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Quando o diagnóstico de colite não explica a dor
Um tempo atrás atendi uma paciente com dor abdominal, distensão e episódios de diarreia. Ela já havia passado por diferentes especialistas e recebeu um diagnóstico que parecia encerrar a investigação: colite.
Havia feito colonoscopia. O exame mostrava pequenas inflamações inespecíficas. A biópsia também não trazia um diagnóstico conclusivo.
Mas havia um detalhe que chamava atenção: os sintomas pioravam de forma clara no período menstrual.
E é justamente nesses momentos que precisamos ampliar o raciocínio clínico, porque em alguns casos o que parece colite pode ser manifestação de endometriose intestinal.
Nem toda inflamação intestinal é uma colite definida
O termo “colite” muitas vezes é utilizado quando há algum grau de inflamação no intestino, mas isso não significa necessariamente uma doença inflamatória intestinal estabelecida, como Doença de Crohn ou Retocolite Ulcerativa.
Inflamações inespecíficas podem representar reações secundárias, e não a causa primária do problema.
Em mulheres, especialmente quando os sintomas intestinais têm comportamento cíclico, é prudente considerar a possibilidade de endometriose com acometimento intestinal.
Não significa que todo quadro assim seja endometriose. Mas ignorar essa hipótese pode atrasar o diagnóstico correto.
E, vez ou outra, surgem no consultório situações muito semelhantes.
Quando o intestino pode ser parte do cenário
A endometriose é uma doença que pode ultrapassar o território ginecológico.
Nas formas profundas, pode infiltrar estruturas vizinhas — e o intestino é um dos locais mais frequentemente acometidos.
Quando há endometriose intestinal, os sintomas podem incluir:
- Alteração do hábito intestinal
- Sensação de evacuação incompleta
- Distensão abdominal importante
- Dor ao evacuar
- Piora dos sintomas no período menstrual
Esse conjunto não é exclusivo da doença. Outras condições também podem se manifestar de forma parecida, incluindo distúrbios funcionais como a Síndrome do Intestino Irritável.
O que chama atenção é o padrão cíclico associado à menstruação. Esse detalhe muda o peso das hipóteses diagnósticas.
Colonoscopia normal não descarta o problema
Na maioria dos casos de endometriose intestinal, a colonoscopia pode ser normal ou apresentar apenas alterações discretas e inespecíficas.
Isso acontece porque a endometriose intestinal costuma acometer as camadas externas da parede intestinal, enquanto o exame endoscópico avalia principalmente a mucosa, a camada interna.
Ou seja, o exame pode não capturar a origem real da dor.
Quando os sintomas persistem e o padrão clínico não se encaixa perfeitamente no diagnóstico de colite, vale ampliar a investigação com exames de imagem adequados e avaliação integrada.
Sobre cirurgias e persistência de sintomas
A paciente que mencionei havia sido operada anos antes por endometriose. Mesmo assim, os sintomas intestinais persistiram (e até se intensificaram).
Isso não significa automaticamente falha cirúrgica. A endometriose é uma doença complexa, com possibilidade de doença residual, progressão ou recorrência ao longo do tempo.
Nos casos em que há infiltração intestinal profunda e sintomas relevantes, o tratamento pode envolver diferentes abordagens cirúrgicas, como:
- Shaving (ressecção superficial)
- Ressecção em disco
- Ressecção segmentar intestinal
A escolha depende da extensão, profundidade da lesão e impacto clínico.
Nem toda paciente precisará de cirurgia extensa, mas, quando indicada, o planejamento deve ser criterioso e multidisciplinar.
Em relação ao apêndice, há estudos demonstrando presença de endometriose apendicular em parte das pacientes operadas.
A decisão de removê-lo deve ser individualizada, baseada na avaliação intraoperatória e no contexto clínico.
O que realmente preocupa
O problema não é apenas receber um diagnóstico. É manter um diagnóstico que não explica completamente a história clínica.
Quando uma mulher apresenta sintomas intestinais que pioram consistentemente no período menstrual e os exames não confirmam uma doença inflamatória intestinal clássica, é prudente reavaliar.
Isso não significa abandonar tratamentos necessários. Significa não encerrar a investigação cedo demais.
A endometriose intestinal não é uma condição de um único especialista.
Exige integração entre ginecologia, coloproctologia e radiologia especializada.
Um alerta responsável
Doenças inflamatórias intestinais verdadeiras existem, são sérias e exigem tratamento específico.
Mas também é verdade que a endometriose intestinal pode imitar esses quadros.
Quando os sintomas persistem, quando o padrão é cíclico e quando os exames são inconclusivos, vale perguntar: estamos tratando a causa ou apenas a consequência?
O intestino pode estar sinalizando algo maior.
Cabe a nós escutar com atenção e investigar com responsabilidade.
Leitura Recomendada: Como é a cirurgia de endometriose intestinal: o que a paciente precisa entender
Dr. Alexandre Nishimura
Médico cirurgião-geral, cirurgião robótico e coloproctologista. Membro titular da Sociedade Brasileira de Coloproctologia (SBCP) e da Sociedade Brasileira de Cirurgia Minimamente Invasiva, Robótica e Digital (SOBRACIL). Atua com foco em técnicas avançadas e tratamentos de alta precisão.
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