Hemocromatose: quando o excesso de ferro deixa de ser força e vira risco

Quando pensamos em ferro, a primeira imagem que vem à mente costuma ser a anemia. Mas existe o outro lado dessa história: o excesso.

A hemocromatose é justamente a condição em que o corpo absorve e acumula ferro além do necessário, e isso pode trazer consequências importantes para órgãos vitais.

O mais desafiador é que, no início, ela costuma ser silenciosa. Muitas pessoas convivem anos com níveis elevados de ferro sem perceber que algo está errado.

Entender como essa condição funciona é o primeiro passo para reconhecer sinais precoces e evitar complicações.

O que é hemocromatose e por que o ferro em excesso faz mal

A hemocromatose é um distúrbio caracterizado pelo acúmulo progressivo de ferro no organismo.

Diferentemente de outros nutrientes, o corpo humano não possui um mecanismo eficiente para eliminar o ferro em excesso. Ou seja, aquilo que é absorvido e não utilizado tende a ser armazenado.

Em condições normais, o intestino regula cuidadosamente a quantidade de ferro que entra na corrente sanguínea. Na hemocromatose, esse controle falha. É como se o organismo mantivesse a porta aberta o tempo todo, mesmo quando os estoques já estão cheios.

Com o passar do tempo, o ferro se deposita principalmente no fígado, no coração, no pâncreas, nas articulações e em glândulas hormonais.

Esse acúmulo favorece a formação de radicais livres, moléculas que causam estresse oxidativo e lesão celular. É esse mecanismo que explica por que o excesso de ferro pode evoluir para cirrose, diabetes, insuficiência cardíaca ou alterações hormonais.

A hemocromatose hereditária é uma das doenças genéticas mais comuns entre pessoas de ascendência europeia e pode causar danos graves aos órgãos quando não tratada precocemente.

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Tipos de hemocromatose: hereditária e secundária

Nem toda hemocromatose surge pelo mesmo motivo. Embora o resultado final seja o acúmulo excessivo de ferro no organismo, as causas podem variar.

De forma geral, a condição é dividida em dois grandes grupos — a forma hereditária, ligada a alterações genéticas, e a forma secundária, que ocorre como consequência de outras doenças ou intervenções médicas.

Entender essa diferença é importante porque ela influencia tanto o risco familiar quanto a estratégia de acompanhamento e tratamento.

 Hemocromatose hereditária

A forma mais conhecida é a hemocromatose hereditária, causada por mutações genéticas — especialmente no gene HFE. Quando há alteração genética, o corpo perde parte da capacidade de regular a absorção de ferro no intestino.

Nem toda pessoa com a mutação desenvolverá sintomas graves, mas níveis elevados de ferro ao longo dos anos aumentam o risco de dano orgânico.

Hemocromatose secundária

A hemocromatose secundária não é genética. Ela pode ocorrer em pessoas que recebem transfusões de sangue frequentes, em casos de doenças hepáticas crônicas ou quando há suplementação excessiva de ferro sem indicação médica.

É importante reforçar que o ferro não deve ser utilizado como suplemento sem orientação profissional. Diferentemente do que muitos imaginam, ele pode se tornar prejudicial quando usado sem necessidade.

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Sintomas: por que é fácil ignorar os sinais

Nos estágios iniciais, os sintomas da hemocromatose costumam ser inespecíficos. A fadiga persistente é uma das queixas mais frequentes. A pessoa sente cansaço mesmo após descanso adequado e pode apresentar dores nas articulações, especialmente nas mãos.

Dor abdominal leve, redução da libido, irregularidades menstruais e alterações de humor também podem ocorrer. Como esses sintomas são comuns a várias condições, muitas vezes não levantam suspeita imediata.

Com a progressão da doença, podem surgir manifestações mais evidentes, como escurecimento da pele, aumento do fígado, diabetes decorrente de lesão pancreática e alterações cardíacas.

