Quem assistiu ao clássico do terror Uma Noite Alucinante: A Morte do Demônio (1981) talvez se lembre da cena em que a mão de Ash Williams parece ganhar vontade própria. Na vida real, algo que lembra essa situação pode acontecer por uma razão completamente diferente. Existe uma rara condição neurológica chamada síndrome da mão alienígena.
A pessoa pode perceber uma das mãos se movimentando sem que tenha decidido fazer aquilo. Ela pode alcançar um objeto, agarrá-lo ou até interferir em um movimento realizado pela outra mão.
Não se trata de uma mão realmente “possuída”. O que existe é uma alteração neurológica que pode fazer com que a intenção de realizar um movimento e o próprio movimento deixem de andar juntos como deveriam.
O que é a síndrome da mão alienígena?
A síndrome ocorre quando uma das mãos realiza movimentos involuntários que podem parecer intencionais. A pessoa pode sentir que não decidiu iniciar aquela ação ou ter dificuldade para interrompê-la.
Não se trata necessariamente de um simples tremor. Dependendo do caso, a mão pode tocar, alcançar ou agarrar objetos e até parecer interferir no que a outra mão está fazendo.
Existe uma diferença importante. A pessoa não necessariamente acredita que a mão deixou de fazer parte do seu corpo. O que fica alterado é a sensação de que ela está sob seu comando habitual.
Por que isso acontece?
Para levantar a mão, pegar um objeto ou realizar qualquer outro movimento voluntário, várias regiões do cérebro precisam trabalhar em conjunto.
Quando alguma delas ou a comunicação entre elas é afetada, o movimento pode deixar de responder normalmente à intenção da pessoa.
A síndrome já foi relacionada a alterações em regiões frontais e parietais e no corpo caloso, estrutura que conecta os dois lados do cérebro. Por isso, não existe uma única causa para o fenômeno.
Quais doenças podem estar por trás?
A síndrome pode aparecer após um acidente vascular cerebral (AVC) e também em casos de tumores, traumatismos e outras lesões cerebrais.
Ela também pode estar associada a algumas doenças neurodegenerativas.
Uma das relações mais conhecidas é com a síndrome corticobasal, que pode causar alterações de movimento, rigidez e dificuldade para realizar determinadas ações.
Isso não significa que toda pessoa com Parkinson ou parkinsonismo desenvolverá uma mão alienígena. O fenômeno precisa ser avaliado junto com os outros sinais apresentados.
Mão mexendo sozinha pode ser sinal de AVC?
Pode, especialmente quando o fenômeno aparece de repente.
Há casos em que a síndrome da mão alienígena foi uma manifestação de um AVC agudo. Por isso, um movimento involuntário novo e inesperado não deve ser simplesmente tratado como uma curiosidade do sistema nervoso.
Se a alteração surgir subitamente, principalmente acompanhada de fraqueza ou dormência em um lado do corpo, dificuldade para falar, alteração da visão, perda de equilíbrio ou outro sintoma neurológico, é necessário procurar atendimento de emergência.
Isso não significa que toda mão involuntária seja um AVC. O ponto é que o aparecimento súbito de um sintoma neurológico merece investigação rápida.
Como é feito o diagnóstico?
Não existe um exame único para confirmar a síndrome da mão alienígena. O diagnóstico é clínico e começa pela descrição dos movimentos, de quando eles aparecem e de como a pessoa percebe o que está acontecendo.
O neurologista também procura outros sinais que possam ajudar a descobrir a causa. Exames de imagem, como a ressonância magnética, podem identificar lesões ou alterações no cérebro.
Existe tratamento?
O tratamento depende da causa. Quando há uma doença ou lesão por trás do fenômeno, é ela que deve ser tratada. A reabilitação também pode ajudar a pessoa a lidar melhor com os movimentos e diminuir seu impacto no dia a dia.
Como a síndrome é rara, ainda há poucos estudos sobre tratamentos específicos. Por isso, não existe uma terapia única indicada para todos os casos.
O que a síndrome revela sobre o cérebro?
A síndrome da mão alienígena mostra como algo que parece automático, como levantar a mão ou pegar um objeto, depende de mecanismos cerebrais bastante precisos.
Quando eles são afetados, a pessoa pode continuar reconhecendo a mão como sua, mas perder parte da sensação de que está no comando daquele movimento.
A mão não ganha vontade própria. O que acontece é uma alteração neurológica que pode fazer com que a intenção e o movimento deixem de andar juntos como deveriam.
É um fenômeno raro, mas que ajuda a revelar o quanto existe por trás de um gesto que normalmente fazemos sem pensar.
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