Polilaminina empolga nas redes, mas ciência pede calma

Nos últimos dias, um nome difícil começou a circular nas redes sociais, em grupos de pacientes e até em ações judiciais: polilaminina.

Para muitas pessoas com lesão na medula, a substância passou a representar uma possível chance de recuperação. Para a comunidade científica, porém, o momento ainda é de frear o entusiasmo.

Entidades como a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, a Academia Brasileira de Ciências e a Academia Brasileira de Neurologia divulgaram posicionamentos públicos.

Eles reforçam que a polilaminina ainda é experimental e precisa seguir todas as etapas de validação científica antes de qualquer uso clínico.

O que realmente existe hoje

A substância foi desenvolvida em pesquisas acadêmicas no Brasil e é investigada como possível abordagem para lesões neurológicas.

O ponto central, segundo os especialistas, é que ela ainda não é um tratamento aprovado.

Até agora, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária autorizou apenas a fase 1 dos testes clínicos — etapa voltada principalmente para avaliar segurança inicial.

Isso significa que, no momento:

  • não há comprovação de eficácia clínica;
  • não há demonstração de benefício consistente em pacientes;
  • não há liberação para uso rotineiro em hospitais.

As entidades científicas apontam que descoberta de laboratório não é sinônimo de terapia pronta.

O alerta mais firme dos neurologistas

A Academia Brasileira de Neurologia foi explícita ao afirmar que, até o momento, não existem publicações científicas que comprovem segurança e eficácia da polilaminina em seres humanos.

Pelo caminho tradicional da ciência, um tratamento precisa avançar por várias fases de estudo (da fase 1 até a fase 3) antes de poder ser considerado para uso médico mais amplo.

Esse processo costuma levar anos e exige confirmação independente dos resultados.

Por que relatos isolados não bastam

Parte da repercussão veio de um teste inicial com oito pacientes, no qual seis apresentaram melhora.

O dado chama atenção, mas especialistas pedem cautela por vários motivos:

  • o estudo ainda não passou por revisão independente por pares;
  • o número de participantes é pequeno;
  • lesões medulares recentes podem melhorar espontaneamente.

Em alguns casos, cerca de 30% dos pacientes recuperam parte dos movimentos sem qualquer nova terapia.

Sem estudos controlados maiores, não é possível separar o efeito do tratamento da recuperação natural.

A preocupação com a judicialização

Com a expectativa crescente, alguns pacientes têm recorrido à Justiça para tentar obter a aplicação da substância fora dos estudos clínicos.

Segundo as entidades científicas, isso gera dois riscos principais:

  1. Risco ao paciente: fora de protocolos aprovados por Comitês de Ética, não há monitoramento adequado de efeitos adversos.
  2. Risco científico: aplicações sem controle podem atrapalhar os estudos e atrasar a resposta definitiva sobre a eficácia da terapia.

Na prática, a tentativa de acelerar o acesso pode acabar prolongando a incerteza.

O dilema por trás da esperança

Especialistas reconhecem que tecnologias experimentais despertam expectativas legítimas, especialmente em condições graves como a lesão medular.

Mas justamente por isso, afirmam, o rigor precisa ser ainda maior.

Transformar uma descoberta de laboratório em um tratamento seguro envolve um percurso longo, que passa por múltiplas etapas de validação científica e regulatória.

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Polilaminina: Nota da Academia Brasileira de Neurologia

O que a polilaminina representa hoje

No estágio atual, o consenso de entidades científicas é que a polilaminina representa uma promessa em investigação, não um tratamento estabelecido.

O desafio agora é equilibrar duas urgências reais:

  • a pressa de quem busca recuperação;
  • e o cuidado necessário para garantir que qualquer avanço seja, de fato, seguro e eficaz.

Até que estudos maiores e mais robustos sejam concluídos, a recomendação dos especialistas é manter cautela, e deixar que a ciência siga seu tempo.

Referências institucionais

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Farm. Elizandra Civalsci Costa

Editora-chefe do SaúdeLAB. Farmacêutica (CRF MT nº 3490), formada pela Universidade Estadual de Londrina, com especialização em Farmácia Hospitalar e Oncologia pelo Hospital Erasto Gaertner.

Atua na supervisão editorial e na produção de conteúdos jornalísticos e informativos sobre saúde, ciência e bem-estar, seguindo critérios de apuração, revisão e responsabilidade editorial.

Possui formação em revisão de conteúdo para web pela Rock Content University e capacitação em fact-checking pelo Poynter Institute.

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