O cérebro se adapta ao ambiente. Mas que ambiente estamos oferecendo a ele todos os dias?

Vivemos em uma época que recompensa a fragmentação. Somos treinados a alternar rapidamente entre estímulos, interromper tarefas, consumir informações em segundos e evitar qualquer experiência que exija permanência.

O nosso cérebro é plástico e se adapta ao ambiente em que vive.

Se o ambiente favorece a distração constante, torna-se mais difícil sustentar a atenção quando ela realmente é necessária.

Mas a consequência não parece se limitar à atenção.

As crianças e os adolescentes também passaram a ter menos experiências que naturalmente moldavam o cérebro motor.

Brincar na rua, subir em árvores, equilibrar-se, cair, manipular objetos de forma espontânea, praticar esportes. Em muitos casos, horas de movimento foram substituídas por horas de tela.

A relação entre atenção e movimento

A neurociência mostra que atenção e movimento não são sistemas independentes.

O controle motor depende de circuitos que envolvem planejamento, antecipação, monitoramento do erro e controle executivo — funções intimamente relacionadas aos sistemas atencionais.

Um cérebro exposto a menos movimentos variados e constantemente capturado por estímulos externos pode ter menos oportunidades para desenvolver essas habilidades motoras de maneira mais robusta.

Isso não significa que a tecnologia cause, por si só, transtornos do neurodesenvolvimento. O aumento de diagnósticos envolve múltiplos fatores, como maior reconhecimento clínico, melhores critérios diagnósticos e fatores genéticos e ambientais.

Mas é plausível que um ambiente que exige cada vez menos atenção sustentada e menos movimento complexo reduza o treinamento cotidiano dessas funções, tornando algumas dificuldades mais evidentes.

Por isso, quando observamos ao nosso redor e na nossa própria vida uma dificuldade cada vez maior de concentração, a pergunta fundamental que fica é: que tipo de cérebro estamos cultivando quando construímos uma sociedade em que tudo compete pela atenção e quase nada exige de fato uma presença prolongada?

Plasticidade cerebral: o ambiente também molda o cérebro

Mais do que isso, o que acontece quando substituímos interações humanas complexas e ricas por interações predominantemente digitais?

Essa é uma reflexão importante porque nos lembra que o cérebro não se desenvolve isoladamente.

Ele é moldado todos os dias pelo ambiente que criamos. E nós, como sociedade, podemos escolher cultivar um ambiente mais saudável para o nosso próprio desenvolvimento.

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Dra. Marília Graner
Dra. Marília Graner

Neurologista, com especialização em neurociência comportamental e cognitiva, atua com foco na compreensão dos processos cerebrais relacionados a pensamentos, emoções e comportamentos.

Desenvolve conteúdo voltado à tradução da ciência do cérebro para o cotidiano, abordando temas como saúde mental, hábitos e organização da rotina, com ênfase em aplicações práticas baseadas em evidências.

CRM 164058 | RQE 68446

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