Menstruar faz parte da vida. Sofrer com isso não deveria fazer

Embora o Dia Internacional da Dignidade Menstrual tenha sido celebrado em 28 de maio, a discussão sobre o tema não pode ficar restrita a uma data do calendário.

Menstruar é uma experiência que acompanha milhões de mulheres durante décadas de suas vidas e, ainda assim, continua cercada por tabus, desinformação e barreiras de acesso a cuidados básicos.

Falar sobre dignidade menstrual é falar sobre saúde pública, cidadania e direitos.

Quando pensamos em dignidade menstrual, muita gente associa imediatamente o conceito ao acesso a absorventes. E, de fato, esse é um aspecto fundamental. Mas a questão é muito mais ampla.

O que significa dignidade menstrual na prática?

Garantir dignidade menstrual significa oferecer informação de qualidade, acolhimento, acesso ao diagnóstico e tratamento adequado para doenças ginecológicas, além de condições que permitam que meninas e mulheres vivam seu ciclo sem vergonha, medo ou limitações.

Na prática, porém, ainda vemos adolescentes faltando à escola porque não têm acesso a produtos de higiene menstrual.

Vemos mulheres sofrendo em silêncio com dores incapacitantes consideradas “normais” e pacientes que levam anos para receber diagnóstico de condições como endometriose, síndrome dos ovários policísticos e sangramentos menstruais anormais.

Muitas cresceram ouvindo que sentir dor intensa faz parte de “ser mulher”. Não faz.

Quando a dor menstrual não deve ser considerada normal

A romantização do sofrimento feminino é um problema histórico.

Existe uma tendência cultural de minimizar sintomas menstruais e normalizar impactos físicos e emocionais que, muitas vezes, comprometem a qualidade de vida, a produtividade e até a saúde mental das pacientes.

Cólicas incapacitantes, fluxo excessivo, irregularidade menstrual e alterações severas de humor precisam ser investigados, não ignorados.

Também é importante entender que saúde menstrual não é um tema restrito à adolescência.

Mulheres adultas frequentemente enfrentam dificuldades para manter consultas ginecológicas regulares, seja pela rotina sobrecarregada, pela falta de acesso aos serviços de saúde ou pelo receio de falar sobre questões íntimas.

O resultado é um ciclo de desinformação que favorece diagnósticos tardios e sofrimento evitável.

Dignidade menstrual e desigualdade social caminham juntas

Outro ponto que merece atenção é a relação entre dignidade menstrual e desigualdade social.

Mulheres em situação de vulnerabilidade são as mais afetadas pela pobreza menstrual e pela ausência de acesso a cuidados básicos. E isso tem consequências diretas na educação, no mercado de trabalho e na autoestima.

Quando uma menina deixa de frequentar a escola porque está menstruada, não estamos falando apenas da falta de absorventes. Estamos falando de exclusão social e da limitação de oportunidades.

Nos últimos anos, o debate avançou. A mobilização em torno do Dia Internacional da Dignidade Menstrual ajudou a ampliar a visibilidade do tema e impulsionou discussões importantes sobre pobreza menstrual, acesso à saúde e direitos das mulheres.

Mas ainda existe uma grande distância entre tornar o assunto mais conhecido e garantir assistência integral para quem precisa.

Precisamos de educação menstrual desde cedo, acesso facilitado à saúde ginecológica e ambientes mais preparados para acolher as necessidades femininas sem julgamentos.

Falar sobre dignidade menstrual também significa reconhecer que o corpo feminino não deve ser tratado como inconveniente ou motivo de constrangimento.

Menstruar não pode continuar sendo sinônimo de vergonha, silêncio ou invisibilidade.

Informação reduz sofrimento e permite diagnósticos mais precoces. Mais do que uma pauta de uma data específica, a dignidade menstrual deve ser entendida como um compromisso permanente com a saúde e o bem-estar das mulheres.

Porque dignidade menstrual não é privilégio, não é luxo e muito menos uma pauta secundária. É saúde, respeito e um direito básico de toda mulher.

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Karoline Prado
Dra. Karoline Prado Prado

Médica ginecologista e obstetra, com atuação voltada à saúde íntima feminina em todas as fases da vida. Pós-graduada em procedimentos íntimos, incluindo laser e cirurgia íntima, trabalha com foco em bem-estar, funcionalidade e qualidade de vida da mulher. Defende uma abordagem humanizada, baseada em evidências, com ênfase no acolhimento, autonomia e educação em saúde. CRMSC 23763 | RQE18765

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