Experiências difíceis na infância podem continuar afetando uma pessoa muitos anos depois? Essa é uma pergunta que a ciência tenta responder há décadas, especialmente quando o assunto envolve abuso, negligência e saúde mental.
Um novo estudo analisou imagens do cérebro de milhares de pessoas e encontrou diferenças em algumas estruturas entre indivíduos que relataram níveis mais elevados de maus-tratos na infância e aqueles com menor exposição.
Os resultados ajudam a entender melhor como essas experiências podem estar relacionadas ao desenvolvimento do cérebro.
Mas não existe uma única “marca” deixada pelo trauma. As diferenças apareceram em várias regiões do cérebro e variaram conforme o tipo de experiência e a fase da vida.
Traumas de infância e o desenvolvimento do cérebro
Durante a infância, o cérebro passa por um intenso processo de desenvolvimento. Diferentes regiões e redes neurais ainda estão amadurecendo e podem ser influenciadas pelo ambiente.
Por isso, experiências persistentes de estresse, abuso ou negligência podem estar relacionadas à forma como determinadas áreas do cérebro se desenvolvem.
Foi justamente essa relação que os pesquisadores investigaram.
Eles queriam saber se diferentes tipos e níveis de maus-tratos na infância estavam relacionados a mudanças na estrutura de determinadas regiões do cérebro.
Estudo encontrou diferenças em várias regiões
A pesquisa reuniu imagens de ressonância magnética de 3.711 pessoas, de oito países.
Os participantes incluíam pessoas com depressão ou transtorno de estresse pós-traumático, além de indivíduos sem esses diagnósticos.
Todos responderam a questionários sobre experiências de abuso físico, emocional e sexual e sobre negligência física e emocional durante a infância.
As imagens permitiram analisar características como a espessura do córtex, a área de sua superfície e o volume de estruturas mais profundas do cérebro.
Quanto maior a gravidade dos abusos relatados, maiores foram as associações com diferenças em várias regiões cerebrais. Algumas dessas áreas participam de funções relacionadas às emoções e à cognição.
Mas os resultados não seguiram um único padrão. Em algumas regiões, os pesquisadores observaram redução de determinadas medidas; em outras, aumento.
Ou seja, não apareceu uma única “cicatriz” cerebral associada aos maus-tratos. As diferenças variaram conforme a região analisada.
Mulheres apresentaram associações mais marcantes
As diferenças na estrutura do cérebro associadas aos abusos foram mais evidentes entre as mulheres jovens. Alguns desses padrões também apareceram em mulheres mais velhas.
Já nos casos de negligência, os resultados foram diferentes entre homens e mulheres.
Os pesquisadores ainda não sabem por que isso aconteceu. Eles levantam duas possibilidades:
- meninas podem estar mais expostas a alguns tipos de trauma, como o abuso sexual;
- o cérebro feminino pode responder de maneira diferente às experiências adversas durante o desenvolvimento.
As duas explicações ainda são hipóteses e precisam ser investigadas em novos estudos.
O que isso significa na prática?
O estudo ajuda a entender como experiências de abuso e negligência na infância podem estar relacionadas ao desenvolvimento do cérebro e por que seus efeitos podem ser diferentes de uma pessoa para outra.
Mas o resultado não pode ser aplicado individualmente. Uma ressonância não permite identificar se uma pessoa sofreu maus-tratos na infância nem prever se ela terá depressão, ansiedade ou outro problema de saúde mental.
Isso não significa que quem passou por uma infância difícil terá necessariamente problemas de saúde mental. A experiência pode aumentar alguns riscos, mas não determina o que vai acontecer ao longo da vida.
O estudo foi publicado na revista Biological Psychiatry, em uma colaboração entre pesquisadores da UCLA e do consórcio internacional ENIGMA.
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