Equoterapia: por que usar um cavalo no tratamento faz mais sentido do que parece

À primeira vista, usar um cavalo como parte de um tratamento pode parecer estranho. Mas é justamente o movimento do animal que faz da equoterapia uma ferramenta usada na reabilitação de pessoas com diferentes necessidades de saúde.

A cada passo, o cavalo produz estímulos que desafiam o corpo e o cérebro ao mesmo tempo. Esse movimento ajuda a desenvolver habilidades importantes e complementa o trabalho realizado por outros profissionais da saúde.

Utilizada há décadas em vários países, a equoterapia integra o plano terapêutico de crianças, adolescentes, adultos e idosos.

Ela não substitui tratamentos médicos ou de reabilitação, mas pode potencializar os resultados quando há indicação para o caso.

Muito além de montar a cavalo

Quem vê uma sessão pela primeira vez costuma pensar que a pessoa está apenas montando no cavalo.

Na realidade, tudo é planejado.

Antes mesmo de começar, a equipe define objetivos para aquele atendimento e escolhe o cavalo mais adequado. Porte, temperamento, tipo de marcha e treinamento fazem diferença na atividade.

Por isso, a equoterapia vai muito além do contato com o animal. Ela reúne profissionais de diferentes áreas para estimular habilidades motoras, cognitivas e emocionais de forma integrada.

O que o movimento do cavalo tem de diferente?

Enquanto o cavalo caminha, quem está montado faz pequenos ajustes para manter o equilíbrio, muitas vezes sem perceber.

Músculos do tronco, do quadril e das pernas trabalham continuamente. Ao mesmo tempo, o cérebro recebe informações da visão, das articulações e do sistema responsável pelo equilíbrio.

É essa combinação que torna a atividade tão diferente de um simples passeio.

Em conteúdo disponibilizado pelo Conselho Regional de Medicina Veterinária do Estado de São Paulo (CRMV-SP), a zootecnista e equitadora Julia Lourenzon explica que o movimento tridimensional do cavalo gera estímulos complexos ao corpo e favorece o trabalho de equilíbrio, postura, coordenação motora e mobilidade.

Esses estímulos ajudam a explicar por que a equoterapia desperta interesse de pesquisadores e é utilizada como complemento em programas de reabilitação.

Não é só o corpo que participa

Os efeitos da equoterapia vão além dos movimentos realizados sobre o cavalo.

Em muitos centros, a atividade começa antes da montaria. Escovar o animal, conduzi-lo ou participar dos cuidados iniciais ajuda a criar vínculo e torna a experiência mais acolhedora.

Para muitas crianças, isso também aumenta o interesse pela terapia. Em vez de repetir exercícios dentro de uma clínica, elas participam de atividades que estimulam atenção, concentração e interação de forma mais natural.

Os resultados, porém, não dependem apenas do cavalo. Eles são consequência do trabalho conjunto da equipe terapêutica, do envolvimento da pessoa atendida e da continuidade do tratamento.

Equoterapia
Equoterapia / SaúdeLab

O que a ciência já sabe sobre os benefícios?

Nas últimas décadas, a equoterapia passou a ser estudada com mais profundidade. Hoje, as evidências mais consistentes estão relacionadas aos ganhos físicos e funcionais.

As pesquisas apontam benefícios como:

  • melhora do equilíbrio;
  • maior controle postural;
  • aperfeiçoamento da coordenação motora;
  • maior estabilidade do tronco;
  • melhora da funcionalidade e da marcha em alguns grupos de pacientes.

Esses resultados costumam aparecer quando a equoterapia faz parte de um programa de reabilitação e é combinada com outras intervenções.

Já benefícios relacionados à autoestima, à comunicação e à interação social também aparecem em diferentes estudos. Embora sejam promissores, ainda precisam de evidências mais consistentes para serem confirmados.

Para quem a equoterapia pode ser indicada?

A equoterapia não é indicada apenas com base em um diagnóstico. Antes de iniciar as sessões, a equipe avalia as necessidades, as limitações e os objetivos de cada pessoa.

Por isso, pacientes com a mesma condição podem seguir planos terapêuticos diferentes.

De forma geral, a equoterapia pode ser indicada como complemento da reabilitação em casos como:

  • transtorno do espectro autista (TEA);
  • paralisia cerebral;
  • síndrome de Down;
  • sequelas de AVC;
  • lesões medulares;
  • esclerose múltipla;
  • outras condições que comprometem o equilíbrio, a postura ou a coordenação motora.

A indicação deve ser sempre individualizada e feita por profissionais capacitados.

Como funciona uma sessão?

Tudo começa com uma avaliação para definir os objetivos do tratamento.

Depois, a equipe planeja as atividades de acordo com as necessidades da pessoa atendida.

Durante a sessão, podem ser realizados exercícios de equilíbrio, mudanças de postura, alcance de objetos, jogos e outras tarefas que estimulam movimento, atenção e coordenação.

A escolha do cavalo também faz parte do planejamento terapêutico. A médica veterinária Talita Gonçalves da Silva Vieira destaca que ele é selecionado de acordo com os objetivos definidos para cada praticante.

A duração e a frequência das sessões variam conforme a necessidade de cada caso.

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Quando a equoterapia exige cuidados especiais

Embora seja considerada uma prática segura quando realizada em centros especializados, a equoterapia não é indicada para todas as pessoas.

Algumas condições podem exigir adaptações ou até contraindicar a atividade, como instabilidade cervical grave, osteoporose avançada, luxações articulares não estabilizadas e crises convulsivas sem controle adequado.

Segundo o CRMV-SP, a avaliação médica é essencial antes do início do tratamento e a decisão deve ser compartilhada entre os profissionais envolvidos.

Também é importante lembrar que os resultados variam de uma pessoa para outra e dependem da condição clínica, da regularidade das sessões e da continuidade do tratamento.

O cavalo também precisa de cuidados

A equoterapia depende do bem-estar do animal.

Por isso, os cavalos utilizados nas sessões devem receber treinamento específico, acompanhamento veterinário e períodos de descanso, além de manejo adequado para preservar sua saúde e garantir a segurança da atividade.

Tem equoterapia pelo SUS?

Ainda não existe oferta nacional de equoterapia pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Embora a prática seja regulamentada no Brasil desde 2019 e deva ser realizada por uma equipe multiprofissional (que pode incluir médico, médico-veterinário, fisioterapeuta, terapeuta ocupacional, psicólogo, profissional de equitação entre outros), ela ainda não foi incorporada nacionalmente aos serviços ofertados pelo SUS.

Há um projeto de lei em tramitação no Congresso Nacional que prevê essa inclusão, mas a proposta ainda não foi aprovada definitivamente.

Enquanto isso, alguns estados e municípios disponibilizam a equoterapia gratuitamente por meio de programas próprios ou convênios com centros especializados.

Por isso, o acesso ao tratamento pode variar conforme a política de saúde de cada localidade.

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Redação SaúdeLab

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