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Licença-paternidade e a ideia de que o bebê é “da mãe”
A sanção da nova lei sobre licença-paternidade importa porque mexe em uma desigualdade antiga, que sempre disse muito sobre a forma como a nossa sociedade enxerga o cuidado.
Durante muito tempo, a diferença entre a licença da mãe e a licença do pai reforçou a ideia de que o filho seria principalmente da mulher.
Como se o homem estivesse ali para ajudar quando possível, e não para assumir responsabilidades reais desde o início.
Papel do pai no cuidado com o bebê
Para mim, esse é o ponto fundamental dessa discussão.
Ampliar a licença-paternidade não é apenas uma medida trabalhista. É reconhecer, ainda que de forma insuficiente e tardia, que o cuidado com um bebê não pode continuar sendo tratado como tarefa natural da mãe.
Nos primeiros dias após o parto, a mulher atravessa um período de grande exigência física e emocional.
Existe cansaço extremo, privação de sono, dor, insegurança, demanda contínua de cuidado e uma reorganização profunda da vida.
Quando ela passa por isso praticamente sozinha, a sobrecarga aumenta.
Quando o pai está presente e se responsabiliza de fato, esse peso pode ser dividido de forma mais justa.
Pai não é rede de apoio
Eu costumo insistir nisso porque essa escolha de palavras faz diferença. Pai não é rede de apoio. Pai é corresponsável.
Quando chamamos o pai como apoio, colocamos esse homem em um lugar secundário, como se o cuidado fosse da mulher e ele apenas entrasse como complemento.
Esse raciocínio parece pequeno, mas sustenta um problema grande.
Esse raciocínio ajuda a manter viva a ideia de que o bebê é da mãe, de que a rotina pesada do puerpério é assunto da mulher e de que o homem ocupa um papel lateral nessa experiência.
Não ocupa.
Trocar fralda, dar banho, acolher o choro, segurar o bebê para a mulher conseguir descansar, acompanhar consulta, acordar de madrugada, dividir tarefas da casa e se envolver na rotina do recém-nascido não são favores.
São responsabilidades parentais.
Licença-paternidade e desigualdade no cuidado
A diferença histórica entre licença-maternidade e licença-paternidade nunca foi neutra.
Ela sempre revelou uma visão machista sobre família e cuidado.
Quando a sociedade oferece à mulher meses de afastamento e ao homem apenas alguns dias, o que ela comunica é muito claro.
A mensagem é que o bebê precisa da mãe para ser cuidado e que o pai, no máximo, participa como um ajudante.
Isso dificulta, inclusive, uma mudança cultural mais profunda, em que os homens se percebam como importantes nesse papel e as famílias também os reconheçam assim.
Por isso, a ampliação da licença tem peso importante. Ela não corrige sozinha o machismo estrutural, mas auxilia a deslocar o debate.
Ajuda a afirmar que o bebê não é responsabilidade exclusiva da mulher e que a presença paterna no começo da vida importa.

Paternidade saudável não é a do pai observador
Na psicologia perinatal, eu considero saudável a paternidade em que o homem sabe das suas responsabilidades e as assume como cuidador.
O oposto disso é o pai que se mantém como observador, coadjuvante ou apenas provedor. Aquele que olha para o bebê como “o filho dela” e para a rotina da casa como um assunto da mulher.
Esse modelo ainda existe, e ele pesa sobre a saúde mental materna.
Quando o pai não se responsabiliza, a mulher tende a acumular funções, exaustão e sentimentos de solidão em um momento já muito delicado.
Isso interfere na forma como ela atravessa o puerpério, descansa, se recupera e se vincula ao bebê. Ampliar a licença-paternidade importa também por isso.
Porque mais tempo em casa pode abrir espaço para uma participação mais concreta e mais consciente no cuidado cotidiano.
Mais tempo em casa não resolve tudo, mas muda o começo
Nem toda presença masculina significa cuidado real.
Há famílias em que esse pai participa, divide responsabilidades e fortalece o ambiente de cuidado. Em outras, a presença pode vir acompanhada de tensão, omissão ou abandono emocional.
A lei, sozinha, não transforma um pai ausente em um pai implicado.
A lei não cria automaticamente uma paternidade saudável. Mas ela reconhece que esse começo precisa ser vivido de outra forma e que o cuidado com o bebê não deveria recair, de saída, sobre uma única pessoa.
Esse é um passo importante, inclusive, para aliviar a sobrecarga materna, proteger a saúde mental da mulher e favorecer um vínculo familiar mais consistente nos primeiros dias de vida do bebê.
A lei também amplia a proteção social ao prever remuneração integral durante o afastamento e regras específicas para adoção e guarda judicial para fins de adoção.
No fim, essa discussão não é apenas sobre tempo de licença.
Ela revela o que a sociedade ainda pensa sobre a maternidade, paternidade e o cuidado.
Enquanto seguirmos tratando o bebê como responsabilidade da mulher e o homem como apoio eventual, continuaremos reproduzindo a mesma desigualdade dentro de casa.
A nova lei importa porque começa, ainda que de forma limitada, a enfrentar esse raciocínio. E porque, nos primeiros dias de vida de um bebê, o pai não deveria ser tratado como ajuda. Ele deve ser reconhecido como corresponsável.
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