Seu remédio para ansiedade pode piorar o bruxismo, alerta cirurgiã-dentista

O efeito pouco conhecido de alguns antidepressivos sobre o apertamento dos dentes e a dor na mandíbula

Você começou ou aumentou a dose de um medicamento para ansiedade ou depressão e, semanas depois, percebeu que acordava com a mandíbula cansada?

Passou a apertar os dentes durante o dia, sentir dor no rosto ou notar pequenas fraturas? Essa sequência merece atenção.

Alguns medicamentos psicotrópicos podem desencadear ou agravar o bruxismo em determinadas pessoas.

O alerta não significa que antidepressivos façam mal nem que devam ser abandonados. Esses medicamentos são essenciais para milhões de pessoas e precisam ser usados com prescrição e acompanhamento.

O problema aparece quando há automedicação, aumento de dose por conta própria, uso prolongado sem reavaliação ou quando um efeito adverso é tratado como se fosse apenas estresse.

Antidepressivo causa bruxismo? O que os estudos mostram

A relação é descrita com maior frequência em antidepressivos que atuam sobre a serotonina, muitos deles também prescritos para transtornos de ansiedade.

Entre os nomes mais citados estão sertralina, escitalopram, fluoxetina, paroxetina, venlafaxina e duloxetina.

Isso não quer dizer que todas as pessoas que usam essas medicações terão bruxismo. Significa que, diante de sintomas novos, o remédio deve entrar na investigação clínica.

Na revisão sistemática de Melo e colaboradores, publicada em 2018, paroxetina, venlafaxina e duloxetina apareceram associadas a maior chance de bruxismo do sono.

Os próprios autores classificaram a qualidade geral da evidência como muito baixa, porque os estudos disponíveis eram observacionais e não usavam polissonografia.

Outra revisão, de Garrett e Hawley, reuniu relatos clínicos e observou que os sintomas costumavam surgir três a quatro semanas após o início do antidepressivo ou o aumento da dose.

Em 2020, Revet e colaboradores analisaram mais de 14 milhões de notificações internacionais de efeitos adversos.

Entre os distúrbios do movimento relacionados a antidepressivos, o bruxismo apresentou o sinal de notificação mais forte.

Esse tipo de estudo identifica um alerta de farmacovigilância; não prova, sozinho, que o medicamento causou cada caso.

Uma análise crítica publicada em 2026 reforçou essa cautela: grande parte da literatura ainda se apoia em relatos do paciente e exames clínicos, e poucos estudos diferenciam bem o bruxismo do sono do apertamento em vigília.

Ansiedade, qualidade do sono, consumo de cafeína, álcool, nicotina e outros fatores também podem participar do quadro.

Na prática, a pergunta não deve ser simplesmente ‘foi o remédio?’, mas ‘o que mudou antes de os sintomas começarem?’

Por que isso pode acontecer

De modo simplificado, alguns antidepressivos aumentam a ação da serotonina e podem interferir nos circuitos de dopamina ligados ao controle dos movimentos.

Em pessoas suscetíveis, esse desequilíbrio pode favorecer apertamento, ranger de dentes, tensão muscular ou movimentos involuntários da mandíbula.

O mecanismo ainda não explica todos os casos, e o bruxismo raramente tem uma única causa.

A boca costuma dar os primeiros sinais

O bruxismo nem sempre faz barulho.

Muitas pessoas apertam os dentes em silêncio enquanto trabalham, dirigem ou se concentram.

Os sinais mais comuns incluem cansaço ao acordar, dor nos músculos do rosto, dor de cabeça nas têmporas, sensibilidade dentária, desgaste ou trincas nos dentes, restaurações quebradas, dificuldade para abrir a boca e episódios de travamento da mandíbula.

Quando a força se repete por semanas ou meses, o prejuízo pode ir além do desconforto.

Dentes e próteses podem fraturar, a musculatura pode permanecer dolorida e a articulação da mandíbula pode sofrer sobrecarga.

Uma placa pode proteger os dentes em alguns casos, mas não substitui a investigação da causa.

O maior risco é mexer na medicação sozinho

Se o sintoma começou depois de uma nova prescrição ou mudança de dose, anote quando isso ocorreu e procure o dentista e o médico que acompanha o tratamento.

A decisão pode envolver observar, ajustar a dose, trocar a medicação ou adotar outra estratégia, mas cabe ao prescritor avaliar benefícios, riscos e possíveis sintomas de retirada.

Suspender um antidepressivo de forma abrupta pode provocar mal-estar importante e piora do quadro emocional.

Também não é seguro acrescentar outra medicação porque alguém disse que ela ‘corta o bruxismo’.

Há relatos de melhora com algumas estratégias farmacológicas, mas a escolha depende do diagnóstico, das interações e do histórico de cada pessoa.

Cinco perguntas para levar à consulta

  • O apertamento ou a dor começaram depois que iniciei ou aumentei alguma medicação?
  • Os sintomas aparecem durante o dia, ao acordar ou nos dois períodos?
  • Passei a consumir mais café, energéticos, nicotina ou álcool?
  • Meu sono piorou ou tenho acordado muitas vezes durante a noite?
  • Já notei dentes trincados, restaurações quebradas ou travamento da mandíbula?

Medicamento tarjado não é vilão.

O uso sem acompanhamento e a demora em reconhecer um possível efeito adverso aumentam o risco.

Se a mandíbula mudou depois da medicação, não interrompa o tratamento.

Converse com quem prescreveu e procure uma avaliação odontológica capaz de enxergar o bruxismo como um sinal que precisa ser investigado, não apenas como um hábito a ser contido.

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Andréa Melo.
Dra. Andréa Melo

Dra. Andréa Melo (DDS, MSc, PhD) é cirurgiã-dentista (CRO-RJ 33652), graduada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), mestre em Ciência dos Materiais pelo Instituto Militar de Engenharia (IME) e doutora em Dentística pela UERJ. É pesquisadora, autora, educadora internacional, fundadora da SIBX – Sociedade Internacional de Bruxismo e criadora do Exame da Placa Diagnóstica e do Método DTC, voltados ao diagnóstico diferencial, tratamento e controle do bruxismo, ronco e apneia. Já formou mais de 2.000 profissionais em 27 países, consolidando uma atuação internacional baseada em ciência, inovação e educação.

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