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Cão Orelha e adolescência: por que crueldade contra animais não é fase
O caso do cão comunitário Orelha, em Florianópolis, causou comoção e indignação. Quando notícias assim aparecem, muitas pessoas reagem com revolta, pedidos de punição e exposição nas redes. Eu entendo. A dor é real. Mas, como psicóloga perinatal, eu também vejo outro ponto que costuma passar despercebido.
Crueldade contra um ser vulnerável não é um deslize da idade. É um sinal de alerta.
E, quando envolve adolescentes, a conversa precisa ir além do choque para incluir um olhar de desenvolvimento emocional, responsabilização e intervenção adequada.
Cão orelha: o que a teoria do apego ajuda a enxergar
A teoria do apego, desenvolvida por John Bowlby e aprofundada por pesquisadoras como Mary Ainsworth e Mary Main, mostra que empatia e cuidado com o outro se constroem nos primeiros vínculos.
Quando uma criança encontra um adulto consistente, que acolhe, protege e coloca limites, ela aprende a reconhecer emoções e a regular impulsos.
Isso vira uma base interna de segurança.
É a partir dessa base que a criança explora o mundo, aprende frustração, aprende reparação e a considerar o impacto do que faz no outro.
Nos primeiros anos de vida, fase em que o cérebro passa por um desenvolvimento intenso, o bebê precisa de vínculo estável com pelo menos um cuidador.
Quando o cuidado é inconsistente, negligente ou marcado por medo e violência, cresce o risco de dificuldades de regulação emocional e de empatia ao longo do desenvolvimento.
Quando crueldade vira sinal de alerta
Muitas pessoas chamam crueldade de imaturidade. Eu discordo. Crianças pequenas já podem demonstrar empatia.
Elas se incomodam com o choro do outro, tentam consolar, mudam o comportamento quando recebem orientação e limite.
Empatia não nasce pronta, mas ela começa cedo.
O que diferencia um comportamento compatível com a idade de um sinal de risco não é uma frase solta ou um vídeo que circula na internet. É o padrão. Crueldade envolve intenção de ferir, repetição, escalada e indiferença diante do sofrimento do outro.
Quando isso aparece, a resposta precisa ser rápida. Adiar ou relativizar pode consolidar o problema.
Esse é o ponto que mais preocupa.
Crueldade contra animais pode indicar falhas importantes na construção de empatia e na capacidade de se regular. E isso não se resolve com linchamento público. Também não se resolve com “deixa para lá”.
Exige adultos firmes, responsáveis e uma intervenção que funcione na vida real.
O que família e escola devem fazer
Quando família e escola identificam comportamento cruel, o caminho é responsabilização, limite e encaminhamento.
Responsabilização significa consequência clara e proporcional.
Limite significa interrupção imediata de qualquer comportamento agressivo e regras que protegem o outro.
Encaminhamento significa avaliação em saúde mental com profissional qualificado, porque intuição costuma falhar nesses casos.
Muitas famílias não conseguem conduzir isso sozinhas, especialmente quando os próprios adultos repetem padrões negativos ou têm pouco repertório emocional.
Nesses cenários, buscar ajuda não é fraqueza. É cuidado.
Para conversar com adolescentes depois de um caso assim, eu recomendo objetividade.
Primeiro, deixar claro que a violência é grave e tem consequência. Depois, falar de condutas práticas.
- Interromper agressões e pedir ajuda a um adulto
- Não entrar em dinâmica de grupo que normaliza crueldade
- Reparar quando errar e assumir responsabilidade
- Buscar avaliação com psicólogo quando há repetição, escalada ou indiferença ao sofrimento do outro
O que dá para fazer desde cedo
Quando alguém me pergunta como prevenir, eu volto ao começo. A prevenção começa antes do problema aparecer.
Rotina previsível, resposta consistente às necessidades do bebê, nomear emoções e ensinar reparação depois de conflitos fortalecem regulação emocional e empatia.
Isso é construção diária, sem discursos grandiosos.
Alguns cuidados ajudam a fortalecer vínculo e regulação emocional desde a primeira infância:
- Ter uma rotina minimamente previsível, com presença e constância
- Responder às necessidades do bebê com consistência, sem perfeição, mas com reparo
- Nomear emoções desde cedo, para a criança aprender a reconhecer o que sente
- Ensinar reparação após conflitos, como consertar e não repetir
- Observar sinais de estresse intenso dos cuidadores e buscar suporte antes do esgotamento
Muitos pais e mães repetem, sem perceber, o que viveram. Por isso, eu defendo orientação desde a gestação.
- O pré-natal psicológico ajuda a organizar expectativas e reduzir ansiedade e estresse;
- Apoia o vínculo e orienta boas práticas educativas;
- Ajuda a evitar repetição de padrões negativos que atravessam gerações.
Leitura Recomendada: Gravidez na adolescência: por que acolher é mais importante do que julgar
Rafaela Schiavo é psicóloga perinatal e fundadora do Instituto MaterOnline. Dedica-se à saúde mental materna desde sua formação inicial, sendo autora de centenas de trabalhos científicos voltados à redução dos altos índices de sofrimento emocional durante a gestação e o puerpério.



