“40 minutos por dia na escola”: quando a escola não inclui, a criança também paga o preço

Quando falamos sobre inclusão escolar de crianças autistas, a discussão costuma ficar restrita à educação: matrícula, professor, currículo e desempenho.

Mas existe uma dimensão que precisa ganhar mais espaço: a inclusão também é uma questão de saúde.

Uma criança passa boa parte da infância na escola. É ali que aprende, desenvolve autonomia, se comunica, estabelece vínculos e convive com outras pessoas.

Quando esse ambiente não está preparado para suas necessidades, os impactos podem ultrapassar o desempenho acadêmico.

O Brasil possui leis que garantem o direito da pessoa autista à educação e políticas que reforçam a necessidade de assegurar acesso, permanência, participação e aprendizagem. O desafio é transformar esses direitos em experiências concretas.

Porque garantir uma matrícula não significa, necessariamente, garantir inclusão.

Tenho acompanhado crianças que permanecem apenas cerca de 40 minutos por dia na escola porque a instituição não consegue oferecer condições para que elas fiquem por mais tempo.

São crianças com potencial de aprendizagem e desenvolvimento, mas que encontram barreiras no próprio ambiente.

E isso precisa nos fazer refletir.

Saúde não é apenas tratar doenças. Também envolve promover desenvolvimento, autonomia, participação social e qualidade de vida. Nesse sentido, a escola faz parte da rede de cuidado da criança.

O diálogo entre educação e saúde é fundamental.

Fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, psicólogos e outros profissionais podem contribuir para compreender as necessidades da criança e orientar estratégias que façam sentido também no contexto escolar.

Comunicação também faz parte da inclusão escolar

Na fonoaudiologia, por exemplo, comunicação é uma questão central. Uma criança que ainda não utiliza a fala não deixa de ter o que dizer.

Recursos de Comunicação Aumentativa e Alternativa podem ajudá-la a expressar desejos, sentimentos, necessidades e conhecimentos.

Quando a escola oferece meios para essa comunicação acontecer, está garantindo uma ferramenta essencial de participação e autonomia.

O mesmo vale para outras adaptações, como recursos visuais, instruções mais objetivas, previsibilidade da rotina e diferentes formas de demonstrar o que foi aprendido.

Incluir é mais do que garantir matrícula

O Plano Educacional Individualizado (PEI) também não pode ser tratado como mera burocracia. Ele deve ajudar a escola a entender quem é aquele aluno, suas necessidades, habilidades e quais estratégias podem favorecer seu desenvolvimento.

E existe ainda algo que nenhum documento substitui: o vínculo.

A criança precisa se sentir segura, acolhida e pertencente. Não podemos exigir que ela se adapte sozinha a um ambiente que não foi preparado para recebê-la.

Se queremos falar seriamente sobre desenvolvimento infantil, precisamos entender que educação, saúde e inclusão são partes da mesma equação.

A pergunta não deveria ser apenas se a criança autista está matriculada. Precisamos perguntar: ela consegue participar? Se comunicar? Aprender? Construir vínculos? Desenvolver autonomia?

A inclusão começa com o acesso, mas só se completa quando a criança consegue permanecer, aprender e se desenvolver com dignidade.

E isso também é cuidar da saúde.

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Paula Anderle
Fono Paula Anderle

Paula Anderle é fonoaudióloga analista do comportamento, especialista em Transtorno do Espectro Autista (TEA). Atua com avaliação e intervenção precoce, com foco na comunicação funcional, incluindo fala, linguagem e recursos de Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA). Seu trabalho é voltado à promoção da autonomia e da interação social de crianças autistas, com abordagem individualizada e baseada em evidências.

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