Diretrizes clínicas da American Association for the Study of Liver Diseases (AASLD) reforçam que a hemocromatose é uma causa tratável de doença hepática crônica e que o diagnóstico precoce reduz significativamente o risco de cirrose e câncer de fígado.

Como é feito o diagnóstico

O diagnóstico geralmente começa com exames de sangue simples. A saturação de transferrina avalia quanto ferro está circulando ligado à proteína transportadora. Valores persistentemente acima de 45% podem indicar sobrecarga.

A ferritina sérica mede os estoques de ferro no organismo. Níveis elevados exigem investigação adicional, embora também possam subir em processos inflamatórios.

Quando há suspeita de hemocromatose hereditária, o teste genético para mutações no gene HFE pode confirmar o diagnóstico. Em alguns casos, exames de imagem como a ressonância magnética ajudam a estimar a quantidade de ferro acumulada no fígado e no coração.

Identificar a condição antes do surgimento de complicações muda completamente o prognóstico.

Tratamento: reduzir o excesso de ferro é possível

Depois da confirmação do diagnóstico, o foco passa a ser claro: diminuir os estoques de ferro antes que ele continue causando danos aos órgãos.

O tratamento da hemocromatose é direcionado justamente para essa remoção gradual e controlada do excesso acumulado. A estratégia escolhida depende da causa da sobrecarga, do estágio da doença e das condições clínicas do paciente.

 Flebotomia terapêutica

O tratamento padrão é a flebotomia, procedimento semelhante à doação de sangue. A retirada periódica de cerca de 450 a 500 ml estimula o organismo a utilizar o ferro acumulado para produzir novas células sanguíneas, reduzindo gradualmente os estoques.

No início, as sessões podem ser semanais ou quinzenais. Após normalizar os níveis de ferritina, o paciente passa para uma fase de manutenção, com intervalos maiores.

Quelação de ferro

Para pessoas que não podem realizar flebotomias, existem medicamentos quelantes que se ligam ao ferro e facilitam sua eliminação. Essa estratégia é mais utilizada em casos específicos de sobrecarga secundária.

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Alimentação e estilo de vida

A alimentação não é a causa da hemocromatose hereditária, mas pode influenciar a velocidade de acúmulo de ferro. Evitar suplementação sem indicação, moderar o consumo de álcool e ter cautela com altas doses de vitamina C junto às refeições são medidas importantes.

Não é necessário excluir completamente carnes ou seguir dietas restritivas, mas o equilíbrio é essencial. O acompanhamento médico individualizado orienta ajustes adequados.

Sinais de alerta que exigem avaliação médica

Procure avaliação médica se houver cansaço persistente sem explicação, histórico familiar de hemocromatose ou cirrose precoce, elevação inexplicada de ferritina em exames de rotina, dor articular associada a alterações hepáticas ou diagnóstico recente de diabetes com alterações no fígado.

A hemocromatose é uma condição potencialmente grave, mas tratável. O diagnóstico precoce evita danos irreversíveis e permite qualidade de vida preservada.

É possível viver bem com hemocromatose

Receber o diagnóstico pode gerar insegurança, mas quando identificada antes de danos avançados, a hemocromatose tem excelente controle.

O acompanhamento regular, os exames periódicos e a adesão ao tratamento fazem toda a diferença.

O ferro é essencial para a vida. O problema não está na sua presença, mas no desequilíbrio. Informação de qualidade e acompanhamento profissional são as melhores ferramentas para proteger a saúde a longo prazo.

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Enf. Raquel Souza de Faria

Sou Raquel Souza de Faria, Enfermeira (COREN – MG 212.681) Especialista em Docência do Ensino Superior, Consultora de Enfermagem em Núcleo de Segurança do Paciente, Gestora de Serviços de Atenção Básica/Saúde da Família. Empresária e Empreendedora, amante da Fitoterapia e das Terapias Holísticas, oferecendo bem-estar e prevenção de doenças como Auriculoterapêuta e Esteticista.
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