Imagine acordar amanhã e descobrir que, por algum motivo, você não consegue mais trabalhar, cuidar da casa, ajudar a família ou cumprir aquilo que todos esperam de você. O que seria mais difícil: lidar com a mudança ou sentir que você deixou de ser necessário?
É uma pergunta incômoda, mas ela ajuda a entender uma das leituras possíveis de A Metamorfose, de Franz Kafka, feita pela psicóloga e escritora Carolina Michelini.
No livro, Gregor Samsa acorda transformado em um inseto. Mas, antes mesmo de tentar entender o que aconteceu com seu próprio corpo, ele pensa no trabalho, no atraso, no chefe e nas cobranças.
Para Michelini, esse detalhe é fundamental. A maior preocupação de Gregor, naquele momento, não é compreender a própria transformação, mas descobrir como vai justificar que não poderá trabalhar.
A transformação, então, não cria de repente o problema de Gregor. Ela revela algo que já existia. Ele era o responsável por sustentar a família e havia construído sua vida em torno dessa função.
“Enquanto ele produzia, era tolerado; enquanto sustentava a casa, era necessário”, afirma a psicóloga.
Quando produzir passa a definir quem você é
A interpretação de Michelini vai além da história de Kafka. Ela relaciona a situação de Gregor a uma experiência bastante atual, que é a sensação de que nosso valor depende daquilo que conseguimos entregar.
É fácil reconhecer essa lógica no cotidiano. Há quem se sinta culpado por descansar, angustiado quando não consegue cumprir uma tarefa ou fracassado depois de uma queda de produtividade.
Gregor, segundo a psicóloga, já estava exausto antes da metamorfose. Trabalhava em excesso, viajava constantemente e suportava as humilhações do chefe para pagar as dívidas da família.
“Ele não vive para si, ele funciona para os outros”, diz Michelini.
A ideia pode parecer distante da realidade de quem nunca imaginou acordar transformado em um inseto. Mas a pergunta por trás da história é bastante familiar: quem somos quando deixamos de conseguir fazer aquilo que sempre fizemos?
A vergonha de não conseguir mais corresponder
Gregor começa a se esconder e evita ser visto. Na leitura de Michelini, isso também revela a vergonha de não corresponder mais às expectativas.
“Não há revolta, há retraimento”, afirma.
É nesse ponto que a história pode encontrar o leitor de hoje. Não é preciso passar por uma transformação fantástica para sentir algo parecido.
“Você não precisa se transformar em inseto para sentir isso. Basta adoecer, basta fracassar, basta parar,” destaca a psicóloga.
Uma doença, uma demissão, um fracasso profissional ou simplesmente um período em que não se consegue dar conta de tudo podem mexer com a maneira como uma pessoa enxerga a si mesma.
A questão deixa de ser apenas “o que eu consigo fazer?” e passa a ser “quem sou eu quando não consigo fazer?”.
O medo de se tornar substituível
Depois que Gregor deixa de trabalhar, a família precisa se reorganizar. Outros passam a trabalhar e a casa continua funcionando. Aos poucos, ele se torna dispensável dentro da própria casa.
Para Michelini, esse momento toca em um medo que pode existir muito além da ficção: o de descobrir que, se você parar, alguém ocupará rapidamente o seu lugar.
“Kafka confronta o medo que poucos admitem: o medo de ser substituível”, afirma.
A psicóloga relaciona esse medo a uma cultura que valoriza desempenho, currículo, metas, produtividade e visibilidade. Quando ser útil deixa de ser apenas uma forma de contribuir e passa a funcionar como condição para se sentir valorizado, parar pode provocar culpa e vergonha.
Por isso, a pergunta levantada por Michelini a partir de Kafka permanece atual: se você deixasse de ser útil amanhã, ainda reconheceria valor em si mesmo?
A força de A Metamorfose talvez esteja justamente aí. A história não precisa de uma transformação fantástica para provocar identificação. Basta pensar em como seria adoecer, fracassar, perder o emprego ou simplesmente não conseguir dar conta de tudo por algum tempo.
Carolina Michelini é psicóloga e escritora e publicou essa reflexão no canal Clube de Leitura Ler-Se, no YouTube, ao abordar a relação entre Kafka e a vergonha de não servir mais.
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