades de comunicação.

O que o videogame revelou sobre a percepção no autismo

Chamado Geode, o jogo funciona como uma caça a pedras preciosas. O participante percorre um mapa e observa pequenos flashes luminosos nas laterais da tela. Quando uma região pisca mais, é sinal de que há mais pedras escondidas ali.

A dificuldade aumenta durante a partida. Os pesquisadores variam características dos estímulos, como duração, quantidade e intervalo entre os flashes, e observam como a pessoa aprende a tomar decisões.

Mais de 300 adolescentes entre 11 e 17 anos participaram da pesquisa. Pouco mais de 200 tinham autismo, abrangendo diferentes níveis de características do transtorno, enquanto os demais eram irmãos sem autismo.

Mesmo participantes com dificuldades importantes de comunicação conseguiram aprender as regras sem receber instruções verbais. Isso é relevante porque alguns estudos sobre autismo dependem de respostas que determinadas pessoas não conseguem fornecer diretamente.

A dificuldade aparece quando as informações se acumulam

Os adolescentes autistas, em média, demoraram mais para aprender o jogo e tiveram menor precisão do que os participantes sem autismo.

A diferença aumentou quando havia mais sinais para processar. Eles tiveram mais dificuldade para reunir essas pistas antes de tomar uma decisão.

Os pesquisadores relacionam o resultado à integração perceptiva, capacidade do cérebro de juntar informações ao longo do tempo para formar uma percepção do que está acontecendo.

Uma conversa ajuda a entender. Para compreender o que alguém diz, o cérebro combina palavras, tom de voz, expressões faciais e outras pistas.

A hipótese dos autores é que, em algumas pessoas autistas, esse mecanismo pode funcionar de maneira diferente, com mais “ruído” durante a combinação dos sinais.

Isso não significa que todas as pessoas autistas tenham a mesma dificuldade. O espectro é amplo, e as características variam entre indivíduos.

Por que fazer um jogo em vez de apenas perguntas?

Crianças e adolescentes com autismo mais grave ou com pouca ou nenhuma comunicação verbal podem ficar de fora de pesquisas porque não conseguem realizar determinadas tarefas.

No Geode, não é preciso explicar verbalmente as regras. A pessoa aprende durante o próprio jogo, a partir das consequências de suas escolhas.

Isso permitiu incluir participantes que normalmente teriam mais dificuldade para participar de experimentos e observar diretamente como eles percebem e aprendem.

O jogo pode ajudar em tratamentos no futuro?

Por enquanto, o Geode não serve para diagnosticar autismo. O jogo identifica diferenças na forma como uma pessoa percebe e aprende, mas não determina sozinho se ela tem autismo ou outra condição.

O possível uso está em outra direção. Os pesquisadores acreditam que a ferramenta poderá ser usada em estudos que testam medicamentos ou outras intervenções.

Uma criança poderia jogar antes de uma intervenção e repetir a tarefa depois. A comparação ajudaria a verificar se houve mudança no desempenho.

Publicado na revista Science Advances, o estudo abre uma possibilidade relevante para a pesquisa sobre autismo, a de medir de maneira mais direta como diferentes pessoas processam as informações do ambiente, inclusive quando a comunicação verbal não é uma opção.

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Michele Azevedo

Formada em Letras - Português/ Inglês, pós-graduada em Arte na Educação e Psicopedagogia Escolar, idealizadora do site Escritora de Sucesso, empresária, redatora e revisora dos conteúdos do SaúdeLab.

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